sábado, 23 de fevereiro de 2013

Uma poesia de Luís Conceição:


Desenhei um pássaro no ar e ele voou
Desenhei outro e ele ficou
Fui-me embora
Triste daquele que me acompanhou.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Poesia e Escultura possuem ligações, eu diria evidentes, divergindo apenas nos materiais utilizados.
Deixo o magnífico site do meu querido amigo escultor Francisco Simões:

http://franciscosimoes.net/pagina-inicial/
Uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:


Nirvana

 Um peixe não atinge o nirvana
embora viva na água.
As pedras afundam-se
e não têm escamas
e estão na marge de lá
de qualquer nirvana

Nem os peixes do Tibete
chegam perto do nirvana
ou será o problema
da altitude?

Não vou pescar,
não quero distrair
peixe algum da sua via:
a de ser pescado

Se um dia o nirvana
acordar debaixa
da minha cama
hei-de lembrar-me
do peixe riscado
de violeta correndo
veloz para o anzol
como monge
que corre para o nirvana

Este é o meu ensinamento:
quem o seguir não
atingirá nirvanas.
quando muito
poderá contemplar
a outra margem
do rio e olhar os peixes.

António Eduardo Lico
Uma poesia de David Mourão-Ferreira:


Serenata do Adolescente

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade.
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda — ante o teu seio —
queimar tão pobre mocidade!           

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A chanson française no seu esplendor com Georges Brassens em Mourir pour les idées:


Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Mote para uma folha que caiu, amarela, de uma árvore

Porque era Outono, quiseste abandonar,
colorindo de amarelo o espaço por onde voavas,
o espaço verde e quente, onde a seiva te habitou.

Porque era Outono, e quiseste voar
como se fora Primavera, como se fosses brincar
com a tua primaveril cor, beijando o chão

Porque era Outono, voavas ao vento
que te levava para longe e te enganava
com seu manso murmúrio

Porque era Outono, apenas Outono
e eras apenas uma folha amarela
mansamente caíste no chão

António Eduardo Lico
Uma poesia de Nezahualcóyotl
Canto de primavera

En la casa de las pinturas
Comienza a cantar,
Ensaya el canto,
Derrama flores,
Alegra el canto.

Resuena el canto,
Los cascabeles se hacen oír,
A ellos responden
Nuestras sonajas floridas.
Derrama flores,
Alegra el canto.

Sobre las flores canta
El hermoso faisán,
Su canto despliega
En el interior de las aguas.
A él responden
Variados pájaros rojos.
El hermoso pájaro rojo
Bellamente canta.

Libro de pinturas es tu corazón
Has venido a cantar,
Haces resonar tus tambores,
Tú eres el cantor.
En el interior de la casa de la primavera
Alegras a las gentes

Tú sólo repartes
Flores que embriagan
Flores preciosas.

Tú eres el cantor.
En el interior de la casa de la primavera,
Alegras a las gentes.