terça-feira, 6 de março de 2012

Continuo com mais duas poesias, O Canto em mim:


A rosa nos lábios

Uma rosa nos lábios
que se desfolha pétala a pétala
desenhando o teu sorriso.


Os Faunos deixaram os jardins

Nos jardins das cidades não há Faunos
há flores, relvas, árvores,
por vezes melros,
e nenhuma ninfa.
Os deuses antigos
já não gostam dos jardins que lhes dão,
um a um, foram-se embora
e já não há Faunos nos jardins das cidades.


António Eduardo Lico





Tinha que chegar o dia de Fernando Pessoa, ainda que hoje seja pela mão de Alberto Caeiro, o mestre que Pessoa tinha dentro dele mesmo.
Pouco adiantará esboçar aqui dados biográficos, ou considerações críticas da sua obra, mormente a sua poesia. Pede-se a sua poesia, mais do que falar dele:



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.



Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.


Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.


E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.


Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.


Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural -
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O segundo projecto de Poesia a que me propus designei-o Canto em mim.
Deixo hoje as duas primeiras poesias do projecto:


O canto em mim

Canto como se fosse sempre noite
e as palavras como sombras
oráculos da voz. ausente.

O deus antigo murmura
e a música esvai-se
como se o canto fosse em mim.

Um Olhar Sobre a Chuva

Com olhar inexistente
olho a chuva que cai no chão
para além da vidraça

A chuva cai sempre com graça.
Vê-la através de uma janela
líquida e insubstancial

a chuva, substância imaterial
que está para além do olhar
e para além de todas as janelas.

Redondas, as gotas, são elas
que tecem a estranha harmonia
da música que tocas ao beijar o chão

para aquém da vidraça, em vão
tento adivinhar-te caindo
com olhar inexistente


António Eduardo Lico


Nesta manhã com um tempo entre o Inverno e a Primavera, apresento Dante.

Dante Alighieri nasceu em Florença em 1265 no seio de família nobre e abastada. Aos 9 anos tem o seu primeiro encontro com Beatriz. Entre 1283 e 1293 escreve os poemas reunidos em Vida Nova.
Em 1290 morre Beatriz. Em 1295 inicia a sua carreira política.Em 1300 é eleito um dos seis priori de Florença. Eclodem praticamente a seguir graves desavenças políticas em Florença. Como resultado, Dante é exilado em 1302. Morre em 1321 vítima de malária.
Dante ficou para a posteridade pela sua Divina Comédia. Na verdade Dante nunca escreveu algo intitulado Divina Comédia, Escreveu sim a Comedia. Mais tarde Boccaccio na sua biografia de Dante propôs o título de Divina Comedia para a conhecida e afamada obra de Dante. Divina, no sentido de grandiosa, eloquente, ímpar. E na verdade a Comedia de Dante é algo grandioso e nos limites da criatividade do espírito humano. A Comedia narra uma viagem pelo Paraíso, Purgatório e Inferno. Na viagem ao Inferno e Purgatório, Dante é guiado pelo grande poeta Virgílio. No Paraíso é guiado por Beatriz.
Ficam algumas das estrofes iniciais do Inferno:


Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant'è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch'i' vi trovai,
dirò de l'altre cose ch'i' v'ho scorte.

Io non so ben ridir com'i' v'intrai,
tant'era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.


domingo, 4 de março de 2012


Publico as últimas 3 poesias do projecto poético que sob o título "Que de dentro não se vê" conseguiu ver a luz do dia, e porventura encontrar alguns leitores interessados:

Vértice

No vértice que te desenha e coroa
nasce o rio, que impetuoso
esboça meandros no meu peito.


O Tic Tac dos Relógios é melancólico

Melancólico, o tic tac dos relógios,
de todos os relógios.
Inesgotável como o tempo,
empresta-lhe o som
como se quisera fazer música
como a faz um metrómeno.
Melancólico, apenas lhe marca o ritmo
as notas são tocadas pela vida.
Melancólico, o tic tac dos relógios,
de todos os relógios.


Rosa Vermelha
(Homenagem a Rosa Luxemburgo, assassinada pelos social-democratas alemães)

Vermelha é a Rosa
e agora está ela
de vermelho tingida.
Não te queriam vermelha
nem te queriam Rosa
e te quiseram sem perfume.
De Eros recebeste o silêncio
que a rosa esconde.
Emergiste na espuma das águas,
as pétalas numa concha
e eras vermelha, como uma Rosa.


Lisboa Perto e Longe de Manuel Alegre dito por Mário Viegas


Duas poesias que escrevi, se bem me recordo em 2006: Uma, escrita em inglês, a outra é a poesia que deu o título ao livro:


Que de dentro não se vê


Há mil anos um velho sábio
contavas histórias
apenas quando o entardecer
se prolongava como
planície na geometria
que vai do ocidente ao oriente.
Disse planura, geometria?
O entardecer não tem geometria
de tão ser pitagórico.
A sua planura esvai-se nos
purpúreos redondos delírios
do sol, esse fabricante fictício
e abstracto de entardeceres.
No entardecer melancólico,
há mil anos,
o velho sábio contava
histórias ao entardecer.




Your Silence...

Your silence, as a rose on your lips
keeps the flavour of the petals.
And when the Spring returns
the petals will open the silence
as a rose on your lips.