quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma poesia de Mário de Sá-Carneiro:

Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
Dormindo fôgo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só móro...

São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, marmores ao Poente...
Lagearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca óro...

Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquideas pranto...

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Luna de Sevilla

La luna de Sevilla
cuando se mira en el Guadalquivir
se vuelve negra.

Que pena es tu pena
lunita negra de Sevilla?

En que piensas, lunita de Sevilla
cuando cobres con plata el puente de Triana?
El puente de Triana, esa de la frontera
entre el Kabir y Sevilla.
y donde Sevilla es solo un punto.

Al Mutamid se ha partido
lunita de Sevilla.
Su Taifa se perdió en el Kabir
Y su canto doloroso se vierte en el Magrib.

 Ay lunita de Sevilla
cuando te miras en el Guadalquivir
regressa Hércules y Sevilla
vuelve al medio dia.

Y la luna de Sevilla
Se mira en el Guadalquivir.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Tomaz Kim, nome literário de Joaquim Fernandes Tomaz Ribeiro-Grillo (1915-1967):

ELEGIA

O teu corpo,
uma vez o meu altar e pecado,
O teu corpo
agora amarelo e viscoso,
hostil como a freira enclausurada,
é uma forma obscena ao sol.

Tu estás morta –
tu, o meu pão e vinho santo!

Tu foste
a minha dor,
o sol
e a chuva;
Tu foste
saudade,
tudo
e desejo,
quando nós
sofrendo,
quando nós
encontramos
uma nova luz
uma nova fé!

Tu estás morta –
tu, o meu pão e vinho santo.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Litania (levemente melancólica)

 O tempo desfaz-se e corre,
como areia no verde dos meus dedos.
Regressa sempre, verde, como
os meus olhos, que são castanhos
e nunca serão verdes.
O tempo nunca é verde
quando passa nos meus olhos
que não são verdes.
Verde é a palavra, as palavras
que digo, quando escrevo
e olho com os meus olhos
o verde insondável
dos meus olhos que não são verdes.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Domingos Monteiro:

No jardim a tarde esquece
Os longos dedos de infanta
Enquanto o repuxo canta
Há uma rosa que adormece

A esta hora tudo me espanta
Tudo, tudo me enternece
Enquanto o repuxo canta
E aquela rosa adormece.

Há feitios de sandálias
Na areia fina moldados
E eu curvo-me sobre as áleas
A beijar essas pisadas

E o repuxo canta, canta
Talvez tenha enlouquecido
A alma da água o levanta
Vai toda feita em ruído.

No jardim a tarde esquece
Seus dedos longos de infanta
Enquanto o repuxo canta
E aquela rosa adormece.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


La Siguiriya

La siguirya apunta el Sur.
El toque se firma, dolorido, al viento
con vierdes dedos de dolor.

La siguirya, arma del pueblo.
No por espadas, mas por sonido
arde en manos guitarreras..

Que duende sona en tus falsetas
seguirya que te vas al Sur?

António Eduardo Lico
Uma poesia de Ana Luísa Amaral:

Um Céu e Nada Mais

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
neram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.