sábado, 3 de novembro de 2012

A minha mais recente poesia, integrada no poemário em construção Este rio que corre sem águas:


Cronos convence-me

(recusa-se a morrer) – mataram-no e ele simplesmento ignorou.
Isto de ser deus de primeira geração
tem que se lhe diga.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta galego Luís Amado Carballo:


A EIREXA MARIÑEIRA

O sol axionllado aos pes de Cristo morto
reza unha lenta salve encol das lousas frías,
e as lampariñas tecen douradas letanías
de penumbras e luz, de fe e de recordo.
Unha vella labrega debulla o seu rosario;
seu rosario de días, de mágoas e de arelas.
I o lume da alma súa antre o lume das velas
é luar aldeán vestidiño de branco.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Reponho duas poesias do poemário Que de dentro não se vê:


Córdoba

Córdoba, punto de polvo y soledad
tu luna mora y gitana te mira y te desvela
cuando buscas, galante, a la agua.

Córdoba, punto de mora, luego gitana
tu soledad es la luna fria y llena
en en desnudo cielo de Agosto

Córdoba, la siguiriya vola con el viento
y tu, llana y altanera
punto de polvo y soledad.


Da palavra o som

Porque nas palavras
o som é secreto.
Do eco resta o silêncio
da palavra.

António Eduardo Lico

Uma poesia de Fernando Pinto do Amaral:

FRONTEIRA


É doce
a tentação do labirinto
assim que o sono chega e se propaga
ao contorno das coisas. mal as sinto
quando confundo a onda sempre vaga

deste falso cansaço que regressa
ao som da minha estranha e dócil fala
cada vez mais submersa como essa
pequena luz da rua que resvala

plo interior da noite. É quase um sonho
A respirar lá fora enquanto o quarto
se dilui na fronteira que transponho
e afoga a consciência de onde parto

agora sem direito nem avesso
no incerto momento em que adormeço.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um vídeo de 1970 de Baden Powell na Alemanha a tocar Manhã de Carnaval:


Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Litania (levemente melancólica)

O tempo desfaz-se e corre,
como areia no verde dos meus dedos.
Regressa sempre, verde, como
os meus olhos, que são castanhos
e nunca serão verdes.
O tempo nunca é verde
quando passa nos meus olhos
que não são verdes.
Verde é a palavra, as palavras
que digo, quando escrevo
e olho com os meus olhos
o verde insondável
dos meus olhos que não são verdes.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Natália Correia:

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte