domingo, 9 de junho de 2013

Uma poesia de Sandra Guerreiro:


ponta de arco onde as vestes cerram

vácuos que as listagens tecem


longe das tribos das águas


peixes verdes e terrenos


lâmpada de incenso que se aflora louca

as estirpes a baloiçar suores

frisos que atravessam os dorsos


os de sono das águas

sábado, 8 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


De noite os gatos...

De noite os gatos, sim os gatos,
não lêem autores franceses
nem uivam para a lua.
Se o fizessem, eram literatos
e haveria sempre alguém
disposto a dizer que eram lobos,
por certo esquecendo
que os lobos não lêem autores franceses.
Dou por certo que um fleumático politólogo,
disfarçado de crítico literário
vai afirmar, e demonstrar (e depois ficar famoso)
que gatos e lobos não são afrancesados,
nem escrevem ensaios inquietos
acerca do gaullisme de Malraux
e da sua entrada tardia na Resistence.
ah, o crítico, ah o crítico literário,
heterónimo mundano dos politólogos,
não vai compreender porque Malraux entrou cedo
na Guerra Civil de Espanha,
e nem sequer vai dar um sentido estético
às fotos de Malraux de cigarro na boca.
Por certo vai fingir que não sabe que Malraux
gostava de bavarder sobre erotismo.
Vai ficar intimidado e com vergonha,
pois não pode citar Braudillard, e outros,
para explicar porque, para alguns Malraux era trotskista
e para Natalie Trotski era stalinista.
Como vais explicar que alguém como Malraux,
tão elegante e cosmopolita, e que viajou ao Oriente
não fosse um ícone de 68?
Voyons e a Condição Humana?
Vais também dizer que é uma Fleur du Mal?
Que era política disfarçada de literatura?
Ou talvez queiras demonstrar, bem à francesa
que ele era um nihlista; sim, assim ficas descansado!
Eram filosofias! Nada mais que filosofias.
E nem sequer vais dizer como eu: niilista;
vais dizer nihilista, era o que Malraux era,
os politólogos sabem latim, e já leram
Marco Aurélio, e Cícero; alguns sabem,
Oh volúpia de sabedoria, o genitivo de Cícero,
e naturalmente escrevem: Cicero.
Até sabem que Séneca foi estóico,
E esquecem-se de dizer, por conveniência, é certo,
que Malraux não foi estóico, e poucas coisas
fez por conveniência., a não ser que,
fingia que fazia uma filosofia
entre uma fatia de camembert, e uma taça de champanhe,
para não ser tomado como um autor profundo.
Sabes, um austríaco, depois deixou de ser austríaco,
promoveu-se a filósofo, sim, falo de Popper.
E dizem-me ser um autor profundo.
Um dia foi a uma manifestação, ele era comunista;
a polícia carregou e assassinou manifestantes.
E esse austríaco, Popper, Karl Popper
decidiu que já não era comunista.
Vendo a polícia a matar comunistas
decidiu que não era comunista;
depois fizeram dele famoso, até filósofo.
Disseram até que derreteu Gnoseologias!
Mesmo um poeta distraído, ou um europeísta convicto (e pago)
sabe fazer o diagnóstico certo: cortou-se, borrou-se de medo;
e voltou-se para a filosofia.
Errada vocação a desse austríaco,
deveria ir para polícia, assim podia matar comunistas,
ele próprio, já que ele tinha decidido que o não era;
e escusava de ter entrado na galeria dos intelectuais
muito considerados, mas vendidos.
O que tu não dirias dele, André!
Acabaste como ministro de De Gaulle,
muitos, sobretudo de entre os politólogos
devem achar que tu gostavas do inestético
nariz de De Gaulle, e da forma
como ele dizia . Vive la Frrrrrance.
muita gente te insultou, e disse mal de ti.
Acredito, que intimamente devias sorrir, divertido;
ainda hoje os politólogos não sabem, no seu saber definitivo,
que só querias mostrar como se devia ser bom comunista.

António Eduardo Lico


Uma poesia de Ana Salomé:

ode do fim da paixão

agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.

as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.

deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.

agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Rimbaud e Baudelaire eram franceses...

Rimbaud e Baudelaire eram franceses,
poetas franceses, concluo.
Não estudo Lógica, mas deveria fazê-lo.
se o fizesse, saberia, ver para além
do que se pode ver numa manhã obscura,
saberia até da estética usada
pelos poetas franceses. Sem dúvida,
saberia muito de estética, e das estéticas.
Saberia que Baudelaire não foi poeta maldito;
todos os poetas são benditos.

António Eduardo Lico
Uma poesia de João Camilo:

QUE SE PASSA?

Claro que não, de maneira nenhuma.
Estava sentada ao meu lado, o desejo
agitava-lhe o ventre, ela semicerrava
os olhos. De maneira nenhuma, assim não,
ainda não. Debrucei-me sobre o seu rosto
e beijei-a. Pousei a cabeça no seu peito
e esperei pelas suas mãos. Continuava,
lento, a ir devagar ao encontro do desejo.
Não tinha pressa. Ela apertava-me
contra si silenciosamente, parecia
dormir e repousava o seu corpo como
se a morte ou uma hibernação o tivessem
ocupado. A televisão passava um filme
de John Ford. Ela ergueu-se subitamente,
afastou-me. Que se passa, perguntei-lhe,
surpreendido. Nada, respondeu ela, mas não é
o filme de John Ford que acaba de começar?
Não o quero perder. De acordo, pensei eu.
Levantei-me, fui sentar-me na cadeira do outro
lado da sala. Acendi um cigarro. Lá fora
caíra a noite há muito tempo. Mas quem
tinha vontade de pensar no que se passava
lá fora? Um filme de John Ford, repeti em voz
baixa. Apaguei o cigarro e concentrei-me
na aventura irreal, nas cores magníficas do deserto.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Era tudo metafísica

Era tudo metafísica. Diziam.
Diziam que Hölderlin era vagamente louco,
e esqueciam que eram loucamente vagos.
Era tudo metafísica. Diziam.
Diziam, vê lá tu, que nem ligavas à metafísica,
diziam, caro Goethe, que não entendiam
o teu atrevimento; sim, o teu atrevimento
de fazeres uma teoria em que gentilmente
rebatias e negavas Newton; bem sei, Newton era inglês
e nem percebia nada de metafísica, embora
fizesse por aparentar ser um verdadeiro conhecedor.
Ficavam, e ainda ficam, zangados com a tua Erotica Romana
e esse teu secreto jeito de Mefistófeles.
Tu dizias que não eras Mefistófeles, mas
ensinavas assim: tudo o que existe merece desaparecer.
Era o teu jeito íntimo de seres o que dizias não ser.
Era tudo metafísica. Diziam.
Chamavas-te Vladimir, Vladimir Maiakowski
diziam que eras gentil, terno e frágil.
Eras gentil, terno e frágil e forte.
Eles não queriam que fosses forte.
Uma mulher bonita, de odor suave
tornou-te frágil e resolveste partir.
Nem te despediste, de súbito deixaram de te ver.
Era tudo metafísica. Diziam.
Era mais conveniente atribuir a tua partida
a um homem vagamente chamado Estaline.
Era bem melhor assim: mais um morto
na contabilidade de Estaline. Ainda que vagamente.
Olha, meu caro Maiakowski, se calhar
ainda estão a pensar que devem atribuir a Estaline
a extinção dos dinossáurios.
E vão dizer: que crueldade! Estaline
nem quis saber que eram répteis
e animais de sangue frio.
Talvez até queiram acusá-lo da queda do Império.
É isso, Estaline estabeleceu-se nas fronteiras do Império,
estão enganados, não era Átila, o Huno, nem Alarico,
O Visigodo, e todos os outros Godos: era ele,
vagamente chamado Estaline,
era ele que acossava as doces Vestais.
Vão também dizer que não sabia de Babilónia
isso, não sabia de Babilónia a grande prostituta.
Era tudo metafísica. Diziam.
Era afinal um ignorante. Quem não sabia
De Babilónia, a grande prostituta?
Agora nas portas de Ur há um homem
pendurado pelo pescoço. Sim, nas portas de Ur.
Indica que Babilónia era a grande prostituta
Já não tem jardins suspensos, tem um homem,
tem homens suspensos pelo pescoço nas portas de Ur.
Era tudo metafísica. Diziam.
E sabes, um banqueiro, disfarçado de académico.
Um homem, um homem de nome Montefiore.
Não, não é florentino, nem sequer siciliano.
É inglês, vulgarmente inglês, vulgarmente
banqueiro disfarçado de académico.
Escreveu um livro sobre ti, quando eras homem crescido;
depois escreveu um livro sobre ti, quando jovem..
Isso é mau presságio, sabias? Negro augúrio, eu digo!
Não demora, ele vai dizer, esse homem de nome Montefiore,
que é banqueiro disfarçado de académico,
que nunca estiveste em Ítaca, nunca estiveste
a bordo do Argos; nunca foste Argonauta!
Vai dizer que não sabias que Pitágoras
foi educado no Egipto, e depois enviado
para a Grécia. Na Grécia ele abria templos
e colocava na entrada: Quem não é geómetra, Não entre!
Ele, esse homem de nome Montefiore
que é banqueiro disfarçado de académico
vai dizer que tu não sabias que Pitágoras
sabia fazer a quadratura do círculo.
Não, eu não estou a dizer que ele afirma
que não conheces o teorema! Não me entendas mal!
Vão dizer que assim não vale, assim não conta.
vão dizer que eras inoxidável.
Sabes? Muitos poetas gostam de usar a palavra
óxido nas suas poesias; dizem que assim
podem pertencer a não sei que escola, ou movimento.
Era tudo metafísica. Diziam.
Lembrei-me agora de ti. Sabes, Mao Tse Tung?
Agora escondes-te, ou escondem-te
sob uma espécie de acordo ortográfico,
assim um acordo ortográfico interno, só com validade na China.
