terça-feira, 27 de novembro de 2012

A primeira poesia musicada e cantada por Luís Cília:



Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Não sei o que é a Poesia...

Não sei o que é a Poesia;
Se o soubesse, não escrevia poesia.
Para quê escrever o que já se conhece?
Escrevo palavras, e espero
que deuses descuidados
tratem de lhes dar sentido.

António Eduardo Lico
A poesia provençal é uma das joias da Cultura Europeia.
Coloco hoje uma poesia de um dos grandes trovadores provençais e ao lado a tradução de Graça Videira Lopes:

BERNART DE VENTADORN (…1150-80…)
Quan vei la lauzeta mover
de joi sas alas contra ‘l rai,
que s’oblid’ e.s laissa chazer
per la doussor c’al cor li vai,
ai! tan grans enveia m’en ve
de cui qu’eu veia jauzion!
Meravilhas ai, car desse
lo cor de desirer no.m fon.

Ai, las! tan cuidava saber
d’amor, e tan petit en sai!
Car eu d’amar no.m posc tener
celeis don já pro non aurai.
tout m’a mo cor, e tout m’a me,
e se mezeis e tot lo mon!
E can se.m tolc, no.m laisset re
mas desirer e cor volon .

Anc non agui de me poder
ni no fui meus de l’or’ en sai
que.m laisset en sos olhs vezer
en un miralh que mout me plai.
Miralhs, pos me mirei en te,
m’já mort li sospir de preon,
c’aissi.m perdei com perdet se
lo bels Narcisus en la fon.

De las domnas me desesper!
Já mais en lor no.m fiarai!
C’aissi com las solh chaptener,
Enaissi las deschaptenrai;
pois vei c’una pro no m’en te
vas leis que.m destroi e.m cofon,
totas las dopt’ e las mescrè,
car be sai c’atretals se son.

D’aisso’s fa be femna parer
ma domna, per qu’e.lh o retrai:
car no vol so c’om deu voler,
e so c’om li deveda, fai.
Chazutz sui en mala mercè,
e ai be faih co.l fols en pon!
E no sai per que m’es devè,
mas car trop poiei contra mon.

Merces es perduda, per ver,
e eu non o saubi anc mai,
car cilh qui plus en degr’aver,
no.n a ges, e on la querrai?
Ah! can mal sembla, qui la vè,
qued aquest chaitiu desiron
que já ses leis non aura be,
laisse morrir, que no l.aon 

Pos ab midons no.m pot valer
precs ni merces ni.l dreiz qu’eu ai,
ni a leis no já a plazer
qu’eu l’am, já mais no.lh o dirai.
Aissi.m part de leis e.m recrè!
Mort m’a, e per mort li respon,
e vau m’en, pus ilh no.m retè,
Chaitius, en issilh, no sai on.

Tristans, ges no.n auretz de me,
qu’eu m’en vau, chaitius, no sai on.
de chantar me gic e.m recrè,
e de joi e d’amor m’escon .


Quando vejo a cotovia mover
de alegria as asas contra o raio
que se esquece e se deixa cair
com a doçura que no coração lhe vai
ai! tão grande inveja me vem
daqueles que vejo andar contentes!
E maravilho-me eu como de repente
de desejo o meu coração não se funde.

Ai eu! tanto cuidava saber
de amor e tão pouco sei!
Pois eu de amar não me posso conter
aquela cujo favor nunca terei;
tem o meu coração e tem-me todo a mim,
tem-se a si própria e ao mundo inteiro!
E quando me tomou nada mais me deixou
senão desejo e coração voraz.

Perdi já eu sobre mim o poder
e deixei de ser meu desde o instante
em que me deixou nos seus olhos ver,
num espelho que me agrada tanto.
Espelho, pois me mirei em ti,
mataram-me os suspiros mais profundos,
que assim me perdi, como se perdeu
o belo Narciso na fonte.

Das donas me desespero,
não mais nelas me fiarei!
Que assim como as usava defender
assim as desabonarei;
pois vejo que nenhuma me auxilia
junto daquela que me destrói sem razão,
de todas duvido, de todas desconfio,
pois sei bem que todas iguais são.

Nisso faz bem o papel de mulher
a minha dona, que condeno assaz:
pois não quer o que se deve querer
e o que lhe é vedado faz.
Caído sou em sua impiedade
e agi pois como o louco na ponte!
E não sei porque me vou curvado
se não por querer subir alto monte.

