terça-feira, 28 de maio de 2013

Uma poesia de Vidal, Jogral de Elvas. Transcrição para português moderno de Natália Correia:

Formosinha de Elvas

Faz-me por ela morrer
e traz-me desesperado
alguém que dá gosto ver
e de corpo bem talhado,
por quem a morte hei-de ter
como cervo lanceado
que se vai do mundo a perder
da companhia das cervas.

Antes ficasse sandeu
ou me embruxassem com ervas
no dia em que me apareceu
a tal formosinha de Elvas.

Mais a morte me convém,
pois da sensatez me queixo
de quem desejo não tem
de matar o meu desejo
e me parece tão bem
que cada vez que a vejo
me lembra a rosa que vem
saindo por entre as relvas.

Antes ficasse sandeu
ou me embruxassem com ervas
no dia em que me apareceu
a tal formosinha de Elvas.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Vou-me embora para Parságada
Lá sou amigo do rei...
(Manuel Bandeira)

Vou-me embora para Lisboa

Vou-me embora para Lisboa.
Lisboa é filha do Tejo
e eu sou filho das ondas,
filho das ondas do mar,
filho do sopro do vento.
Vou-me embora para Lisboa.
Lisboa tende para o azul,
o Tejo e o mar encontram-se
percorrendo Lisboa;
o Tejo com vontade
de partir para longe,
o mar com vontade
de visitar os segredos de Ulisses.
Vou-me embora para Lisboa.
Lá tem uma viela
onde o azul é mais azul
e posso ter todas as princesas mouras
que eu quiser, e ouvir o canto
dolente das guitarras.
Vou-me embora para Lisboa.
Vou ver-te olhar o cais
vou ver o Tejo afogar-se,
azul, no mar todo.

António Eduardo Lico

Uma poesia de Mallarmé. Este soneto, tem por convenção o título de Sonnet en x, devido à existência de rimas que contêm esta letra:

Sonnet en X


Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx,
L’Angoisse, ce minuit, soutient, lampadophore,
Maint rêve vespéral brûlé par le Phénix
Que ne recueille pas de cinéraire amphore

Sur les crédences, au salon vide : nul ptyx,
Aboli bibelot d’inanité sonore,
(Car le Maître est allé puiser des pleurs au Styx
Avec ce seul objet dont le Néant s’honore.)

Mais proche la croisée au nord vacante, un or
Agonise selon peut-être le décor
Des licornes ruant du feu contre une nixe,

Elle, défunte nue en le miroir, encor
Que, dans l’oubli fermé par le cadre, se fixe
De scintillations sitôt le septuor.

domingo, 26 de maio de 2013

Aconteceu-me uma poesia estta manhã. Ficará integrada no poemário Este rio que corre sem águas:

Ventre da noite, com grilos


O ventre da noite expulsa poléns
e grilos violeta olham uma lua
que inunda os horizontes.

que versos são estes?
A noite tem tem um ventre!
A noite tem ventre.
Como um artigo indefinido
pode estragar tudo!

a gramática e a morfologia
deviam ser violeta
e inundar horizontes,
E se possível tanger liras
desmesuradas.

António Eduardo Lico
Uma poesia de José Tolentino de Mendonça:


Apenas um cigarro

As palavras são as mesmas
mas deixei de saber o tempo
para chegar a ti
durante meses e meses
tinha perdido o hábito
as histórias que de noite sonhas
o evidente esplendor que depois
não tomou nenhuma forma


que a razão é a deste amor
que tanto se confunde
com o medo


não dizias nada
tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro

sábado, 25 de maio de 2013

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


Este rio que descubro em mim

Este rio que descubro em mim
não sei em que fontes nasceu.
É de melancolia a frescura
desta água, e deste rio
que me mata a sede
e põe navios no teu riso.
Será de espanto esta torrente
que me enche e me esvazia
e não sei em que fontes nasceu
este rio que descubro em mim.

António Eduardo Lico
Uma poesia de José Augusto Mourão.
Tive a sorte de poder contar com a sua amizade. Faleceu, indelizmente dia 5 de Maio de 2013:

apocalipse

virei
reiteradamente
como as estações das flores
virei como o animal ou o corsário
semear o vento que vos lembre a morte
(e vós que vos fechais em vossa vã imagem e vossos trapos,
vós que adorais Deus olhando-vos ao espelho,
tremei de vosso assento de carne fustigada
há muito que Ele deixou às vossas portas as sandálias)
virei na eclosão das vagas
envolto em tudo quanto a vida trabalha
virei no desregramento do vento
e em vosso pasmo
assim eu cante o vinho
que sobe o rio às costas dos vindimadores
virei no circuito da palavra
que se quebra como um ramo de água
e deixareis as armas para falar sem ritos
morre-se quando de nós ficam ficaram restos
que ninguém recolhe
virei no som de Stockhausen
e quantos desconstruíram a harmonia
e o mundo antigo
para que habiteis o tempo
como quem habita as fontes
cheios de barulhos por dentro
como o vinho
à cabeça das vindimadeiras