sábado, 4 de maio de 2013

Uma poesia de Nuno Dempster:

MANHÃ

Serena manhã, sol em que os cedros avultam
a sua eternidade. Carros passam na rua
como se não levassem ninguém no interior,
e nada mais espero do que sentir ainda
a blandícia da luz, pele em meus dedos cálida,
um rosto que celebro, a substância dos cedros
que flui branda num corpo, segredos do silêncio
donde a sabedoria de ser-se inteiro emana.
Oh, o tranquilo sol de uma manhã de inverno
que me lembra tão longas mãos! Devo pensar
na árvore sem folhas que vejo da janela,
imitar-lhe a existência sem tempo nem saber
como os cedros demonstram a sua eternidade,
receber este sol, seguro de que os deuses
só na era de Posídon seriam verdadeiros.
As quatro estações limitam-me, e as ilhas
que flutuavam no azul Egeu não mais existem.
Limitam, mas libertam-me as quatro estações,
e assim, o meu inverno, esta manhã sucinta
dilui-me na paisagem com a lembrança doce
de que a luz é o Sol, e aquelas longas mãos
volvem a antigos deuses as ilhas irreais.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


A Esfinge de ébano

Da esfinge de ébano,
a dos doces lábios
colhi apenas
amarga flor de silêncio

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta filipino Edwin Agustín Lozada:

Socorro

Oh poeta, ven, te pido socorro.
Aclárame este dolor que yo siento.
Yo no sé si es azul, violeta o púrpura,
si viene, ay, de las noches perdidas,
espesas y ahogadas en el profundo
mar que atormenta mi paz temerosa,
frágil, tan inestable y angustiada,
o si viene del viento sanguinario
de la cruel verdad que me sigue espiando,
pero no se muestra y no me confiesa
lo que oculta, guarda y calla en sus ojos
negros, opacos, fríos, solitarios.

Poeta, profeta de los corazones,
mago que del caos de los sentimientos
plasmas y das vida a lo fugitivo,
a lo incomprensible y a lo confuso
con tus palabras, luciérnagas que
dan señales de vida y esperanza,
belleza y alegría, claridad
donde ha desaparecido la luz
volátil que tanto nos hace falta.
¡Poeta, consuélame con tus luciérnagas,
pequeñas estrellas, tan delicadas,
pero en mi alma, potentes como el sol!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


Fragmento para uma poesia

Afrodite nascia da água
e uma rosa era o silêncio
futuro que Eros havia de fazer

António Eduardo Lico
Uma poesia de Afonso Lopes Vieira:


Saudades de Portugal

1

Nunca como em Veneza
adoro a nossa pobreza
portuguesa;
as nossas casas caiadas,
as nossas praias salgadas,
os burricos berberes,
e na Batalha de pedras douradas
a saia pela cabeça das mulheres.

Ó Veneza oriental,
marítimo tesouro
de púrpura, de mármores e de ouro:
- em Portugal
rico só é o ceu que nos lá cobre.
Portugal teve o mundo - e ficou pobre.


2

Aquele romantismo de Veneza
ah! não, não acabou
enquanto um ruivo sol de dogareza
o Canal Grande todo iluminou.

Sirenetta d´Annunzio cobiçava
certa gôndola em flor;
e a sombra de Musset, no Danieli, lembrava
as cruezas de George, o amor e a dor.

Mas à varanda deste albergo Real
(diz lá, Poesia: onde é que moras tu?)
um hóspede contempla a luz ideal
sentado em almofada de cautchú.


3

Este lugar Anfitrite,
com seu capitão de Ílhavo,
que leva gasolina
a portos da Moirama
e às correntes mais vivas se abandona,
quanto mais me diverte
que o Roma e o Cap Arona!

Vamos na intimidade
do mar, com quem podemos conversar...
- Ó palaces horríveis p´ra viajar!
Coqueteiles de horror! Cadáveres pintados!
Banqueiros! Espiões de todos os Estados! -
Aqui vivo na tolda e ando salgado,
livre do mau-olhado,
e durmo sono fundo
sob as estrelas, té que rompa o dia.
Neste nosso veleiro
poderíamos dar a volta ao mundo
porque ia connosco a Ria
de Aveiro!...


4

Lavrador do Chão,
se semeio trigo
choro-me comigo
e não colho pão.

E se planto vinha
e trato o que planto,
que miséria a minha,
o meu vinho é pranto.

Lavrador do mar,
se semeio espuma
colho e ceifo bruma,
ponho-me a cantar!

Ó seara de vagas
em que os olhos ponho,
que bem que me pagas
em moeda de sonho!...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


A palavra das rosas

Dai-me uma, duas palavras
com que escreva uma rosa no teu sorriso

António Eduardo Lico
Uma poesia de Vladimir Maiakovski:

Meu Maio

A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!