sábado, 30 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


La guitarra

La guitarra se consome gimiendo,
arde en la oscuridad.
La luna suave en las manos del tocaor
ilumina el toque.
Y toda la Andalucia
cabe en tu sonido

António Eduardo Lico
Uma poesia de António Patrício (1878-1930):



Saudade do teu corpo


Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

sexta-feira, 29 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:



Era Leve, tão leve nº2

Era leve, tão leve
como, na madrugada, o orvalho.
ao crepúsculo a rosa doirava a pedra
e a pedra era rosa, madrugada e orvalho.
Rosa, madrugada e orvalho feitas de
leve, tão leve e de idêntica substância
encontram-se por fim na pedra.

António Eduardo Lico
Uma Cantiga da Condessa de Die, séc. XII-XIII, numa tradução de Jorge de Sena:


Cantiga

Grã coita tenho sofrido
Por homem que desdenhei.
Que sempre seja sabido
Quanto o amo e amarei.
É-me agora fementido
Por amor que eu recusava.
E doida eu’stava em vestido
Ou se nua me deitava.

Ai quero ao meu cavaleiro
Apertar às tetas brancas!
O corpo dou-lh’eu inteiro,
Cavalgará minhas ancas!
Cá lh’estou mais que rendida
Flora o foi de Brancaflor,
É todo seu meu amor,
Minh’alma, os olhos, e a vida.

Aí meu amigo velido!
S’em meu poder vos tomar
E convosco me deitar
E d’amor eu vos beijar,
Não há nenhum mór prazer
Que vos ter com’a marido.
Se de vós for prometido
Fazerdes quant’eu quiser.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Era leve, tão leve...

Era leve, tão leve
como na madrugada, o orvalho.
Tão leve como lua flutuando
em rio de líquida substância indefinida.

No limiar do Sol que te saciava a sede
ardias, e a madrugada que em ti se esvaía
corria líquida, adivinhando
os mares que se abriam em azul, como que
se esperassem o vermelho da manhã.

Se na rosa o orvalho caíra
seria leve, tão leve
como na madrugado o orvalho.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Arthur Rimbaud:


Ma bohème

Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées ;
Mon paletot aussi devenait idéal ;
J'allais sous le ciel, Muse ! et j'étais ton féal ;
Oh ! là ! là ! que d'amours splendides j'ai rêvées !

Mon unique culotte avait un large trou.
- Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
- Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur ;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur !

terça-feira, 26 de março de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Enigmática

Enigmática, e embalada pelas ondas
que correm na beira mar.
Rolas com os seixos e a areia da praia,
Enigmática!

António Eduardo Lico