Uma poesia de João Guimarães:
O cristo que tinha um quisto
e eis que Ele começa a drenar
com ranho de ovo no céu escalfado
escalfoda-se e um ramo de margaridas podres
de boas e bêbados estamos nós a arrotar!
e molhos de poemas despenteados com piolhos míopes
e brócolos centípedes com caspa e cheiro a
Sovaco Silva a mendigar painéis insulares
e pais nossos ao som de diarreia de porcelana reciclável
penicos ecológicos e escatológicas de poupança genética
e juro transplanetário enxertado em cactos alcoólicos
e bonecas manetas engravatadas por imbecilidade terminal.
Ao longe gritos de merda amorangada que o eco agasalhou.
domingo, 16 de junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Secreta dorme no seu
casulo...
Secreta, dorme no seu
casulo
um sono suspenso, a
crisálida.
Se Darwin te visse!
Se um criacionista, ou
mesmo dois,
pudessem penetrar o teu
sono!
Até um adepto de
Lamarck
poderia investigar o
teu caso!
Não queria falar em
Lamarck...
Já sei que me vão
falar em Lysenko.
Trofim Lysenko para ser
quase exacto.
Tinha mais um nome, mas
não vou usá-lo.
Quero apenas ser quase
exacto.
A exactidão
aprende-se, não está na genética.
É isso, Lysenko não
queria a genética;
e detestou Mendel;
Mendel apreciava ervilhas,
era austríaco, e sem o
saber originou a genética:
é o que muitos
afirmam; Mendel, nunca soube
que tinha fundado
alguma coisa.
Os que dizem que fundou
alguma coisa,
sem o saberem, ou os
que depois
inventaram o termo
GENÉTICA,
talvez apenas gostem de
ervilhas!
Lysenko...não se sabe
o que originou!
Pelo menos não o sabem
os que o criticam
e apenas dizem que o
malvado Lysenko
não queria a genética.
Lysenko não queria
Mendel e não queria
ervilhas, nem flores de
ervilhas
Indiferente aos meus
versos,
aos que trucidam
Lysenko em manuais
que apenas são
conhecidos no corredor
do Departamento dos
autores,
a crisálida dorme sem
saber que dorme;
dorme um sono frio e
distante.
Dorme e não sonha, nem
sabe
que dorme para acordar
para a luz.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Teresa Fonseca:
Quando as palavras são borboletas a sugar sais minerais dos ossos…
às vezes os frutos delas são vagas de asas a bater
indefesas
às vezes são colhidas
pela vida
da boca
em ritmo forte
quando a boca é um bico de filtro eficaz
as palavras soltam-se do ciclo letal
comem e defecam
ora a sopa nutritiva
ora o líquido venoso
vão ser
as palavras
solta-se o alarme
os cangalheiros das palavras vão a caminho
elas
são a morte encontrada
e sabem que não é preciso ter pressa porque com a dignidade da caçada
se tornarão lentamente necrófagas como abutres
são vespas grandes a embater nos vidros transparentes
e nós do outro lado
asfixiamos
com a protecção dos veados
na cabeça
e as palavras a zumbir como vespas
grandes
e a entrarem-nos pelo nariz pela boca pelos pêlos pelos poros da pele
num zumbido rizomático
comem-nos
defecam-nos
as palavras
e nós do outro lado do vidro
Quando as palavras são borboletas a sugar sais minerais dos ossos…
às vezes os frutos delas são vagas de asas a bater
indefesas
às vezes são colhidas
pela vida
da boca
em ritmo forte
quando a boca é um bico de filtro eficaz
as palavras soltam-se do ciclo letal
comem e defecam
ora a sopa nutritiva
ora o líquido venoso
vão ser
as palavras
solta-se o alarme
os cangalheiros das palavras vão a caminho
elas
são a morte encontrada
e sabem que não é preciso ter pressa porque com a dignidade da caçada
se tornarão lentamente necrófagas como abutres
são vespas grandes a embater nos vidros transparentes
e nós do outro lado
asfixiamos
com a protecção dos veados
na cabeça
e as palavras a zumbir como vespas
grandes
e a entrarem-nos pelo nariz pela boca pelos pêlos pelos poros da pele
num zumbido rizomático
comem-nos
defecam-nos
as palavras
e nós do outro lado do vidro
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Geografias
Escrevi uns versos em
que falava
de oceanos tristes.
Os oceanos não são
tristes; nem alegres.
São oceanos quando uns
senhores
a que chamam geógrafos
decidem que são
oceanos.
