quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:


Caligrafia

A minha caligrafia íntima
nunca escreveu versos
metafísicos.
Seguramente, filósofos
com vocação de estetas
e que sempre seguram candeias
e vestem mantos verdes
dirão detectar pequenas
partículas esotéricas
na caligrafia que vos apresento.
E assim sendo, está provado
quanticamente.
A minha letra mais íntima
não a escrevo; desenho-a
no ar; espero que caia
mansamente e se desvaneça
sem metafísica.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Raul de Carvalho:

Coração sem Imagens

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ruy Belo faria hoje 80 anos caso ainda fosse vivo. Fica a homenagem:

Breve Sonata em Sol (UM (Menor, Claro)

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia
Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:


Perfumes tangentes ao vinho

Vem de tão longe quanto os perfumes
e de tão fundo como corolas.
Abrasa-me o sangue nas veias
tinge-me os ossos de cor rubi:
vinho! Fonte de todas as flores

António Eduardo Lico


Uma poesia da poetisa iraniana Nazanin Nezam Shahidi, traduzida do persa para inglês por M. Alexandrian:


Awakening

At last
that which awakened the earth
was the shining hand of October,
and that which helped time roll
was the autumn's branch -
to
throw away
the remaining contracted pain of summer,
to set aside
the dust accumulated cover,
open again
my eye-lid and that of earth.

I awake,
in front of my eye and earth
a hand
risen from asleep
breaks
the blue skin of the windowpane's backside!...



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:


Na margem de um rio, as horas são ainda mais absurdas

 As horas são absurdas,
passam, e já não são,
sem deixar de o ser.
Um desconhecido esteta
clama na confluência
do Ser e Não Ser
que o Belo é absurdo
porque é belo em si mesmo,
indiferente ao tempo
e às horas que passam
e já não o são,
sem deixar de o ser.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Nicolás Guillén:

CANCIÓN

¡De que callada manera
se me adentra usted sonriendo,
como si fuera la primavera !
¡Yo, muriendo!

Y de que modo sutil
me derramo en la camisa
todas las flores de abril

¿Quién le dijo que yo era
risa siempre, nunca llanto,
como si fuera
la primavera?
¡No soy tanto!

En cambio, ¡Qué espiritual
que usted me brinde una rosa
de su rosal principal!

De que callada manera
se me adentra usted sonriendo,
como si fuera la primavera
¡Yo, muriendo!