sábado, 17 de novembro de 2012
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Secreta dorme no seu
casulo...
Secreta, dorme no seu
casulo
um sono suspenso, a
crisálida.
Se Darwin te visse!
Se um criacionista, ou
mesmo dois,
pudessem penetrar o teu
sono!
Até um adepto de
Lamarck
poderia investigar o
teu caso!
Não queria falar em
Lamarck...
Já sei que me vão
falar em Lysenko.
Trofim Lysenko para ser
quase exacto.
Tinha mais um nome, mas
não vou usá-lo.
Quero apenas ser quase
exacto.
A exactidão
aprende-se, não está na genética.
É isso, Lysenko não
queria a genética;
e detestou Mendel;
Mendel apreciava ervilhas,
era austríaco, e sem o
saber originou a genética:
é o que muitos
afirmam; Mendel, nunca soube
que tinha fundado
alguma coisa.
Os que dizem que fundou
alguma coisa,
sem o saberem, ou os
que depois
inventaram o termo
GENÉTICA,
talvez apenas gostem de
ervilhas!
Lysenko...não se sabe
o que originou!
Pelo menos não o sabem
os que o criticam
e apenas dizem que o
malvado Lysenko
não queria a genética.
Lysenko não queria
Mendel e não queria
ervilhas, nem flores de
ervilhas
Indiferente aos meus
versos,
aos que trucidam
Lysenko em manuais
que apenas são
conhecidos no corredor
do Departamento dos
autores,
a crisálida dorme sem
saber que dorme;
dorme um sono frio e
distante.
Dorme e não sonha, nem
sabe
que dorme para acordar
para a luz.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Juan Ramón Jimenez:
LA ROSA AZUL
¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
Se me torna celeste la mano, me contagio de otra poesía
Y las rosas de olor, que pongo como ella las ponía, exaltan su color;
y los bellos cojínes, que pongo como ella los ponía, florecen sus jardines;
Y si pongo mi mano -como ella la ponía- en el negro piano,
surge como en un piano muy lejano, mas honda la diaria melodía.
¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
me inclino a los cristales del balcón, con un gesto de ella
y parece que el pobre corazón no está solo.
Miro al jardín de la tarde, como ella,
y el suspiro y la estrella se funden en romántica armonía.
¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
Dolorido y con flores, voy, como un héroe de poesía mía.
Por los desiertos corredores que despertaba ella con su blanco paso,
y mis pies son de raso -¡oh! Ausencia hueca y fría!-
y mis pisadas dejan resplandores.
LA ROSA AZUL
¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
Se me torna celeste la mano, me contagio de otra poesía
Y las rosas de olor, que pongo como ella las ponía, exaltan su color;
y los bellos cojínes, que pongo como ella los ponía, florecen sus jardines;
Y si pongo mi mano -como ella la ponía- en el negro piano,
surge como en un piano muy lejano, mas honda la diaria melodía.
¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
me inclino a los cristales del balcón, con un gesto de ella
y parece que el pobre corazón no está solo.
Miro al jardín de la tarde, como ella,
y el suspiro y la estrella se funden en romántica armonía.
¡Que goce triste este de hacer todas las cosas como ella las hacía!
Dolorido y con flores, voy, como un héroe de poesía mía.
Por los desiertos corredores que despertaba ella con su blanco paso,
y mis pies son de raso -¡oh! Ausencia hueca y fría!-
y mis pisadas dejan resplandores.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Une Voyage
Les violons
Ah, o teu nome é
obscuro - Louis-Ferdinand Destouches,
então surge aquilo que
te decifra e te consome – Celine.
Celine, eis o nome,
alguns dirão até 666.
Crépuscule
Et
ton Voyage au bout de la nuit?
Tu
dizias que não eras um homem de ideias,
as
ideias, estavam nos livros, volumes e volumes;
a
ti só o estilo de interessava.
Tu
étais un homme à style.
Não
te perdoaram que tivesses escrito
O
inesperado de Voyage au bout de la nuit,
Algo assim, só eles
podiam fazer.
