Uma poesia de João Camilo:
QUE SE PASSA?
Claro que não, de maneira nenhuma.
Estava sentada ao meu lado, o desejo
agitava-lhe o ventre, ela semicerrava
os olhos. De maneira nenhuma, assim não,
ainda não. Debrucei-me sobre o seu rosto
e beijei-a. Pousei a cabeça no seu peito
e esperei pelas suas mãos. Continuava,
lento, a ir devagar ao encontro do desejo.
Não tinha pressa. Ela apertava-me
contra si silenciosamente, parecia
dormir e repousava o seu corpo como
se a morte ou uma hibernação o tivessem
ocupado. A televisão passava um filme
de John Ford. Ela ergueu-se subitamente,
afastou-me. Que se passa, perguntei-lhe,
surpreendido. Nada, respondeu ela, mas não é
o filme de John Ford que acaba de começar?
Não o quero perder. De acordo, pensei eu.
Levantei-me, fui sentar-me na cadeira do outro
lado da sala. Acendi um cigarro. Lá fora
caíra a noite há muito tempo. Mas quem
tinha vontade de pensar no que se passava
lá fora? Um filme de John Ford, repeti em voz
baixa. Apaguei o cigarro e concentrei-me
na aventura irreal, nas cores magníficas do deserto.
terça-feira, 11 de junho de 2013
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Ao amanhecer, o mar
Torrencial mar, esse, o
Atlântico.
Está perdida essa tua
rosa-dos-ventos
como gaivota adormecida
na
espuma líquida da tua
geografia.
O teu mais célebre
náufrago,
esse do Restelo, o
Velho,
voga como peixe triste
entre lânguidos corpos
de sereias.
Já não tens
navegadores
de olhar perdido no
horizonte
que te procurem o
Oriente e o Poente,
nem largam ténues
barcas
para indagarem do Sul,
a rosa
quente e promissora que
ocultas,
Existes só e
inexpugnável
roçando acidental
praia
com a tua brilhante
espuma
refulgindo de branco
no obscuro amanhecer
com que te cercam.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Rui Costa:
o pão
Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
o pão
Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
domingo, 9 de junho de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Une Voyage
Les violons
Ah, o teu nome é
obscuro - Louis-Ferdinand Destouches,
então surge aquilo que
te decifra e te consome – Celine.
Celine, eis o nome,
alguns dirão até 666.
Crépuscule
Et
ton Voyage au bout de la nuit?
Tu
dizias que não eras um homem de ideias,
as
ideias, estavam nos livros, volumes e volumes;
a
ti só o estilo de interessava.
Tu
étais un homme à style.
Não
te perdoaram que tivesses escrito
O
inesperado de Voyage au bout de la nuit,
Algo assim, só eles
podiam fazer.
Adivinhaste, culpam-te
dos Pamphlets;
culpam-te ainda
mais dos Pamphlets,
e dizem a palavra
definitiva: antisémite;
essa palavra com que
exterminam
todos os que não
gostam; e eles não gostam de muitos.
De mim, é difícil
dizerem que sou um desses, vejamos:
Gosto dos Fenícios,
eram semitas,
e se não eram deveriam
ser.
Gosto do povo de Kem,
eram os egípcios antigos,
e eram semitas
genuínos, genuínos mesmo.
Gosto dos Camitas, e
porque não dos Filisteus?
acaso não eram
semitas? Dos da Babilónia
gosto também, e são
semitas desde sempre;
hoje ninguém se
lembra, mas eles podem esquecer-se;
e esqueceram-se,
esqueceram-se.
Já vai longe a
Suméria, diziam que vinham da Anatólia
(os Sumérios –
claro)
e depois, a sua
brilhante civilização
foi substituída por
sucessores semitas.
Eles esquecem-se, e até
dizem que a História começa
com a Suméria. Eles
esquecem-se, esquecem-se.
Estão sempre a
esquecer-se;
mesmo quando não se
esquecem,
é porque se
esqueceram.
Vejam bem, eu gosto dos
Assírios!
Gosto até dos Hititas,
mas esses não eram semitas,
mas gosto deles; vieram
da Anatólia (o que não era longe)
e conquistaram o
Egipto, conquistaram Kem.
Gosto dos Hebreus; os
da Babilónia tinham
um nome pare eles:
Habiru.
Freud, que de Viena
antevia Moisés, o egípcio,
Não esqueceu o nome –
Habiru.
Ah pensaram que me
esqueci dos da Galileia?
Esses não eram
Hebreus; eram Galileus
e a Galileia teve que
ser conquistada;
tinha uma divindade
rival da de Jerusalém.
Tu não sabias nada
disto, sempre ignoraste
os ardis subtis da
História e das estórias,
eras médico e eras
styliste.