E decidem que são
apenas oceanos; nem tristes, nem alegres.
Se eu escrevesse um
verso assim:
“Oh taciturno
Atlântico Oceano”.
Teria por certo
exegetas, que iriam falar
de uma certa tendência
classicista
nos meus versos; talvez
até digam que eu estudei Latim...
Teria legiões de
geógrafos a reclamarem
em cenáculos
nacionais, internacionais e transnacionais
que de oceanos só eles
podem falar.
Que nunca foi
encontrado um oceano taciturno.
Eu não sou contra os
geógrafos.
Devia haver muitos
geógrafos. Milhões de geógrafos.
Tinham emprego
garantido
A ensinar Geografia aos
gringos.
O Mar Negro, é Mar
Negro;
se fosse taciturno, ou
fosse
outra coisa qualquer,
certamente estaria
irritado com os geógrafos.
Os Mares também se
irritam?
Porque é apenas Mar
Negro
E não Oceano Negro?
Só os geógrafos o
sabem.
Eu regresso à Água.
António Eduardo Lico
Uma poesia de Emiliana Cruz:
escamas
e se os passos abafam o silêncio
e se o espelho engole a cobra
escamas espalhadas
recolhem as escadas de vidro
cuspindo os passos de sossego
e se o rasgo do vidro – poder ser o espelho íntimo
e se a vontade de engolir o espelho – na escada – onde o sentido se erige
se prendem na pele muda,
passos de cobra
deglutidos pelo espelho
escamas
e se os passos abafam o silêncio
e se o espelho engole a cobra
escamas espalhadas
recolhem as escadas de vidro
cuspindo os passos de sossego
e se o rasgo do vidro – poder ser o espelho íntimo
e se a vontade de engolir o espelho – na escada – onde o sentido se erige
se prendem na pele muda,
passos de cobra
deglutidos pelo espelho
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:
Tuve
amor y tengo honor.
Esto
es cuanto sé de mi.
(Calderón
De La Barca)
Um
poema stalinista
Velhos (e
novos) trotskistas
gritam com
vozes aflautadas
que os
stalinistas são muito maus.
Jovens
intelectuais trotskistas
sonham, em
segredo ser possuídas
por velhos
e empedernidos stalinistas.
Os velhos
(e novos) trotskistas
gritam
sempre com vozes aflautadas,
e gostam
de fingir que sabem tudo.
Até
fingem que sabem geografia!
Um velho
trotskista, Wolfowitz,
(não
faltará quem diga que é novo)
mais
polaco que americano, contudo americano,
(os
polacos gostam de ser americanos),
Que o diga Brzezinski!
Dizia (Wolfowitz): eu
sei onde é o Afeganistão!
O Afeganistão é a
nossa geografia,
Queremos o Indo Kush! E
a Ásia Central!
Ungiu de trotskismo,
Cheney e Rumsfeld.
Bush não fui ungido.
Foi ungido noutra
internacional;
Escapou por pouco à
unção de Wolfowitz.
Verão como a Babilónia
faz parte da mossa
geografia,
eu sou Nabucodonosor,
e vou reconstruir os
jardins suspensos
e vou tornar trostkista
o Afeganistão,
clamava com voz de
Quarta Internacional!
Alexandre, O Grande
Alexandre
Devia ignorar por
completo
Os delicados meandros
da Revolução Permanente,
E deve ser um dos
precursores do stalinismo;
para além de tudo,
venceu no Indo Kush.
Genghis Khan, esse
soldado alado da estepe
devia ser completamente
ignorante
das magnas assembleias
da Quarta Internacional
e dos intelectuais de
barbichas e óculos,
pois venceu no
Afeganistão, e chegou à Hungria;
o que diria Lukacs se
fosse vivo!
O que diriam os velhos
e graves filósofos,
Perceptores de
Alexandre?
Vou deixar a gravidade
destes versos
e vou fazer como os
velhos poetas:
cantar as flores, o
vinho, e as mulheres:
com o tempo, escolho a
ordem certa.
Uma poesia de Jorge Barbosa:
POEMA DO MAR
O drama do Mar,
O desassossego domar,
sempre
sempre
dentro de nós!
O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas...
O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!
O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!
O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...
O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,*
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!
Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!
POEMA DO MAR
O drama do Mar,
O desassossego domar,
sempre
sempre
dentro de nós!
O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas...
O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!
O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!
O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...
O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,*
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!
Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
e ter que ficar!
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