sábado, 7 de abril de 2012

Mais três poesias de Amanhecer obscuro:





Ao amanhecer, o mar

Torrencial mar, esse, o Atlântico.
Está perdida essa tua rosa-dos-ventos
como gaivota adormecida na
espuma líquida da tua geografia.
O teu mais célebre náufrago,
esse do Restelo, o Velho,
voga como peixe triste
entre lânguidos corpos de sereias.
Já não tens navegadores
de olhar perdido no horizonte
que te procurem o Oriente e o Poente,
nem largam ténues barcas
para indagarem do Sul, a rosa
quente e promissora que ocultas,
Existes só e inexpugnável
roçando acidental praia
com a tua brilhante espuma
refulgindo de branco
no obscuro amanhecer
com que te cercam.

El misterioso Ocidente de Castilla

 Castilla y su acidente menor, el altiplano;
algunos prefieren decir
que Castilla es el altiplano.
Si, que el mayor acidente de Castilla
es cuando se acaba el altiplano.
Ah, Castilla, te vuelves sin geografia?
Yo sé, te hace falta Portugal  y su famosa gente;
son 89.000 Km quadrados de geografia
que puedes mirar de tus alturas.
Tu luna es la luna castellana
y cuando pasa la frontera
luego vuelve portuguesa
es la luna portuguesa
asi, es la geografia, y la luna
también pasa la raya.
Lunita rayana de todas las noches,
Escondida, pasas la raya
E luego eres portuguesa.
Lunita rayana, olvida Castilla
y da tu luz de plata
a su misterioso Ocidente.


(A rosa de Hiroxima

..mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa

Vinicius de Moraes)


Caía do céu, calmamente, segura num paraquedas,
para se fazer rosa mais abaixo.
Ilha de Hondo, delta do rio Ota, Hiroshima!
Sem que o soubesse, Hiroxima, iria render-se
a uma metálica flor que descia do céu
e o seu nome ficaria para sempre escrito
a fogo em todas as flores.
Ai rosa de Hiroxima, rosa de ferro,
rosa sem perfume e sem pétalas,
só nascida em Hiroxima,
como se esperasses por um jardim
em que a chuva é de ruína
e te faz nascer cinzas em vez de pétalas.




António Eduardo Lico






Nascida em 1966, publicou 3 livros de poesia, Ana Paula Inácio é uma das vozes da presente poesia portuguesa.
Fica este poema:

Acrobacias


sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores -
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços
.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Uma poesia mais de Amanhecer obscuro


Une Voyage

 Les violons

Ah, o teu nome é obscuro - Louis-Ferdinand Destouches,
então surge aquilo que te decifra e te consome – Celine.
Celine, eis o nome, alguns dirão até 666.

Crépuscule
 
Et ton Voyage au bout de la nuit?
Tu dizias que não eras um homem de ideias,
as ideias, estavam nos livros, volumes e volumes;
a ti só o estilo de interessava.
Tu étais un homme à style.
Não te perdoaram que tivesses escrito
O inesperado de Voyage au bout de la nuit,
Algo assim, só eles podiam  fazer.
Adivinhaste, culpam-te dos Pamphlets;
culpam-te ainda mais  dos Pamphlets,
e dizem a palavra definitiva: antisémite;
essa palavra com que exterminam
todos os que não gostam; e eles não gostam de muitos.
De mim, é difícil dizerem que sou um desses, vejamos:
Gosto dos Fenícios, eram semitas,
e se não eram deveriam ser.
Gosto do povo de Kem, eram os egípcios antigos,
e eram semitas genuínos, genuínos mesmo.
Gosto dos Camitas, e porque não dos Filisteus?
acaso não eram semitas? Dos da Babilónia
gosto também, e são semitas desde sempre;
hoje ninguém se lembra, mas eles podem esquecer-se;
e esqueceram-se, esqueceram-se.
Já vai longe a Suméria, diziam que vinham da Anatólia
(os Sumérios – claro)
e depois, a sua brilhante civilização
foi substituída por sucessores semitas.
Eles esquecem-se, e até dizem que a História começa
com a Suméria. Eles esquecem-se, esquecem-se.
Estão sempre a esquecer-se;
mesmo quando não se esquecem,
é porque se esqueceram.
Vejam bem, eu gosto dos Assírios!
Gosto até dos Hititas, mas esses não eram semitas,
mas gosto deles; vieram da Anatólia (o que não era longe)
e conquistaram o Egipto, conquistaram Kem.
Gosto dos Hebreus; os da Babilónia tinham
um nome pare eles: Habiru.
Freud, que de Viena antevia Moisés, o egípcio,
Não esqueceu o nome – Habiru.
Ah pensaram que me esqueci dos da Galileia?
Esses não eram Hebreus; eram Galileus
e a Galileia teve que ser conquistada;
tinha uma divindade rival da de Jerusalém.
Tu não sabias nada disto, sempre ignoraste
os ardis subtis da História e das estórias,
eras médico e eras styliste.

Finale

Louis-Ferdinand, (où Celine), écoutes moi bien !
Ainda procuram, ou vasculham,
talvez sejam apenas como os voyeurs,
apenas querem ver. Talvez pensem em Haia...
(projectivamente, bem entendido).
Écoutes! Eles procuram,
procuram as tuas últimas cartas,
não te querem publicar a ti,
querem interpretar as tuas últimas cartas;
parecem condenados à guilhotina,
esperando com angústia de condenados
o seu último e longo minuto,
esse antes do frio da lâmina.
Ahhhh, quiseram-te apenas médico,
e com absoluta assepsia
asseguraram-se disso mesmo!
Presumo que sorriste,
tu est un styliste.


António Eduardo Lico

Filho de pai português e mãe espanhola, nascido em 1929, Fernando Echevarria é o poeta de hoje.
Escreveu sempre em português, e ocasionalmente em castelhano e francês. Colaborou em revistas como Graal, Eros, Colóquio.
Melhor do que falar das características da sua poesia, melhor é lermos a sua poesia:


Vinham Rosas na Bruma Florescidas

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Duas poesias de Amanhecer obscuro:





Rimbaud e Baudelaire eram franceses...

 Rimbaud e Baudelaire eram franceses,
poetas franceses, concluo.
Não estudo Lógica, mas deveria fazê-lo.
se o fizesse,  saberia, ver  para além
do que se pode ver numa manhã obscura,
saberia até da estética usada
pelos poetas franceses. Sem dúvida,
saberia muito de estética, e das estéticas.
Saberia que Baudelaire não foi poeta maldito;
todos os poetas são benditos.


De noite os gatos...

