Uma poesia de Helder Macedo:
PARA AS SOMBRAS DA LOURDES CASTRO
A solidão da morte gera sombras
que os corpos cristalizam
nas fronteiras de sombra dos destinos
para dar um nome pessoal
e exacto
à nossa identidade transitória.
As sombras preexistem os destinos
como a morte preexiste a vida
mas a luz que as sombras libertaram
projectadas
somos nós
aprisionados livres
nos espelhos paralelos
duma sombra e sua ausência.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
que as rosas às onze horas.
Havia um crítico...
Havia um crítico que
gostava de criticar poesia.
Digo analisar. E
analisava!
Analisava em jeito de
caixa de petri,
Dizem-me alguns que era
mais tubo de ensaio.
Não sei se era um
senhor alto, ou baixo,
se usava chapéu e se
fazia ginástica.
Se a fazia, não a
devia fazer
os críticos nunca
fazem ginástica,
com excepção dos
críticos que a fazem,
poderia dizer um
filósofo
que subitamente virasse
lógico.
Perante o poema, sim,
faz ginástica:
Fala de Lyotard, sim
esse mesmo
que foi promovido a
fenomenologista;
vejam bem, ele falava
de fenomenologia,
e nem sei como não o
promoveram
à incarnação gaulesa
de Kant:
assim, uma espécie de
Kant
perdido nos canteiros
de Versalhes
e nas alamedas das
universidades
olhando para as pernas
das jovens estudantes.
Por sorte (a de Kant),
Kant há muito morreu,
ainda seria olhado como
pós-moderno.
Estou a ver: Kant, esse
prolegómeno pós-moderno!
Depois desse Lyotard é
que chegam os exercícios pesados:
Chega Sein
unt Zeit, chega Heidegger.
Pois ele não dizia que
era herdeiro
legítimo da tradição
metafísica europeia,
e que estava
solidamente escorado no niilismo,
e até falava de
ontologia
e do esquecimento do
ser como centro de interrogação
e que a linguagem é a
casa do ser?
Se for caso disso,
remata o exercício com Baudrillard,
de caminho vai dizendo
que Platão e Aristóteles eram gregos...
Eu nunca escrevi um
poema que fosse assim:
As rosas ao meio dia são mais antigas que as rosas às onze horas.
Eu sei que nunca
escrevi, mas poderia ter escrito
Não escrevi, porque
não sou dado a exercícios.
Se escrevesse, iriam
trazer Lyotard, para falar
Da pós-modernidade
moderna sem modernistas,
de como a democracia
tanto deve
ao professor nazi de
filosofia
Martin Heidegger de seu
nome, substituto de Husserl
iriam trazer esse
Baudrillard, ou outros.
Melhor era usarem um
manual de jardinagem
um dos bons, que os há.
Os manuais de
jardinagem sabem falar de rosas.
Os poetas, como não
sabem falar de rosas
falam das rosas que
irão um dia existir,
se existirem!
António Eduardo Lico
Uma poesia de Manuel da Fonseca:
Tejo que levas as águas
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro
Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata
Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais
Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas
Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo
Tejo que levas as águas
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro
Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata
Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais
Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas
Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Cur
non mitto meos tibi, Pontiliane, libellos ?
Ne
mihi mittas, Pontiliane, tuos.
(Marcial, Epigr.,
VII,
3)
O binómio de Newton
não é belo
é apenas um binómio:
é uma expressão
que permite
calcular o
desenvolvimento
de (a+b)n, sendo a+b
um binómio
e n um número
Se ao menos n
não fosse um número...
mas é! Dizem que é
até um número natural
Os números podem até
ser naturais
e pode ser reclamada a
propriedade dos binómios;
continuarão a ser
apenas expressões
de algo que não
sabemos sequer se sabemos
Alexandre tinha inveja
de Aquiles
que foi cantado por
Homero.
Não teria inveja
daquele binómio, o de Newton;
ao que sabemos, Newton
não cantava
E mesmo que cantasse!
Já tinha estragado
tudo
fazendo um binómio
Binómios não se
fazem;
sabe-se que se podem
fazer.
mas não se fazem!
Goethe preferia a
injustiça à desordem
Newton preferia os
binómios
o que será pior?
O binómio de Newton
não é belo;
se não fosse de
Newton, nem binómio
seria belo
António Eduardo Lico
Uma poesia de Rumi:
A CASA DE HÓSPEDES O ser humano é uma casa de hóspedes. Toda manhã uma nova chegada. A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados. Recebe e entretém a todos Mesmo que seja uma multidão de dores Que violentamente varrem a tua casa e tiram os seus móveis. Ainda assim trata os teus hóspedes honradamente. Eles podem estar limpando-te para um novo prazer. O pensamento escuro, a vergonha, a malícia, encontra-os à porta rindo. Agradeçe a quem vem, porque cada um foi enviado como um guardião do além. |
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Tuve amor y tengo
honor.
Esto es cuanto sé
de mi.
(Calderón De La
Barca)
Um poema stalinista
Velhos (e novos) trotskistas
gritam com vozes aflautadas
que os stalinistas são muito maus.
Jovens intelectuais trotskistas
sonham, em segredo ser possuídas
por velhos e empedernidos stalinistas.
Os velhos (e novos) trotskistas
gritam sempre com vozes aflautadas,
e gostam de fingir que sabem tudo.
Até fingem que sabem geografia!
Um velho trotskista, Wolfowitz,
(não faltará quem diga
que é novo)
mais polaco que americano, contudo americano,
(os polacos gostam de ser americanos),
Que o diga Brzezinski!
Dizia (Wolfowitz): eu sei onde é o Afeganistão!
O Afeganistão é a nossa geografia,
Queremos o Indo Kush! E a Ásia Central!
Ungiu de trotskismo, Cheney e Rumsfeld.
Bush não fui ungido.
Foi ungido noutra internacional;
Escapou por pouco à unção de Wolfowitz.
Verão como a Babilónia
faz parte da mossa geografia,
eu sou Nabucodonosor,
e vou reconstruir os jardins suspensos
e vou tornar trostkista o Afeganistão,
clamava com voz de Quarta Internacional!
Alexandre, O Grande Alexandre
Devia ignorar por completo
Os delicados meandros da Revolução Permanente,
E deve ser um dos precursores do stalinismo;
para além de tudo, venceu no Indo Kush.
Genghis Khan, esse soldado alado da estepe
devia ser completamente ignorante
das magnas assembleias da Quarta Internacional
e dos intelectuais de barbichas e óculos,
pois venceu no Afeganistão, e chegou à Hungria;
o que diria Lukacs se fosse vivo!
O que diriam os velhos e graves filósofos,
Perceptores de Alexandre?
Vou deixar a gravidade destes versos
e vou fazer como os velhos poetas:
cantar as flores, o vinho, e as mulheres:
com o tempo, escolho a ordem certa.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Manoel de Barros:
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
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