terça-feira, 6 de novembro de 2012

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


Despertai deuses antigos

Oh deuses antigos, despertai
do vosso olímpico sono,
vinde à Terra das Laranjas
e trazei o sagrado mosto
das antigas libações.
Oh deuses antigos, vinde,
vinde à Terra das Laranjas,
trazei o sopro antigo
que do mosto fazia o vinho
e tornava as profecias
em eternas melodias.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Cesário Verde:

O ramalhete rubro das papoulas

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico,
um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


O Tic Tac dos Relógios é melancólico

Melancólico, o tic tac dos relógios,
de todos os relógios.
Inesgotável como o tempo,
empresta-lhe o som
como se quisera fazer música
como a faz um metrómeno.
Melancólico, apenas lhe marca o ritmo
as notas são tocadas pela vida.
Melancólico, o tic tac dos relógios,
de todos os relógios.

António Eduardo Lico
De Fernando Pessoa, uma poesia do Cancioneiro:

Iniciação



Não dorme sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..................................................
O corpo é sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda Caverna,
Os deuses despem-te mais,
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
..................................................

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não 'stás morto, entre ciprestes.
....................................................

Neófito, não há morte.


Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.

domingo, 4 de novembro de 2012

Pedro soldado poema de Manuel Alegre musicado e cantado por Adriano Correia de Oliveira:


Reponho duas poesias do poemário O canto em mim:


Granada

Preciosa y suspensa en el aire
asi es Granada.
La Sierra Nevada te mira
y en su mirada van tus glorias antiguas.
Eres roja en Alhambra
y luego verde a la orija de tu Vega
donde el Geni el Darro y el Beiro
te dan su liquido beso.
Asi es Granada, y la Sierra Nevada
te lleva a sus cumbres
y las nieves se vuelven rojas.

Baladilla de la fuente fria que perdió la agua

En la fuente fria
me lavo las penas
y el bien que yo queria
me decia cosas buenas

fuente fria del camiñero
donde está tu agua?
Fuente clara del ayer
dáme un clavel
para prender en mi boca

Tu agua, liquido corcel
galopando con palomas
que ya no la pueden beber

Fuente fria del camiñero
donde está tu agua?
Que me arde una flor
en mi boca

En la fuente fria
me lavo las penas
y el bien que yo queria
me decia cosas buenas

Antonio Eduardo Lico

Uma poesia de D. Dinis:

Proençaes soen mui ben trobar
e dizen eles que é con amor;
mais os que troban no tempo da frol
e non en outro, sei eu ben que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m'eu por mha senhor vejo levar.

Pero que troban e saben loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles poden, soõ sabedor
que os que troban quand'a frol sazon
á, e non ante, se Deus mi perdon,
non an tal coita qual eu ei sen par.

Ca os que troban e que s'alegrar
van eno tempo que ten a color
a frol consigu', e, tanto que se for
aquel tempo, logu'en trobar razon
non an, non viven [en] qual perdiçon
oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.