Agora os chineses são exportadores e exportaram um nome: Mao Zedong
Era tudo metafísica. Diziam.
Já não sabiam que mais crimes e mortes te atribuir.
Então disseram que gostavas de te rodear de mulheres jovens.
Disseram que tinhas mulheres demais.
Sabes, ainda te vão acusar do rapto das Sabinas.
És outro candidato a responsável pela queda do Império,
talvez te convertam no candidato ideal
para explicarem a queda do Império do Oriente.
Foste tu que chamaste os turcos, meu velho?
Vão dizer que num delírio de crueldade
chamaste vários turcos: os Seldjúcidas
que prepararam o terreno, e depois os Otomanos.
Era tudo metafísica. Diziam.
Matisse e Picasso estavam em Paris.
Havia muita gente que estava em New York.
em Chicago, em Los Angeles: eram americanos.
Havia um americano, dizem-me que era escritor:
O nome: Dwight Macdonald. Escrevia, por consequência,
Pois dizem-me que era escritor. Escrevia que a bomba atómica
era natural; era uma consequência natural, uma banalidade
do estilo de vida americano, como os automóveis, ou a fast food.
Depois havia também um outro americano,
Este chamava-se Jackson Pollock, dizem-me que era pintor.
assumi que sendo pintor, pintava., pois é isso que fazem os pintores.
Era tudo metafísica. Diziam.
Diziam que esse Pollock iniciou uma revolução na pintura:
Era cheia de automatismos, melhor era baseada em processos
automáticos, era arte moderna, aquilo é que era arte moderna.
Diziam que era expressionismo abstracto; eram alguns, esses
expressionistas, esses abstractos, tinham que ser alguns;
se fossem nenhuns, parecia mal; o que diriam as pessoas?
Eram Pollock, Motherwell, De Kooning, Hofmann, Kline, havia outros.
A América estava cheia de expressionistas, e de abstractos,
que não eram expressionistas, nem eram abstractos.
Eram pagos pelos guerreiros da Guerra Fria, dava-lhes
(t)alento o dinheiro sujo e secreto para conter
o grave perigo vermelho que ameaçava a Velha Europa.
Jacques Duclos um dia transportava pombas no seu automóvel.
Era um dia em que um general americano chegava a Paris.
Não, esse general americano não era expressionista,
nem sequer abstracto, não gostava de pombas, era isso!
Prenderam Duclos, ignora-se se prenderam as pombas.
Pablo Picasso, tu não sabias, mas o Departamento de Estado
Até fez um informe secreto sobre ti: eras vermelho.
Tinhas as huertas de Valência na alma e a claridade
do sol valenciano no pincel, e pintavas, e pintavas.
E seguias rojo como era o Poente nas bandas de Valência
e denunciavas, com luz e sombra, na tua pintura,
a matança na Coreia, esse quadro expressionsita
e abstracto pintado pelos american boys nas
longínquas paisagens de arroz do Extremo Oriente.
Era tudo metafísica. Diziam.
Tu e Matisse estavam em França, em Paris
eles eram expressionistas e abstractos
vinham do outro lado do Atlântico,
vinham das Montanhas Rochosas e dos Apalaches,
vinham travestidos de abstracção,
Edgar Hoover tinha travestido toda a América
e ditava a última moda em lingerie.
Eram meros instrumentos de propaganda,
alguns deles bem medíocres, agora génios promovidos.
Hoje, resta apenas a cinza do mercado da arte
e a luz e as sombras que traçaste na tela
Era tudo metafísica. Diziam.
Pusemos Torquemada como bispo de Roma
tantos bispos italianos e por último um polaco – era demais!
Era tudo metafísica. Diziam.
Valia mais Torquemada, um espanhol que é alemão.
Os espanhóis sempre tiveram uma política alemã
dizem muitos manuais de História.
É sempre melhor ter Torquemada em Roma
que ter uma sucursal em Avignon
com um francês que só gosta de Camembert
e pensa que o Champagne é néctar dos deuses.
Era tudo metafísica. Diziam.
Não quero que me acusem de ser metafísico,
calo-me com Torquemada.
Era tudo metafísica. Diziam.
Torquemada nunca foi a Granada
nem conhece o Cante Jondo.
Federico, a quem chamavam Garcia Lorca
foi a Granada sem ir a Granada.
E Granada chora a ausência daquele
que nunca foi a Granada.
Era tudo metafísica. Diziam.
Granada llora y su cante
pinta de rojo las naranjas
La guitarra, como luna,
testigo que los gitanos
velan tu morada
en las puertas de Granada.
Era tudo metafísica. Diziam.
Nem eu vou falar de petróleo,
ainda vão dizer que sou bolchevista
e que não gosto das sete irmãs,
talvez seja um conspiracy theorist
ou um desses metafísicos
que nem sequer é afrancesado
e hesita se tem que classificar Baudelaire,
modernista, antes dos modernos,
simbolista sem simbólica, ou apenas um poeta.
Era tudo metafísica. Diziam.

António Eduardo Lico




Uma poesia de Nuno Júdice,, recente vencedor do Prémio Reina Sofia:

A Origem do Mundo

De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.