domingo, 23 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Marinheiros de Lisboa (nas Descobertas)

Eram apenas carne e ossos obscuros
os anónimos marinheiros de Lisboa.
Foram gente famosa, homens de aventura
e ninguém os conhecia, ou veio a conhecer.
Navegavam como se o Tejo nunca acabasse,
carregavam todas as gaivotas, como se
de guitarras se tratasse, e cantavam...

António Eduardo Lico
Uma poesia de Raquel Nobre Guerra:

BÍLIS NEGRA

aqui morro muitos anos convosco
estremecendo à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
solene
peçam-se óculos para ver melhor, peçam-se janelas
para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo, não tenho nada
preparado, tenho um telegrama visual e chamo
alto e chego para provar que este mote é só um meio
de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz como um animal deslumbrado
que atravessou

sábado, 22 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Horas felizes!

As horas são felizes
Porque não sabem que são felizes.
Nem sabem que são horas
e têm minutos e segundos.
nem imaginam que sisudos
Académicos dizem que têm
décimos de segundo, centésimos de segundo
e inclusivé nano segundos!?
Divertidos esses académicos,
banais imitadores de Zenão.
Quase conseguiram que
As horas não acabem

António Eduardo Lico
Uma poesia de Sandra Guerreiro:


ponta de arco onde as vestes cerram
vácuos que as listagens tecem

longe das tribos das águas

peixes verdes e terrenos

lâmpada de incenso que se aflora louca
as estirpes a baloiçar suores
frisos que atravessam os dorsos

os de sono das águas

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Não sei o que é a Poesia...

Não sei o que é a Poesia;
Se o soubesse, não escrevia poesia.
Para quê escrever o que já se conhece?
Escrevo palavras, e espero
que deuses descuidados
tratem de lhes dar sentido.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Teresa Fonseca:

Cantiga d’amigo

no lugar da fonte ficou o fluxo vermelho quebrado pela fluidez do cervo
ela brada e debanda e o amigo parado, refastelado. Pois então!
a areia molhada sonha com uma avelaneira florida no
corpo outono
e o rap de repetição.

o barco despido atracou uma e outra e outra vez
suja de lodo não mexe. tremida.
apodrece já a memória da romaria na mãe enguiçada
e as amigas fadadas de fresco enfadam no lar os maridos que embarcam noutras marés de velas enfunadas
e o rap de repetição.

no lugar da avezinha a vizinha de véu corvo com olhos de peixe de vidros estilhaçados
e o amigo que vem de peniche pavoneado e mareado e de velas apagadas.
ela sóquente só quente só e quente
nem albas nem salvas nem valsas

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Babylon


Lloyd was Lloyd.
He was also Georges.
So he was Lloyd Georges,
the Welsh magician.
Being Lloyd, he was Georges.
Being Georges, he was Lloyd.
He was destinated to be Lloyd Georges.
Lloyd Georges was dual.
No, he wasn’t because he was Lloyd and Georges,
or Welsh and British, even lawyer and politician.
Our man had always two positions as a politician;
perhaps, as a lawyer, even more
you know how the lawyers are…
Good old Lloyd…and Georges
let me remember you a minuteness;
oh that minuteness was laying
obscure at Babylon sands;
you see, I couldn’t resist to use
the word obscure; all poets use it, sooner or later.
Remember old Lloyd?
Oil, that’s it! Oil!
Remember good old Lloyd
your words, your joy –grab all that oil!
Where was your dual and proverbial position?
I know you was Lloyd, you was Georges,
later Lloyd Georges.
Let me guess old Lloyd, let me guess
I can see (and hear) you – There is Babylon
I am a lawyer; I want the hanging gardens at Downing Street
to study better this legal monument that is the Code of Hammurabi
the oil is just a detail, as the sand is just a detail in the desert
and I (him, Lloyd Georges) am not Nabuchodonosor,
I am not in prophet Daniel’s famous dream
even a prophet, a good one, couldn’t predict me.
Good old Lloyd Georges, Oh my welsh magician
you are dual and cold on your grave
and Babylon rests ignored under antique sands
never more vanquished, never more found.

António Eduardo Lico