sexta-feira, 10 de maio de 2013

Uma poesia de Décio Pignatari:

Eupoema

O lugar onde eu nasci nasceu-me
num interstício de marfim,
entre a clareza do início
e a celeuma do fim.

Eu jamais soube ler: meu olhar
de errata a penas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se.

Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém
são ecos do enlevo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


Poema para qualquer mulher

A vida desenhou-te
eterna efeméride no rosto,
ocultou nos teus olhos o feitiço da lua
e deu aos teus lábios
o sabor de todos os frutos

António Eduardo Lico
Uma poesia de Ruy Vasconcelos:

ARAME

sob as vírgulas
o peixe filtrado pelo
olho envolto no verde
exceto abaixo
onde seixos
calam fundo

mas o espectro
argento do peixe
em vago rastro
até os seixos
move uma farpa
que não cessa

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


Le silence d’une rose

Comme si tous les parfums
habitaient tes lèvres,
le silence a fermé ta bouche
comme une rose

António Eduardo Lico
Uma poesia de Rui Knopfli:

Cair do pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


Elegia para uma flor morta

A obscura flor morta
pensa ainda no seu perfume
quando os insectos
procuram nas suas pétalas mortas
a fragrância que a animou.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Mário Chamie:

QUEDA INTERIOR

Se a queda é livre
o medo da queda
é preso.

Livre é a queda
sem embaraço
defeso.

A queda
de um homem
tenso
não é a guerra
do Peloponeso
pelo estreito
de um coração
perverso.

A queda
livre
é o próprio peso
de um coração
suspenso.

Toda queda
é o menosprezo
de quem cai
sobre si mesmo.