quarta-feira, 10 de abril de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Padington

At Padington, the train was a blue bird
flying on the grey walls.
The train whistle sounded,
hoarse and melancholy, leaving his steel cage.
At Padington, time stopped on the grey walls
and flew with the long good-bye of the blue bird.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta cabo verdiano Filinto Elísio Correia e Silva:


ACERCA DO AMOR



Do amor só digo isto:

o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo,

0 resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.
Uma poesia de Filinto Elísiso (1734-1819) nome literário de Francisco Manuel do Nascimento:

Ode à Esperança

1

Vem, vem, doce Esperança, único alívio
Desta alma lastimada;
Mostra, na c'roa, a flor da Amendoeira,
Que ao Lavrador previsto,
Da Primavera próxima dá novas.

2

Vem, vem, doce Esperança, tu que animas
Na escravidão pesada
O aflito prisioneiro: por ti canta,
Condenado ao trabalho,
Ao som da braga, que nos pés lhe soa,

3

Por ti veleja o pano da tormenta
O marcante afouto:
No mar largo, ao saudoso passageiro,
(Da sposa e dos filhinhos)
Tu lhe pintas a terra pelas nuvens.

4

Tu consolas no leito o lasso enfermo,
C'os ares da melhora,
Tu dás vivos clarões ao moribundo,
Nos já vidrados olhos,
Dos horizontes da Celeste Pátria.

5

Eu já fui de teus dons também mimoso;
A vida largos anos
Rebatida entre acerbos infortúnios
A sustentei robusta
Com os pomos de teus vergéis viçosos.

6

Mas agora, que Márcia vive ausente;
Que não me alenta esquiva
C'o brando mimo dum de seus agrados,
Que farei infelice,
Se tu, meiga Esperança, não me acodes?

7

Ai! que um de seus agrados é mais doce
Que o néctar saboroso;
É mais doce que os beijos requintados
Da namorada Vénus,
A que o Grego põe preço tão subido.

8

Vem, vem, doce Esperança, que eu prometo
Ornar os teus altares
Co'a viçosa verbena, que te agrada,
Co'a linda flor, que agora,
Enfeita os troncos, que te são sagrados.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que de dentro não se vê:


Orquídea

Bela, a orquídea no orquidário.
Não sabe que é bela
e é feliz assim,
bela, sem saber que é bela
feliz sem saber que é feliz.
É bela a orquídea no orquidário
sem saber que está no orquidário.

As orquídeas que não estão no orquidário
não são belas. Não estão no orquidário,
não sabem que não estão no orquidário
e não são belas, nem sabem que não são belas.
E brincam de se colorirem de cores, indiferentes.
E brincam de se vestir com perfume, indiferentes.
E brincam de não saberem, nunca sabem,
que não estão no orquidário.
E brincam de serem belas, sem saber que não são belas
as orquídeas que não estão no orquidário.

As orquídeas foram criadas para os orquidários.
As outras orquídeas, as que não conhecem o orquidário
não são orquídeas, são apenas flores.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Antonio Gamoneda:

Ví lavandas sumergidas

Ví lavandas sumergidas en un cuenco de llanto y la visión ardió en mí.

Más allá de la lluvia ví serpientes enfermas -bellas en sus úlceras transparentes-, frutos amenazados por espinas y sombras, hierbas excitadas por el rocío. Ví un ruiseñor agonizante y su garganta llena de luz.

Estoy soñando la existencia y es un jardín torturado. Ante mí pasan madres encanecidas en el vértigo.

Mi pensamiento es anterior a la eternidad pero no hay eternidad. He gastado mi juventud ante una tumba vacía, me he extenuado en preguntas que aún percuten en mí como un caballo que galopase tristemente en la memoria.
Aún giro dentro de mí mismo aunque sé que voy a caer en el frío de mi propio corazón.

Así es la vejez: claridad sin descanso.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Reponho uma poesia do poemário Que dentro não se vê:


O vinho por sobre a rosa

Bebe o teu vinho
e como o persa longínquo
procura as rosas.
As que existem vermelhas nos lábios
e as que perfumam e dão cor ao vinho.
Colhe dos lábios a cor rubra
e do vinho o delicado perfume.
Só assim terás a tua rosa
e a tua eternidade.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta mexicano Audomaro Ernesto (1983):

Carta a César Vallejo

Vine aquí
y me doy cuenta que la frialdad de los parisiens
es intraducible al calor de nosotros
hermano
Es raro que de todas las casas del mundo
hayas escogido ésta
En nuestros países aún florece la miseria
los cartoneros son dueños de las calles
y el progreso es promesa que aparece
en los diarios
Es raro César
que toda tu cólera sea ahora esta piedra
y que estos heraldos
bajen y se posen sobre tu silencio

Cuántos poemas tuyos no habrán escuchado estos árboles
cuántas cosas no le habrás dicho
a esta tierra gris y fría
Seguramente los otros te observan
cuando sales de tu muerte a caminar en harapos
Seguramente conocen tu poesía
y tú la de ellos

Recuerdo cuando eras tema de charla
y te maltratábamos sintiéndonos los mejores necrólogos
Hoy ante ti
el río que soy se desborda por los ojos
la misma agua que deseaste cuando no era tiempo de partir
Hoy el cielo tiene limpio el rostro
y lejos está aquel deseo tuyo

Pero si debo decir la verdad
si tengo que confesarte la razón
que me trajo hasta aquí
es para decirte que
yo nací no cuando Dios estuvo enfermo
sino el día que los ángeles y yo velamos su cadáver
(escritura hospital de enunciados)
Recuérdalo querido César
toda tu muerte,