De noite os gatos, sim os gatos,
não lêem autores franceses
nem uivam para a lua.
Se o fizessem, eram literatos
e haveria sempre alguém
disposto a dizer que eram lobos,
por certo esquecendo
que os lobos não lêem autores franceses.
Dou por certo que um fleumático politólogo,
disfarçado de crítico literário
vai afirmar, e demonstrar (e depois ficar famoso)
que gatos e lobos não são afrancesados,
nem escrevem ensaios inquietos
acerca do gaullisme de Malraux
e da sua entrada tardia na Resistence.
ah, o crítico, ah o crítico literário,
heterónimo mundano dos politólogos,
não vai compreender porque Malraux entrou cedo
na Guerra Civil de Espanha,
e nem sequer vai dar um sentido estético
às fotos de Malraux de cigarro na boca.
Por certo vai fingir que não sabe que Malraux
gostava de bavarder  sobre erotismo.
Vai ficar intimidado e com vergonha,
pois não pode citar Braudillard, e outros,
para explicar porque, para alguns Malraux era trotskista
e para Natalie Trotski era stalinista.
Como vais explicar que alguém como Malraux,
tão elegante e cosmopolita, e que viajou ao Oriente
não fosse um ícone de 68?
Voyons e a Condição Humana?
Vais também dizer que é uma Fleur du Mal?
Que era política disfarçada de literatura?
Ou talvez queiras demonstrar, bem à francesa
que ele era um nihlista; sim, assim ficas descansado!
Eram filosofias! Nada mais que filosofias.
E nem sequer vais dizer como eu: niilista;
vais dizer nihilista, era o que Malraux era,
os politólogos sabem latim, e já leram
Marco Aurélio, e Cícero; alguns sabem,
Oh volúpia de sabedoria, o genitivo de Cícero,
e naturalmente escrevem: Cicero.
Até sabem que Séneca foi estóico,
 E esquecem-se de dizer,  por conveniência, é certo,
que Malraux não foi estóico, e poucas coisas
fez por conveniência., a não ser que,
fingia que fazia uma filosofia
entre uma fatia de camembert, e uma taça de champanhe,
para não ser tomado como um autor profundo.
Sabes, um austríaco, depois deixou de ser austríaco,
promoveu-se a filósofo, sim, falo de Popper.
E dizem-me ser um autor profundo.
Um dia foi a uma manifestação, ele era comunista;
a polícia carregou  e assassinou manifestantes.
E esse austríaco, Popper, Karl Popper
decidiu que já não era comunista.
Vendo a polícia a matar comunistas
decidiu que não era comunista;
depois fizeram dele famoso, até filósofo.
Disseram até que derreteu Gnoseologias!
Mesmo um poeta distraído, ou um europeísta convicto (e pago)
sabe fazer o diagnóstico certo: cortou-se, borrou-se de medo;
e voltou-se para a filosofia.
Errada vocação a desse austríaco,
deveria ir para polícia, assim podia matar comunistas,
ele próprio, já que ele tinha decidido que o não era;
e escusava de ter entrado na galeria dos intelectuais
muito considerados,  mas vendidos.
O que tu não dirias dele, André!
Acabaste como ministro de De Gaulle,
muitos, sobretudo de entre os politólogos
devem achar que tu gostavas do inestético
nariz de De Gaulle, e da forma
como ele dizia . Vive la Frrrrrance.
muita gente te insultou, e disse mal de ti.
Acredito, que intimamente devias sorrir, divertido;
ainda hoje os politólogos não sabem, no seu saber definitivo,
que só querias mostrar como se devia ser bom comunista.


António Eduardo Lico

Nascido em Lisboa em 1934, Pedro Tamen é o poeta de hoje.
Poeta e tradutor, Pedro Tamen diz escrever no escuro. Muitos já disseram da sua poesia, ser barroca.
Fica esta poesia do poemário O Aparelho Circulatório:

De neve nada sei, de sol também,
de milhares de sossegos acordados,
da subida do teu rosto atrás dos ombros,
da mão ardente, da vista da sacada
nada sei.
Ponho palavras como coisas feitas:
só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência existe, e já não minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Hoje apenas uma poesia do Amanhecer obscuro devido à sua extensão.



Era tudo metafísica


Era tudo metafísica. Diziam.

Diziam que Hölderlin era vagamente louco,

e esqueciam que eram loucamente vagos.

Era tudo metafísica. Diziam.

Diziam, vê lá tu, que nem ligavas à metafísica,

diziam, caro Goethe, que não entendiam

o teu atrevimento; sim, o teu atrevimento

de fazeres uma teoria em que gentilmente

rebatias e negavas Newton; bem sei, Newton era inglês

e nem percebia nada de metafísica, embora

fizesse por aparentar ser um verdadeiro conhecedor.

Ficavam, e ainda ficam, zangados com a tua Erotica Romana

e esse teu secreto jeito de Mefistófeles.

Tu dizias que não eras Mefistófeles, mas

ensinavas assim: tudo o que existe merece desaparecer.

Era o teu jeito íntimo de seres o que dizias não ser.

Era tudo metafísica. Diziam.

Chamavas-te Vladimir, Vladimir Maiakowski

diziam que eras gentil, terno e frágil.

Eras gentil, terno e frágil e forte.

Eles não queriam que fosses forte.

Uma mulher bonita, de odor suave

tornou-te frágil e resolveste partir.

