terça-feira, 26 de março de 2013

Uma poesia de Irene Lisboa (1892-1958):

Ir, vir

Ir, vir...
Ir. Manhã, ar fresco, paisagem nova.
Vir. Tarde. Hora dos poetas, dos que não cantam
e passam pelas coisas apenas gozando, surpreendidos e ternos.
Se em cada lugar da terra eu perdesse a minha
humana essência, aquilo que me iguala ao que é
e ao que foi!
Nesta hora divina, nesta formosa tarde como ser?
Que me tentava?
Não sei.
Terra, luz, ar, amenidade indizível!

segunda-feira, 25 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Desejo

Quando era pequenino
um dia, eu pensei:
o Desejo deve ter asas;
pequeninas, como eu,
leves como eu.
Era apenas sonho de menino
Desejo, não tem asas
nem habita o mesmo espaço
que cabe nas asas de um menino.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Paulo Leminski:

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

domingo, 24 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


De tarde, caminhando pelo vento

Do vento apenas resta a memória,
no breve ondular dos teus cabelos.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Pedro Homem de Mello:

Fuga

O músico procura
Fixar em cada verso
O cântico disperso
Na luz, na água e no vento.

Porém, luz, vento e água
Variam riso e mágoa,
De momento a momento.

E em vão a área dos dedos
Se eleva! Não traduz
Os súbitos segredos
Escondidos no vento,
Nas águas e na luz...

sábado, 23 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Da palavra o som

Porque nas palavras
o som é secreto.
Do eco resta o silêncio
da palavra.

António Eduardo Lico
Uma poesia de D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e  Lencastre, IV Marquesa de Alorna:


SONETO

Lusitânia querida! Se não choro
Vendo assim lacerado o teu terreno,
Não é de ingrata filha o dó pequeno;
Rebeldes julgo os ais, se te deploro.

Admiro de teus danos o decoro.
Bebeu Sócrates firme seu veneno;
E em qualquer parte do perigo o aceno
Encontra e cresce o teu valor, que adoro.

Mais que a vitória vale um sofrer belo;
E assaz te vingas de opressões fatais,
Se arrasada te vês, sem percebê-lo.

Povos! a independência que abraçais
Aplaude, alegre, o estrago, e grita ao vê-lo:
"Ruína sim, mas servidão jamais!"