Uma poesia de Carlos Oliveira:
Terra Pátria serás nossa,
Mais este sol que te cobre,
Serás nossa,
Mãe pobre de gente pobre.
O vento da nossa fúria
Queime as searas roubadas;
E na noite dos ladrões
Haja frio, morte e espadas.
Terra Pátria serás nossa
Mais os vinhedos e os milhos,
Serás nossa,
Mãe que não esquece os filhos.
Com morte, espadas e frio,
Se a vida te não remir,
Faremos da nossa carne
As seraras do porvir.
Terra Pátria serás nossa,
Livre e descoberta enfim,
Serás nossa,
Ou este sangue o teu fim.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
O poeta de hoje é o Conde de Lautréamont.
Nascido Isidore Lucien Ducasse em Montevideu, Uruguai, em 1846, filho de um funcionário da Embaixada de França no Uruguai. A mãe morre quando ele tinha 2 anos. Em 1856 foi para França estudar em Tarbes e mais tarde em Pau.Pouco mais se conhece acerca da sua vida. Morre em Paris em 1870 com apenas 24 anos de idade.
Lautréamont, nome literário que adoptou, tinha todas as condições para vir a tornar-se um mito na história da literatura mundial. A sua obra fundamental, Os cantos de Maldoror é considerada uma obra fundamental na literatura fantástica, mas para além disto, difícil de classificar. Mais tarde os surrealistas reivindicaram.no como um precursor
Deixo esta tradução de uma poesia sua:
O génio é o garante das faculdades do coração.
O homem não é menos imortal do que a alma.
Os grandes pensamentos vêm da razão!
A fraternidade não é um mito.
As crianças que nascem não conhecem nada da vida, nem se sequer a sua grandeza.
Na tristeza, os amigos aumentam.
Tu que entras, deixas todo o desespero.
Bondade, o teu nome é homem.
Este aqui que rebaixa a sabedoria das nações.
Cada vez que leio Shakespeare, parece-me que disseca o cérebro de um jaguar.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Reponho duas poesias do poemário A rosa é a via:
Poesia simples
Eram uns olhos pretos,
de que me despedi
quase sem os ver, quase
sem me verem,
quase, como rosa que
abre e morre,
quase como a distância
entre a rosa
e o seu reservado
perfume.
Canta camarada,
canta
canta que ninguém
te afronta
que esta minha
espada corta
dos copos até à
ponta
(Canção de
contrabandistas da Beira-Baixa)
Era a lua, era a
madrugada, era a raia
essa nesga de terra que
te querem negar.
Era o canto que levavas
na boca,
era uma terra noutra
terra
que trocavas nessa
obscura linha
a que chamam raia.
Era o silêncio dos
passos e das sombras
e uma espada desenhada
como rosa por sobre o
teu canto.
António Eduardo Lico
O poeta de hoje é Sidónio Muralha.
Nascido em 1920 no Bairro da Madragoa em Lisboa e falecido em Curitiba, Brasil em 1982.
A sua vida foi ao mesmo tempo aventurosa e organizada. Auto exilou-se no então Congo Belga onde começou o seu trabalho para a Unilever e onde chegou a Director Geral. Viveu na Bélgica e percorreu vários países, em vários Continentes em trabalho. Mais tarde fixa-se no Brasil, corria o ano de 1961.
No Brasil fundou a Editora Giroflé, que muitos dizem, revolucionou o universodas publicações para crianças.
Como poeta, Sidónio Muralha é considerado neo.realista.
Fica esta poesia:
Três Poemas
Companheira dos homens
I
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova dos dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
II
O medo faz calar as aves nas florestas densas
mas as canções dos homens faze-as mais largas, mais intensas,
mais impetuosas, mais rudes, canções que ferem e espantam
pois com o medo as aves calam-se e os homens gritam e cantam.
E a canção é um homem que percorre o Mundo lés a lés
gesticulando com os seus próprios braços, andando com os seus próprios pés,
grito que vai de continente em continente implacável e forte
e que passa as fronteiras sem precisar de passaporte.
Canções robustas e lavadas que se levantam cedo
e bebem a madrugada e têm o fôlego dos atletas,
porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo,
o medo, como uma faca, rasga os corações dos poetas.