Finale
Louis-Ferdinand,
(où Celine), écoutes moi bien !
Ainda procuram, ou
vasculham,
talvez sejam apenas
como os voyeurs,
apenas querem ver.
Talvez pensem em Haia...
(projectivamente, bem
entendido).
Écoutes! Eles
procuram,
procuram as tuas
últimas cartas,
não te querem publicar
a ti,
querem interpretar as
tuas últimas cartas;
parecem condenados à
guilhotina,
esperando com angústia
de condenados
o seu último e longo
minuto,
esse antes do frio da
lâmina.
Ahhhh, quiseram-te
apenas médico,
e com absoluta assepsia
asseguraram-se disso
mesmo!
Presumo que sorriste,
tu est un
styliste.
António Eduardo Lico
sábado, 8 de junho de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
De noite os gatos...
De noite os gatos, sim
os gatos,
não lêem autores
franceses
nem uivam para a lua.
Se o fizessem, eram
literatos
e haveria sempre alguém
disposto a dizer que
eram lobos,
por certo esquecendo
que os lobos não lêem
autores franceses.
Dou por certo que um
fleumático politólogo,
disfarçado de crítico
literário
vai afirmar, e
demonstrar (e depois ficar famoso)
que gatos e lobos não
são afrancesados,
nem escrevem ensaios
inquietos
acerca do gaullisme
de Malraux
e da sua entrada tardia
na Resistence.
ah, o crítico, ah o
crítico literário,
heterónimo mundano dos
politólogos,
não vai compreender
porque Malraux entrou cedo
na Guerra Civil de
Espanha,
e nem sequer vai dar um
sentido estético
às fotos de Malraux de
cigarro na boca.
Por certo vai fingir
que não sabe que Malraux
gostava de bavarder
sobre erotismo.
Vai ficar intimidado e
com vergonha,
pois não pode citar
Braudillard, e outros,
para explicar porque,
para alguns Malraux era trotskista
e para Natalie Trotski
era stalinista.
Como vais explicar que
alguém como Malraux,
tão elegante e
cosmopolita, e que viajou ao Oriente
não fosse um ícone de
68?
Voyons e
a Condição Humana?
Vais também dizer que
é uma Fleur du Mal?
Que era política
disfarçada de literatura?
Ou talvez queiras
demonstrar, bem à francesa
que ele era um
nihlista; sim, assim ficas descansado!
Eram filosofias! Nada
mais que filosofias.
E nem sequer vais dizer
como eu: niilista;
vais dizer nihilista,
era o que Malraux era,
os politólogos sabem
latim, e já leram
Marco Aurélio, e
Cícero; alguns sabem,
Oh volúpia de
sabedoria, o genitivo de Cícero,
e naturalmente
escrevem: Cicero.
Até sabem que Séneca
foi estóico,
E esquecem-se de
dizer, por conveniência, é certo,
que Malraux não foi
estóico, e poucas coisas
fez por conveniência.,
a não ser que,
fingia que fazia uma
filosofia
entre uma fatia de
camembert, e uma taça de champanhe,
para não ser tomado
como um autor profundo.
Sabes, um austríaco,
depois deixou de ser austríaco,
promoveu-se a filósofo,
sim, falo de Popper.
E dizem-me ser um autor
profundo.
Um dia foi a uma
manifestação, ele era comunista;
a polícia carregou e
assassinou manifestantes.
E esse austríaco,
Popper, Karl Popper
decidiu que já não
era comunista.
Vendo a polícia a
matar comunistas
decidiu que não era
comunista;
depois fizeram dele
famoso, até filósofo.
Disseram até que
derreteu Gnoseologias!
Mesmo um poeta
distraído, ou um europeísta convicto (e pago)
sabe fazer o
diagnóstico certo: cortou-se, borrou-se de medo;
e voltou-se para a
filosofia.
Errada vocação a
desse austríaco,
deveria ir para
polícia, assim podia matar comunistas,
ele próprio, já que
ele tinha decidido que o não era;
e escusava de ter
entrado na galeria dos intelectuais
muito considerados,
mas vendidos.
O que tu não dirias
dele, André!
Acabaste como ministro
de De Gaulle,
muitos, sobretudo de
entre os politólogos
devem achar que tu
gostavas do inestético
nariz de De Gaulle, e
da forma
como ele dizia . Vive
la Frrrrrance.
muita gente te
insultou, e disse mal de ti.
Acredito, que
intimamente devias sorrir, divertido;
ainda hoje os
politólogos não sabem, no seu saber definitivo,
que só querias mostrar
como se devia ser bom comunista.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Ana Salomé:
ode do fim da paixão
agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.
as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.
deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.
agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.
ode do fim da paixão
agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.
as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.
deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.
agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.
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