quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:


Cantiga de Verão


Inocente é o Verão.
Que de verde ondula searas.
E habita, pleno, as rosas breves.

Calor

Era o calor, esse abismo.
Que te mordia as veias.
Era o Verão que te anunciava.


António Eduardo Lico
Uma poesia de João Rasteiro:

A memória do nome

Esmaga em prensas de laje os golfos do nome
dir-se-ia um nome de larva ou sílaba azeitada
e o corpo está enrijado como Jesus a prumo
ser imponderável revestido de folhas brancas,

sob o arco da língua retesada os cascos surdos
esta boca imunda em lava aberta esta tribo
e o fogo nas mãos como soldas no centro do ar
o ritmo asfixiante do verbo o hálito sangrento,

toda a cegueira da sombra das liras espiando
ó bem amado nome diluído na refracção do eco.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:


Cantilena do vinho e da rosa


O vinho é como a rosa.
Rubro é o seu perfume.
Secreta é a sua flor.

Pequena música

Era apenas melodia.
Apenas voo de pássaro.
Era apenas o meio-dia.

António Eduardo Lico

Uma poesia de Cruzeiro Seixas:



A tua boca adormeceu

parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:


Quase

Quase o mar, quase um navio.
Quase névoa, quase lágrima.
Quase perdido, o teu olhar, na lonjura.


Pequena canção para uma sombra
Era uma sombra, um sorriso.
Era redonda a lágrima.
Que esculpia melancolia no meu rosto.

António Eduardo Lico

Uma poesia de António Franco Alexandre:

XIII

Anda, vou-te mostrar a terra

dos teus pais, avós, antepassados

tão antigos que os podes escolher.

Este aqui é noé, de barba por fazer;

meteu na arca puro e impuro, bem e mal,

inventou o vinho, homem melhor

da sua geração ( não é grande elogio ),

teve filhos, netos, é de crer que morreu.

Estoutro, não sei bem, era pirata na malásia.

Vês as colinas? São tuas, quando

as olhas a direito. Realmente tuas,

parte de um mundo teu.

Sim, isso são filosofias,

tens razão. ( E tem graça ao ter razão ).

Anda daí, vou mostrar-te o colete de forças

onde era costume, sabes, tratar casos assim.
Mudar de Vida, de Carlos Paredes: