sábado, 31 de março de 2012

Mais três poesias de A rosa é a via:





Como rosa

Como rosa que compõe
jardins nos teus cabelos
e colhe água nos teus olhos,
o teu perfume secreto e denso
perde-se ao longe.


Pour une rose fort et intense

Toi qui est fort et intense
reine sur mon corps
et ma volonté.
Soit l’aigle qui vole,
et retourne sur moi
portant des roses.


La rose aux lèvres

Quand mon corps
sera un jardin submerse,
suspendu au coin de ta volonté
une liquide rose, rouge et noire
fleurirá entre nos lèvres.


António Eduardo Lico


O poeta deste Sábado é Armando da Silva Carvalho.
Nascido em Óbidos em 1938, dividiu a sua actividade entre a advocacia, ensino, tradução, jornalismo.
Estreou-se em poesia com a obra Lírica Consumível e, 1965, tendo recebido o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de escritores.
Fica esta poesia:



Cinzas de Sísifo

Eu vi o sobressalto.
Nesse bosque de lâminas e luvas
tocaste cada coisa como
um grito.

E amaste a minha boca
como quem corta
os pulsos ao silêncio.

Se o vento te derrama
entre folhas e cinza
é sempre a mesma voz que não perdoa

a mesma lei

o mesmo labirinto.
José Afonso, musicou várias poesias de Camões. Fica aqui a belíssima Verdes são os Campos


sexta-feira, 30 de março de 2012

Mais três poesias de A rosa é a via:





Homenagem a Carlos Paredes

A tua guitarra.
obscura labareda
que ardia com o perfume
de mil rosas.



amor...uma rosa

Dê amor aos amantes uma faca
Para que cortem rosas e o tédio
E do amor provem doce remédio
Que só da rosa o perfume aplaca

Se Cupido aos amantes afraca
Da maior fortaleza é prelúdio
É o frio que se torna incêndio
É como o vento que a rosa ataca

Rouba dela o suave aroma
E joga de suave jardineiro
Suspenso em secreto idioma

Voa e é como alado barqueiro
Que voando, brusco, dos céus assoma
E planta a rosa como luzeiro



La dulce lágrima y la rosa

Dulce cae la lágrima dolorida
Amarga y tan llena de perfumes
Como si de los ojos te esfumes
Como se fueras rosa colorida

Como se fueras la agua florida
Que pura en los huertos te consumes
Y siempre corriendo nunca te sumes
Clara y breve y tan indefinida

Ay lágrima dolorida y breve
Vuelas por los aires oh flor hermosa
En tu loco sueño de aguanieve

El ruiseñor te canta dolorosa
En la noche, blanca, honda y leve
Y tu fugaz silueta de diosa


António Eduardo Lico


Na sequência de Casimiro de Brito, apresento hoje Gastão Cruz, também integrante da Poesia 61, e também algarvio, nascido em Faro em 1941.
Poeta, crítico literário e encenador (foi fundador do Grupo de Teatro Hoje), Gastão Cruz traduziu ainda vários autores, como William Blake e Jean Cocteau.
Fica este poema:


Realidade

Os factos
são o espelho as coisas mostram-
-se atravessadas pelos rios
do som A poesia
quebra o vidro do dia como duma
cratera a voz do fogo lança
os jactos

quinta-feira, 29 de março de 2012

Mais três poesias de A rosa é a via:





Soneto da guitarra e da rosa

A guitarra, com ser madeiro oco
Espalha a sua canção dolente;
Das cordas o som é uma torrente
Como se fora duende barroco

A rosa é guitarra que invoco
Cada entardecer ao sol poente;
Harmónico o perfume nascente,
Ao sul destes dedos com que te toco

Na rosa há melodias serenas
Pela guitarra galopam volúpias
E de súbito nascem cantilenas

E na guitarra nascem utopias
Quando nas rosas vemos açucenas
E levantamos do som as mãos ímpias


Música com chuva

Redondas, as gotas, são elas
que formam a harmonia
da música que tocam ao beijar o chão


Iansã, rosa preta


Iansã, rosa preta que vives no vento;
que mistério prende os teus cabelos de oiro
e os prende com flores vermelhas?
Saudade de quando eras Oyá
e corrias nas águas de um rio,
e mansamente voavas com o vento
que nascia em ti.
És água e és fogo
e rosa preta.


António Eduardo Lico

Casimiro de Brito, é o poeta de hoje.
Nascido em Loulé, Algarve em 1938. Começou a publicar em 1957 e desde então já leva publicados mais de 40 títulos entre poesia, ficção e ensaio..
Dirigiu com António Ramos Rosa a Revista "Cadernos do Meio-Dia", e com Gastão Cruz dirigiu os Cadernos "Outubro/Fevereiro/Novembro".
Membro do grupo Poesia 61, importante movimento na Poesia portuguesa, com Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luíza Neto Jorge e Maria Teresa Horta..
Fica ese poema:


SE EU TE PEDISSE A PAZ, QUE ME DARIAS
PEQUENO INSETO DA MEMÓRIA DE QUEM SOU
NINHO E ALIMENTO? SE EU TE PEDISSE A
PAZ, A PEDRA DO SILÊNCIO COBRINDO- ME
DE PÓ, A VOZ RUBRA DOS FRUTOS, QUE ME
DARIAS RESPIRAÇÃO PAUSADA DE OUTRO
CORPO SOB O MEU CORPO?

PERDOA-ME POR SER TÃO SÓ, E FALAR-TE
AINDA DO MEU EXÍLIO. PERDOA-ME SE NÃO
TE PEÇO A PAZ. APENAS PERGUNTO: QUE ME
DARIAS SE A PEDISSE?

A SABEDORIA?
UM CAVALO DE OLHOS VERDES?
UM TRONCO DE MADEIRA PARA NELE GRAVAR O TEU NOME JUNTO AO MEU?
OU APENAS UMA FACA DE FOGO, INTRANQUILA, NO CENTRO DO CORAÇÃO?

NADA TE PEÇO, NADA. VISITO, SIMPLESMENTE, O TEU CORPO DE CINZA.
FALO-LHE DE MIM, ENTREGO-TE O MEU DESTINO. E DELE ME LIBERTO SÓ
DE PERGUNTAR: QUE ME DARIAS SE EU TE PEDISSE A PAZ E SOUBESSES
DE COMO A QUERO REVESTIDA POR UMA CROSTA DE SOL EM LIBERDADE?