Adivinhaste, culpam-te
dos Pamphlets;
culpam-te
ainda mais dos Pamphlets,
e dizem a palavra
definitiva: antisémite;
essa palavra com que
exterminam
todos os que não
gostam; e eles não gostam de muitos.
De mim, é difícil
dizerem que sou um desses, vejamos:
Gosto dos Fenícios,
eram semitas,
e se não eram deveriam
ser.
Gosto do povo de Kem,
eram os egípcios antigos,
e eram semitas
genuínos, genuínos mesmo.
Gosto dos Camitas, e
porque não dos Filisteus?
acaso não eram
semitas? Dos da Babilónia
gosto também, e são
semitas desde sempre;
hoje ninguém se
lembra, mas eles podem esquecer-se;
e esqueceram-se,
esqueceram-se.
Já vai longe a
Suméria, diziam que vinham da Anatólia
(os Sumérios –
claro)
e depois, a sua
brilhante civilização
foi substituída por
sucessores semitas.
Eles esquecem-se, e até
dizem que a História começa
com a Suméria. Eles
esquecem-se, esquecem-se.
Estão sempre a
esquecer-se;
mesmo quando não se
esquecem,
é porque se
esqueceram.
Vejam bem, eu gosto dos
Assírios!
Gosto até dos Hititas,
mas esses não eram semitas,
mas gosto deles; vieram
da Anatólia (o que não era longe)
e conquistaram o
Egipto, conquistaram Kem.
Gosto dos Hebreus; os
da Babilónia tinham
um nome pare eles:
Habiru.
Freud, que de Viena
antevia Moisés, o egípcio,
Não esqueceu o nome –
Habiru.
Ah pensaram que me
esqueci dos da Galileia?
Esses não eram
Hebreus; eram Galileus
e a Galileia teve que
ser conquistada;
tinha uma divindade
rival da de Jerusalém.
Tu não sabias nada
disto, sempre ignoraste
os ardis subtis da
História e das estórias,
eras médico e eras
styliste.
Finale
Louis-Ferdinand,
(où Celine), écoutes moi bien !
Ainda procuram, ou
vasculham,
talvez sejam apenas
como os voyeurs,
apenas querem ver.
Talvez pensem em Haia...
(projectivamente, bem
entendido).
Écoutes! Eles
procuram,
procuram as tuas
últimas cartas,
não te querem publicar
a ti,
querem interpretar as
tuas últimas cartas;
parecem condenados à
guilhotina,
esperando com angústia
de condenados
o seu último e longo
minuto,
esse antes do frio da
lâmina.
Ahhhh, quiseram-te
apenas médico,
e com absoluta assepsia
asseguraram-se disso
mesmo!
Presumo que sorriste,
tu est un
styliste.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Fernando Grade:
O PRESTES A AFOGAR-SE
O prestes a afogar-se tinha na jaqueta vermelha uma navalha em flor
um certificado de verticalidade cìvica um livro de cheques pleno de números redondos
tinha muitas coisas belas para conquistar os olhos das mulheres
Era um homem bom e poderoso o prestes a afogar-se
mas nada disto servia para atingir a outra margem
nem as unhas polidas nem os dentes brancos nem os cigarros de marca estrangeira
O prestes a afogar-se era um bom partido para qualquer donzela
com os seus olhos azuis um metro e setenta de esperteza
e uma cultura parisiense fora as regras avulsas da etiqueta
(ai como ele sabia falar do Prado e dos arranha-céus de New York!)
mas nada disto tinha ali razão de ser ou valor de troca
Naquele momento o prestes a afogar-se
homem culto sem vicios e sem manchas
tinha o maior defeito do mundo:
NÃO SABIA NADAR.
O PRESTES A AFOGAR-SE
O prestes a afogar-se tinha na jaqueta vermelha uma navalha em flor
um certificado de verticalidade cìvica um livro de cheques pleno de números redondos
tinha muitas coisas belas para conquistar os olhos das mulheres
Era um homem bom e poderoso o prestes a afogar-se
mas nada disto servia para atingir a outra margem
nem as unhas polidas nem os dentes brancos nem os cigarros de marca estrangeira
O prestes a afogar-se era um bom partido para qualquer donzela
com os seus olhos azuis um metro e setenta de esperteza
e uma cultura parisiense fora as regras avulsas da etiqueta
(ai como ele sabia falar do Prado e dos arranha-céus de New York!)
mas nada disto tinha ali razão de ser ou valor de troca
Naquele momento o prestes a afogar-se
homem culto sem vicios e sem manchas
tinha o maior defeito do mundo:
NÃO SABIA NADAR.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
De noite os gatos...