Nem te despediste, de súbito deixaram de te ver.

Era tudo metafísica. Diziam.

Era mais conveniente atribuir a tua partida

a um homem vagamente chamado Estaline.

Era bem melhor assim: mais um morto

na contabilidade de Estaline. Ainda que vagamente.

Olha, meu caro Maiakowski, se calhar

ainda estão a pensar que devem atribuir a Estaline

a extinção dos dinossáurios.

E vão dizer: que crueldade! Estaline

nem quis saber que eram répteis

e animais de sangue frio.

Talvez até queiram acusá-lo da queda do Império.

É isso, Estaline estabeleceu-se nas fronteiras do Império,

estão enganados, não era Átila, o Huno, nem Alarico,

O Visigodo, e todos os outros Godos:era ele,

vagamente chamado Estaline,

era ele que acossava as doces Vestais.

Vão também dizer que não sabia de Babilónia

isso, não sabia de Babilónia a grande prostituta.

Era tudo metafísica. Diziam.

Era afinal um ignorante. Quem não sabia

De Babilónia, a grande prostituta?

Agora nas portas de Ur há um homem

pendurado pelo pescoço. Sim, nas portas de Ur.

Indica que Babilónia era a grande prostituta

Já não tem jardins suspensos, tem um homem,

tem homens suspensos pelo pescoço nas portas de Ur.

Era tudo metafísica. Diziam.

E sabes, um banqueiro, disfarçado de académico.

Um homem, um homem de nome Montefiore.

Não, não é florentino, nem sequer siciliano.

É inglês, vulgarmente inglês, vulgarmente

banqueiro disfarçado de académico.

Escreveu um livro sobre ti, quando eras homem crescido;

depois escreveu um livro sobre ti, quando jovem..

Isso é mau presságio, sabias? Negro augúrio, eu digo!

Não demora, ele vai dizer, esse homem de nome Montefiore,

que é banqueiro disfarçado de académico,

que nunca estiveste em Ítaca, nunca estiveste

a bordo do Argos; nunca foste Argonauta!

Vai dizer que não sabias que Pitágoras

foi educado no Egipto, e depois enviado

para a Grécia. Na Grécia ele abria templos

e colocava na entrada: Quem não é geómetra, Não entre!

Ele, esse homem de nome Montefiore

que é banqueiro disfarçado de académico

vai dizer que tu não sabias que Pitágoras

sabia fazer a quadratura do círculo.

Não, eu não estou a dizer que ele afirma

que não conheces o teorema! Não me entendas mal!

Vão dizer que assim não vale, assim não conta.

vão dizer que eras inoxidável.

Sabes? Muitos poetas gostam de usar a palavra

óxido nas suas poesias; dizem que assim

podem pertencer a não sei que escola, ou movimento.

Era tudo metafísica. Diziam.

Lembrei-me agora de ti. Sabes, Mao Tse Tung?

Agora escondes-te, ou escondem-te

sob uma espécie de acordo ortográfico,

assim um acordo ortográfico interno, só com validade na China.

Agora os chineses são exportadores e exportaram um nome: Mao Zedong

Era tudo metafísica. Diziam.

Já não sabiam que mais crimes e mortes te atribuir.

Então disseram que gostavas de te rodear de mulheres jovens.

Disseram que tinhas mulheres demais.

Sabes, ainda te vão acusar do rapto das Sabinas.

És outro candidato a responsável pela queda do Império,

talvez te convertam no candidato ideal

para explicarem a queda do Império do Oriente.

Foste tu que chamaste os turcos, meu velho?

Vão dizer que num delírio de crueldade

chamaste vários turcos: os Seldjúcidas

que prepararam o terreno, e depois os Otomanos.

Era tudo metafísica. Diziam.

Matisse e Picasso estavam em Paris.

Havia muita gente que estava em New York.

em Chicago, em Los Angeles: eram americanos.

Havia um americano, dizem-me que era escritor:

O nome: Dwight Macdonald. Escrevia, por consequência,

Pois dizem-me que era escritor. Escrevia que a bomba atómica

era natural; era uma consequência natural, uma banalidade

do estilo de vida americano, como os automóveis, ou a fast food.

