segunda-feira, 30 de abril de 2012

Mais duas poesias de Esta brevidade das palavras:





Fuente y rosa


Era fuente.
Y era rosa.
Tu boca cerrada.


El ruiseñor, el rocío y el llanto


El ruiseñor canta en la noche.
Y la noche se llena de silencios.
En la mañana el rocío es el llanto de la noche.




António Eduardo Lico

O poeta de hoje é Hafez, ou Hafiz. Persa, natural de Shiraz onde teria nascido por volta de 1320. Na sua poesia fluem o Amor, o Vinho, a sabedoria sufi, temas místicos, a Embriaguez, a dos sentidos e do vinho e a figurada na união extática com o divino. A poesia de Hafez é ainda hoje no Irão uma fonte de inspiração para grande parte da população. Terá morrido por volta de 1390.
A sua influència é grande na poesia ocidental
Fica este poema:


EPITÁFIO DE HAFEZ EM SHIRAZ

Recebi, a Deus graças, a boa nova:
Vou reunir-me com o meu Amado.
Vou por último abandonar esta gaiola
que tem o meu espírito prisioneiro.
Amigo! Amante!
Quando venhas ao meu túmulo, vem embriagado,
de uma bebedeira que nunca decresça,
cheio seu ânimo de um fervor que engrandece o amor,
a esperança.
Tem presente que a alegria deste mundo é curta,
passará com os anos vividos.
O importante é o que no final ficará,
dessa embriaguez que levas na Alma.

domingo, 29 de abril de 2012

Mais duas poesias de Esta brevidade das palavras:


Fonte dos desejos


Havia uma fonte.
E havia a sede.
Havia o desejo.

Inútil

Inútil e fermosa.
A lágrima de cristal.
Cai e seca.


António Eduardo Lico

Nascido no Recife em 1886 Manuel Bandeira é o poeta de hoje.
Aceite como integrante da geração de 22 do modernismo brasileiro, Manuel Bandeira não participou na Semana da Arte Moderna de 1922, mas enviou um poema - O Sapo - que foi lido no evento.
O seu estilo, directo e simples, mantém contudo a chama lírica, contrariamente ao também pernambucano João Cabral de Melo Neto.
Manuel Bandeira, poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor, é um dos maiores vultos da poesia brasileira.
Ficam dois poemas:

O BICHO

Vi Ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.




TRAGÉDIA BRASILEIRA

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,

Conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos,
uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.

Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou
médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.

Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez
nada disso: mudou de casa.

Viveram três anos assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos,
Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua
Clapp,
outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato,
Inválidos...

Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de
inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em
decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

sábado, 28 de abril de 2012

Mais duas poesias de Esta brevidade das palavras:





Blues

Não era azul.
Apenas quisera ser azul.
Quisera apenas ser mar.


Calor

Como o calor que derrete a neve.
O teu sorriso era fugaz.
E voava leve, tão leve.


António Eduardo Lico

Manuel António Pina é o poeta de hoje.
Nascido em 1943 no Sabugal, é poeta e jornalista. Exerce actividade jornalística (cronista) no Jornal de Notícias.
Foi galardoado com o Prémio Camões em 2011.
Fica este poema:

A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Mais duas poesias de Esta brevidade das palavras:





Pequena lágrima

A lágrima melancólica.
Era seiva de flor.
Aroma de fruto.


Enigmática

Enigmática, no sol.
Eras na praia.
Apenas murmúrio do mar.


António Eduardo Lico