De noite os gatos, sim os gatos,
não lêem autores franceses
nem uivam para a lua.
Se o fizessem, eram literatos
e haveria sempre alguém
disposto a dizer que eram lobos,
por certo esquecendo
que os lobos não lêem autores franceses.
Dou por certo que um fleumático politólogo,
disfarçado de crítico literário
vai afirmar, e demonstrar (e depois ficar famoso)
que gatos e lobos não são afrancesados,
nem escrevem ensaios inquietos
acerca do gaullisme de Malraux
e da sua entrada tardia na Resistence.
ah, o crítico, ah o crítico literário,
heterónimo mundano dos politólogos,
não vai compreender porque Malraux entrou cedo
na Guerra Civil de Espanha,
e nem sequer vai dar um sentido estético
às fotos de Malraux de cigarro na boca.
Por certo vai fingir que não sabe que Malraux
gostava de bavarder sobre erotismo.
Vai ficar intimidado e com vergonha,
pois não pode citar Braudillard, e outros,
para explicar porque, para alguns Malraux era trotskista
e para Natalie Trotski era stalinista.
Como vais explicar que alguém como Malraux,
tão elegante e cosmopolita, e que viajou ao Oriente
não fosse um ícone de 68?
Voyons e a Condição Humana?
Vais também dizer que é uma Fleur du Mal?
Que era política disfarçada de literatura?
Ou talvez queiras demonstrar, bem à francesa
que ele era um nihlista; sim, assim ficas descansado!
Eram filosofias! Nada mais que filosofias.
E nem sequer vais dizer como eu: niilista;
vais dizer nihilista, era o que Malraux era,
os politólogos sabem latim, e já leram
Marco Aurélio, e Cícero; alguns sabem,
Oh volúpia de sabedoria, o genitivo de Cícero,
e naturalmente escrevem: Cicero.
Até sabem que Séneca foi estóico,
E esquecem-se de
dizer, por conveniência, é certo,
que Malraux não foi estóico, e poucas coisas
fez por conveniência., a não ser que,
fingia que fazia uma filosofia
entre uma fatia de camembert, e uma taça de champanhe,
para não ser tomado como um autor profundo.
Sabes, um austríaco, depois deixou de ser austríaco,
promoveu-se a filósofo, sim, falo de Popper.
E dizem-me ser um autor profundo.
Um dia foi a uma manifestação, ele era comunista;
a polícia carregou e
assassinou manifestantes.
E esse austríaco, Popper, Karl Popper
decidiu que já não era comunista.
Vendo a polícia a matar comunistas
decidiu que não era comunista;
depois fizeram dele famoso, até filósofo.
Disseram até que derreteu Gnoseologias!
Mesmo um poeta distraído, ou um europeísta convicto (e pago)
sabe fazer o diagnóstico certo: cortou-se, borrou-se de
medo;
e voltou-se para a filosofia.
Errada vocação a desse austríaco,
deveria ir para polícia, assim podia matar comunistas,
ele próprio, já que ele tinha decidido que o não era;
e escusava de ter entrado na galeria dos intelectuais
muito considerados,
mas vendidos.
O que tu não dirias dele, André!
Acabaste como ministro de De Gaulle,
muitos, sobretudo de entre os politólogos
devem achar que tu gostavas do inestético
nariz de De Gaulle, e da forma
como ele dizia . Vive la Frrrrrance.
muita gente te insultou, e disse mal de ti.
Acredito, que intimamente devias sorrir, divertido;
ainda hoje os politólogos não sabem, no seu saber
definitivo,
que só querias mostrar como se devia ser bom comunista.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Casimiro de Brito>
Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?
A Paz
Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?
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