Depois havia também um outro americano,

Este chamava-se Jackson Pollock, dizem-me que era pintor.

assumi que sendo pintor, pintava., pois é isso que fazem os pintores.

Era tudo metafísica. Diziam.

Diziam que esse Pollock iniciou uma revolução na pintura:

Era cheia de automatismos, melhor era baseada em processos

automáticos, era arte moderna, aquilo é que era arte moderna.

Diziam que era expressionismo abstracto; eram alguns, esses

expressionistas, esses abstractos, tinham que ser alguns;

se fossem nenhuns, parecia mal; o que diriam as pessoas?

Eram Pollock, Motherwell, De Kooning, Hofmann, Kline, havia outros.

A América estava cheia de expressionistas, e de abstractos,

que não eram expressionistas, nem eram abstractos.

Eram pagos pelos guerreiros da Guerra Fria, dava-lhes

(t)alento o dinheiro sujo e secreto para conter

o grave perigo vermelho que ameaçava a Velha Europa.

Jacques Duclos um dia transportava pombas no seu automóvel.

Era um dia em que um general americano chegava a Paris.

Não, esse general americano não era expressionista,

nem sequer abstracto, não gostava de pombas, era isso!

Prenderam Duclos, ignora-se se prenderam as pombas.

Pablo Picasso, tu não sabias, mas o Departamento de Estado

Até fez um informe secreto sobre ti: eras vermelho.

Tinhas as huertas de Valência na alma e a claridade

do sol valenciano no pincel, e pintavas, e pintavas.

E seguias rojo como era o Poente nas bandas de Valência

e denunciavas, com luz e sombra, na tua pintura,

a matança na Coreia, esse quadro expressionsita

e abstracto pintado pelos american boys nas

longínquas paisagens de arroz do Extremo Oriente.

Era tudo metafísica. Diziam.

Tu e Matisse estavam em França, em Paris

eles eram expressionistas e abstractos

vinham do outro lado do Atlântico,

vinham das Montanhas Rochosas e dos Apalaches,

vinham travestidos de abstracção,

Edgar Hoover tinha travestido toda a América

e ditava a última moda em lingerie.

Eram meros instrumentos de propaganda,

alguns deles bem medíocres, agora génios promovidos.

Hoje, resta apenas a cinza do mercado da arte

e a luz e as sombras que traçaste na tela

Era tudo metafísica. Diziam.

Pusemos Torquemada como bispo de Roma

tantos bispos italianos e por último um polaco – era demais!

Era tudo metafísica. Diziam.

Valia mais Torquemada, um espanhol que é alemão.

Os espanhóis sempre tiveram uma política alemã

dizem muitos manuais de História.

É sempre melhor ter Torquemada em Roma

que ter uma sucursal em Avignon

com um francês que só gosta de Camembert

e pensa que o Champagne é néctar dos deuses.

Era tudo metafísica. Diziam.

Não quero que me acusem de ser metafísico,

calo-me com Torquemada.

Era tudo metafísica. Diziam.

Torquemada nunca foi a Granada

nem conhece o Cante Jondo.

Federico, a quem chamavam Garcia Lorca

foi a Granada sem ir a Granada.

E Granada chora a ausência daquele

que nunca foi a Granada.

Era tudo metafísica. Diziam.
Granada llora y su cante

pinta de rojo las naranjas

La guitarra, como luna,

testigo que los gitanos

velan tu morada

en las puertas de Granada.

Era tudo metafísica. Diziam.

Nem eu vou falar de petróleo,

ainda vão dizer que sou bolchevista

e que não gosto das sete irmãs,

talvez seja um conspiracy theorist

ou um desses metafísicos

que nem sequer é afrancesado

e hesita se tem que classificar Baudelaire,

modernista, antes dos modernos,

simbolista sem simbólica, ou apenas um poeta.

Era tudo metafísica. Diziam.


António Eduardo Lico