III
E os poetas dão-se as mãos como se encontram as poesias
e se encontram as exigências de duas refeições todos os dias.
Que todos temos os mesmos problemas, as mesma fúrias e dores,
e todos pagamos o mesmo juro nas casas de penhores,
e todos falamos a mesma língua terrena, viva, saborosa e agreste
e deixamos aos anjos a linguagem celeste,
e todos transportamos tijolos para a casa começada
e lhe rasgamos as janelas e a desejamos arejada,
e todos temos um estômago e temos um coração
que bate compassadamente a mesma inquietação.
Inquietação presente nas coisas, nos gestos e no ar,
inquietação que remexe ou que paira, ameaçadora e tamanha,
como um polvo que se revolve no fundo do mar
ou um grão de dinamite incrustado na montanha.
Nascido em 1920 no Bairro da Madragoa em Lisboa e falecido em Curitiba, Brasil em 1982.
A sua vida foi ao mesmo tempo aventurosa e organizada. Auto exilou-se no então Congo Belga onde começou o seu trabalho para a Unilever e onde chegou a Director Geral. Viveu na Bélgica e percorreu vários países, em vários Continentes em trabalho. Mais tarde fixa-se no Brasil, corria o ano de 1961.
No Brasil fundou a Editora Giroflé, que muitos dizem, revolucionou o universodas publicações para crianças.
Como poeta, Sidónio Muralha é considerado neo.realista.
Fica esta poesia:
Três Poemas
Companheira dos homens
I
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova dos dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
II
O medo faz calar as aves nas florestas densas
mas as canções dos homens faze-as mais largas, mais intensas,
mais impetuosas, mais rudes, canções que ferem e espantam
pois com o medo as aves calam-se e os homens gritam e cantam.
E a canção é um homem que percorre o Mundo lés a lés
gesticulando com os seus próprios braços, andando com os seus próprios pés,
grito que vai de continente em continente implacável e forte
e que passa as fronteiras sem precisar de passaporte.
Canções robustas e lavadas que se levantam cedo
e bebem a madrugada e têm o fôlego dos atletas,
porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo,
o medo, como uma faca, rasga os corações dos poetas.
III
E os poetas dão-se as mãos como se encontram as poesias
e se encontram as exigências de duas refeições todos os dias.
Que todos temos os mesmos problemas, as mesma fúrias e dores,
e todos pagamos o mesmo juro nas casas de penhores,
e todos falamos a mesma língua terrena, viva, saborosa e agreste
e deixamos aos anjos a linguagem celeste,
e todos transportamos tijolos para a casa começada
e lhe rasgamos as janelas e a desejamos arejada,
e todos temos um estômago e temos um coração
que bate compassadamente a mesma inquietação.
Inquietação presente nas coisas, nos gestos e no ar,
inquietação que remexe ou que paira, ameaçadora e tamanha,
como um polvo que se revolve no fundo do mar
ou um grão de dinamite incrustado na montanha.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Reponho uma poesia do poemário A rosa é a via:
Cobre-me
o corpo com rosas
Quando eu estiver no caixão,
Das mais lindas e viçosas,
Põe-mas sobre o coração.
Quando eu estiver no caixão,
Das mais lindas e viçosas,
Põe-mas sobre o coração.
(Poeta popular
Manuel da Silva
Varejota, sitio dos Funchais,
freguesia de Querença, conselho de Loulé.)
freguesia de Querença, conselho de Loulé.)
Se o meu corpo pudesse
cobrir as rosas
e ser-lhe o coração e
o viço
e o alimento obscuro.
Se o meu corpo pudesse
cobrir as rosas
todas as rosas, como se
jardim fosse
e tivesse todas as
rosas em mim.
Se o meu corpo pudesse
cobrir as rosas
e as rosas fossem em
mim
vida e morte, lenha e
fogo.
Se o meu corpo pudesse
cobrir as rosas
e ser como as rosas –
o silêncio
ou o segredo de se
morrer quando se abre.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Manuel da Fonseca:
O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.
Os Olhos do Poeta
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.
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