Piedade está perdida a valer,
e eu não o soube jamais,
pois aquela que mais a deveria ter
não a tem; e onde a irei buscar?
Ah! como pouco parece, a quem a vê,
que este cativo amador,
que já sem ela não encontrará bem,
deixe morrer, sem socorro lhe dar!

Pois com minha dama não me podem valer
preces, nem piedade, nem meu bom direito,
nem a ela não lhe causa prazer
que eu a ame, jamais lho direi.
E assim dela me afasto e me rendo!
Pois me matou, como morto lhe respondo,
e vou-me daqui, pois ela não me retém,
cativo, em exílio, não sei onde.

Tristão, nada mais tereis de mim,
pois me vou, cativo, não sei onde;
ao cantar volto costas e me rendo assim,
e da alegria e do amor me escondo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Soneto da manhã obscura

Procuro da manhã o doce orvalho
Com que possa matar a minha sede
Que da infinita noite procede
Como secreto porto onde encalho

Oh gnóstica manhã onde eu talho
O que a minha boca não me pede
E nem o deus antigo intercede
E faz macio o chão em que batalho

Oh noite portentosa e magnífica
Ardes e consomes-te como sonho
Que cada manhã em vão certifica

No meu canto agudo e medonho
Que de ser vão mas claro, dulcifica
O fresco orvalho que me imponho

António Eduardo Lico
Uma poesia de Francisco de Quevedo:



A AMINTA, QUE SE CUBRIÓ LOS OJOS CON LA MANO

Lo que me quita en fuego, me da en nieve
La mano que tus ojos me recata;
Y no es menos rigor con el que mata,
Ni menos llamas su blancura mueve.

La vista frescos los incendios bebe,
Y volcán por las venas los dilata;
Con miedo atento a la blancura trata
El pecho amante, que la siente aleve.

Si de tus ojos el ardor tirano
Le pasas por tu mano por templarle,
Es gran piedad del corazón humano;

Mas no de ti, que puede al ocultarle,
Pues es de nieve, derretir tu mano,
Si ya tu mano no pretende helarle.

domingo, 25 de novembro de 2012

Carlos Paredes tocando uma música feita pelo seu avô Gonçalo Paredes, também ele guitarrista:



Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Havia um crítico...

Havia um crítico que gostava de criticar poesia.
Digo analisar. E analisava!
Analisava em jeito de caixa de petri,
Dizem-me alguns que era mais tubo de ensaio.
Não sei se era um senhor alto, ou baixo,
se usava chapéu e se fazia ginástica.
Se a fazia, não a devia fazer
os críticos nunca fazem ginástica,
com excepção dos críticos que a fazem,
poderia dizer um filósofo
que subitamente virasse lógico.
Perante o poema, sim, faz ginástica:
Fala de Lyotard, sim esse mesmo
que foi promovido a fenomenologista;
vejam bem, ele falava de fenomenologia,
e nem sei como não o promoveram
à incarnação gaulesa de Kant:
assim, uma espécie de Kant
perdido nos canteiros de Versalhes
e nas alamedas das universidades
olhando para as pernas das jovens estudantes.
Por sorte (a de Kant), Kant há muito morreu,
ainda seria olhado como pós-moderno.
Estou a ver: Kant, esse prolegómeno pós-moderno!
Depois desse Lyotard é que chegam os exercícios pesados:
Chega Sein unt Zeit, chega Heidegger.
Pois ele não dizia que era herdeiro
legítimo da tradição metafísica europeia,
e que estava solidamente escorado no niilismo,
e até falava de ontologia
e do esquecimento do ser como centro de interrogação
e que a linguagem é a casa do ser?
Se for caso disso, remata o exercício com Baudrillard,
de caminho vai dizendo que Platão e Aristóteles eram gregos...
Eu nunca escrevi um poema que fosse assim:
As rosas ao meio dia são mais antigas
que as rosas às onze horas.
Eu sei que nunca escrevi, mas poderia ter escrito
Não escrevi, porque não sou dado a exercícios.
Se escrevesse, iriam trazer Lyotard, para falar
Da pós-modernidade moderna sem modernistas,
de como a democracia tanto deve
ao professor nazi de filosofia
Martin Heidegger de seu nome, substituto de Husserl
iriam trazer esse Baudrillard, ou outros.
Melhor era usarem um manual de jardinagem
um dos bons, que os há.
Os manuais de jardinagem sabem falar de rosas.
Os poetas, como não sabem falar de rosas
falam das rosas que irão um dia existir,
se existirem!

António Eduardo Lico