sexta-feira, 16 de março de 2012

Mais três poesias de O Canto em mim



Flor que brilhas no jardim

Flor que brilhas no jardim
é breve o teu perfume;
a cor que te acaricia
as pétalas é fugaz.
Olho-te, e sei que a vida
te será breve.
Não sou filósofo, nem metafísico
nem sei porque me sento num jardim.
Sei-te breve, flor que brilhas no jardim,
o teu perfume me alimentará
e o instante será breve.
A tua seiva quente penetrará a terra.
Não sei porque me sento num jardim.


Te quisera verde

Queria-te como o trigo
ondulando, verde, ao longe,
como uma melodia.
Queria-te como o vento
Que ondula o trigo,
ao longe, como uma melodia.
Queria-te verde. Como a melodia
entoada pelo trigo, que ondula,
ao longe, embalado pelo vento.


De noite a lenha arde obscura

De súbito, era tudo noite
e o silêncio ardeu
como obscura lenha.
De súbito, era tudo silêncio
e a noite ardeu
como obscura lenha.
E era apenas noite e silêncio
e lenha que ardia, obscura.


António Eduardo Lico


Sexta-Feira, nublada na velha, e segundo alguns pérfida Albion. Tempo para regressar à poesia portuguesa com António Franco Alexandre.
Nascido em 1944 em Viseu, António Franco Alexandre, com formação em Matemática e Filosofia, exerce actividade docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Um dos poetas mais originais da actualidade poética portuguesa, António Franco Alexandre é sem margem para dúvidas um dos grandes poetas portugueses da actualidade.
Fica esta poesia da sua obra Duende:


JÁ A LUZ SE APAGOU DO CHÃO DO MUNDO

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Mais três poesias de o Canto em mim



Poesia imaginada e enigmática

O enigma que me veste
canta com muitas vozes
o espanto com que me fito.


Despertai deuses antigos

Oh deuses antigos, despertai
do vosso olímpico sono,
vinde à Terra das Laranjas
e trazei o sagrado mosto
das antigas libações.
Oh deuses antigos, vinde,
vinde à Terra das Laranjas,
trazei o sopro antigo
que do mosto fazia o vinho
e tornava as profecias
em eternas melodias.


De Eros era a rosa

De Eros era a rosa
que em Prometeu
foi Fogo e limo.
depois centelha de vida.
Seria já rosa
o que Pandora
escondia na caixa divina?
Da rosa apenas ficou
a esperança encerrada;
a caixa fechou-se.
Prometeu, eternamente
devorado, e sempre renascido
como o lume que se reacende
e torna fresca a eterna rosa.

António Eduardo Lico



Tempo para Walt Whitman.
Walt Whitman nascido em 1819 e falecido em 1892, dividiu a sua actividade entre a poesia, o jornalismo, o ensaio, a impressão e o ensino.
Whitman ombreia com o francês Charles Baudelaire, como maiores influências na lírica moderna.
Whitman cultivou o verso livre e cantou o homem moderno e a natureza humana em versos inovadores.
Leaves of grass é a sua obra fundamental em poesia, à qual dedicou toda a sua vida. Leaves of Grass teve oito edições em vida de Whitman.
Fica a poesia inicial de Leaves of Grass


LEAVES OF GRASS

Come, said my soul,
Such verses for my Body let us write, (for we are one,)
That should I after return,
Or, long, long hence, in other spheres,
There to some group of mates the chants resuming,
(Tallying Earth’s soil, trees, winds, tumultuous waves,)
Ever with pleas’d smile I may keep on,
Ever and ever yet the verses owning—as, first, I here and now
Signing for Soul and Body, set to them my name,

quarta-feira, 14 de março de 2012

Mais três poesias de O Canto em mim



Em Lisboa a claridade é azul

Canto-te Lisboa
e quero-te azul,
como quando o Tejo
é o azul do teu céu.


Marítima

En la orilla, esa que lle llaman, de la mare
las arenas son el testigo antiguo
de noches y luna naciendo en tu seno.


La Tristesse est triste

La tristesse est plus triste
quand le Printemps habille
de vert tes yeux, et le vent
fait naître des hirondelles,
ces roses tristes
qui parfument l’air,
et peignent tes cheveaux
de melodies secrètes.

António Eduardo Lico


Quarta-Feira, um dia bom para a poesia de Pablo Neruda.
Nascido em 1904 em Parral, Chile, morreu em Santiago do Chile em 1973, pouco após o sangrento golpe de Pinochet.
Pablo Neruda é o nome literário, primeiro adoptado, depois tornado nome legar após acção de modificação do nome civil.
Militante comunista, Pablo Neruda foi agraciado com o Nobel da Literatura em 1971.
Companheiro da geração de 27 no período em que foi cônsul em Espanha, dirigiu a Revista Caballo Verde.
Fica uma poesia do Canto General:



Los ríos acuden
Amada de los ríos, combatida
por agua azul y gotas transparentes,
como un árbol de venas es tu espectro
de diosa oscura que muerde manzanas:
al despertar desnuda entonces,


eras tatuada por los ríos,
y en la altura mojada tu cabeza
llenaba el mundo con nuevos rocíos.
Te trepidaba el agua en la cintura.
Eras de manantiales construida


y te brillaban lagos en la frente.
De tu espesura madre recogías
el agua como lágrimas vitales,
y arrastrabas los cauces a la arena
a través de la noche planetaria,


cruzando ásperas piedras dilatadas,
rompiendo en el camino
toda la sal de la geología,
cortando bosques de compactos muros,
apartando los músculos del cuarzo.

terça-feira, 13 de março de 2012

Coloco mais três poesias de O Canto em mim, sendo uma em inglês.



Que este olhar não me

Oculto-me na multidão
e vejo-me passar ao longe.
Fito-me como se fosse estranho.


In the silence there is a rose

Sometimes, when your eyes find my eyes
your enigmatic silence
is as if you were asking mewhat is a rose?
I close my eyes and seal my lips
and the rose is between our silence.


Entre a Claridade e a sombraa rosa

Era clara a obscuridade
que habitava, fria,
a sombra dos teus olhos.
Uma brusca rosa
nascia-te nos cabelos.


António Eduardo Lico