Uma poesia de Décio Pignatari:
Eupoema
O lugar onde eu nasci nasceu-me
num interstício de marfim,
entre a clareza do início
e a celeuma do fim.
Eu jamais soube ler: meu olhar
de errata a penas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se.
Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém
são ecos do enlevo.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Uma poesia de Rui Knopfli:
Cair do pano
As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa
de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz
do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá
irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.
Cair do pano
As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa
de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz
do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá
irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Uma poesia de Mário Chamie:
QUEDA INTERIOR
Se a queda é livre
o medo da queda
é preso.
Livre é a queda
sem embaraço
defeso.
A queda
de um homem
tenso
não é a guerra
do Peloponeso
pelo estreito
de um coração
perverso.
A queda
livre
é o próprio peso
de um coração
suspenso.
Toda queda
é o menosprezo
de quem cai
sobre si mesmo.
QUEDA INTERIOR
Se a queda é livre
o medo da queda
é preso.
Livre é a queda
sem embaraço
defeso.
A queda
de um homem
tenso
não é a guerra
do Peloponeso
pelo estreito
de um coração
perverso.
A queda
livre
é o próprio peso
de um coração
suspenso.
Toda queda
é o menosprezo
de quem cai
sobre si mesmo.
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