terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Uma poesia de Ana Salomé:

ODE CESARINY


Para todos os que amam como a estrada começa.
queria de ti um país
um arco de sol para brincar nas manhãs
a roda das tuas mãos na cintura
engravidando de deslumbre
e a urdidura dos filhos
para além da alegria.
queria que entumecesses o tempo
dentro de maçãs relidas
em poemas sobre a mesa.
no teu jeito de apertares os lábios
e me fechares numa sílaba
queria de nós um país
juntando-se a outro.
compor o tratado dos nossos beijos
na morfologia das estrelas
que encimam esta solidão
faz-me querer de ti
se não um país o coração
da tua cidade
coisa tanta e pouca
alguma coisa só
um beijo talvez
que retenha a bruma
de avançar sobre Portugal
e me tome de vez
o destino por invisível.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Balada de Outono de José Afonso:


Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:


Perfumes tangentes ao vinho

 Vem de tão longe quanto os perfumes
e de tão fundo como corolas.
Abrasa-me o sangue nas veias
tinge-me os ossos de cor rubi:
vinho! Fonte de todas as flores

António Eduardo Lico
Uma poesia de Cristina Nery:


entre os figos que arqueiam
e a negra crista de um capricórnio morto e
uma lua cega um plátano rosa
e um pavão em mosaico.

tenho os pulmões como varais de sal
que os guizos perfumam o meu cérebro
sob a abóbada de um punhal
e os ombros em azeite.

que um pássaro me embriague o coração de flautas
e uma fabulosa palavra se as primaveras
e uma cotovia magnífica
e um sudário.
e uma ilha em laranja onde os peixes brancos
querem o cenário das cerejas e os hinos aquáticos do mel.

que eu vista para sempre uma cidade
as taças de espuma e floridos príncipes
porque ardem as roseiras na língua
e um nadador nocturno dourado.

um coral de mosto púrpura para vestíbulo
das minhas sementes húmidas
e as borboletas sumptuosas.


nas órbitas de unguento
borboletas sumptuosas derramam
e a possessiva cabeça de um rio
e uma noite de liras graves
e raízes de garganta.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Alvaro Aroso, José Paulo em guitarra portuguesa de Coimbra e Eduardo Aroso na viola, interpretam Variações em Lá menor de João Bagão.



Votos de um Feliz Natal  e um Ano Novo com tudo o que é devido e que faz a felicidade das pessoas, para os meus leitores e leitoras, e todos aqueles que de algum modo visitam o meu blog.
Se me fosse possível um desejo, seria o de que no novo ano que se aproxima, se dissolvessem no ar os banqueiros mais os seus criados, a que costumamos chamar políticos.

António Eduardo Lico
Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:


Nas margens, a Esfinge...

A Esfinge habita as margens
apenas como esfinge, de pedra,
absurdamente de pedra
impenetrável ao silêncio
que lhe vem de fora;
e vive, no entanto
em total mudez, na pedra
que lhe é externa,
só, contemplativa,
fazendo do tempo pedra,
só nas margens, sem esperar nada.

António Eduardo Lico