quinta-feira, 27 de junho de 2013

Uma poesia de Rita Dove:


The Bridgetower


per il Mulatto Brischdauer
gran pazzo e compositore mulattico

––Ludwig van Beethoven, 1803

If was at the Beginning. If
he had been older, if he hadn’t been
dark, brown eyes ablaze
in that remarkable face;
if he had not been so gifted, so young
a genius with no time to grow up;
if he hadn’t grown up, undistinguished,
to an obscure old age.
If the piece had actually been,
as Kreutzer exclaimed, unplayable––even after
our man had played it, and for years,
no one else was able to follow––
so that the composer’s fury would have raged
for naught, and wagging tongues
could keep alive the original dedication
from the title page he shredded.

Oh, if only Ludwig had been better-looking,
or cleaner, or a real aristocrat,
von instead of the unexceptional van
from some Dutch farmer; if his ears
had not already begun to squeal and whistle;
if he hadn’t drunk his wine from lead cups,
if he could have found True Love. Then
the story would have held: In 1803
George Polgreen Bridgetower,
son of Friedrich Augustus the African Prince
and Maria Anna Sovinki of Biala in Poland,
traveled from London to Vienna,
where he met the Great Master
who would stop work on his Third Symphony
to write a sonata for his new friend
to premiere triumphantly on May 24th,
whereupon the composer himself
leapt up from the piano to embrace
his “lunatic mulatto.”

Who knows what would have followed?
They might have palled around some,
just a couple of wild and crazy guys
strutting the town like rock stars,
hitting the bars for a few beers, a few laughs . . .
instead of falling out over a girl
nobody remembers, nobody knows.

Then this bright-skinned papa’s boy
could have sailed his fifteen-minute fame
straight into the record books––where,
instead of a Regina Carter or Aaron Dworkin or Boyd Tinsley
sprinkled here and there, we would find
rafts of black kids scratching out scales
on their matchbox violins so that some day
they might play the impossible:
Beethoven’s Sonata No. 9 in A Major, Op. 47,
also known as The Bridgetower.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Havia um crítico...

Havia um crítico que gostava de criticar poesia.
Digo analisar. E analisava!
Analisava em jeito de caixa de petri,
Dizem-me alguns que era mais tubo de ensaio.
Não sei se era um senhor alto, ou baixo,
se usava chapéu e se fazia ginástica.
Se a fazia, não a devia fazer
os críticos nunca fazem ginástica,
com excepção dos críticos que a fazem,
poderia dizer um filósofo
que subitamente virasse lógico.
Perante o poema, sim, faz ginástica:
Fala de Lyotard, sim esse mesmo
que foi promovido a fenomenologista;
vejam bem, ele falava de fenomenologia,
e nem sei como não o promoveram
à incarnação gaulesa de Kant:
assim, uma espécie de Kant
perdido nos canteiros de Versalhes
e nas alamedas das universidades
olhando para as pernas das jovens estudantes.
Por sorte (a de Kant), Kant há muito morreu,
ainda seria olhado como pós-moderno.
Estou a ver: Kant, esse prolegómeno pós-moderno!
Depois desse Lyotard é que chegam os exercícios pesados:
Chega Sein unt Zeit, chega Heidegger.
Pois ele não dizia que era herdeiro
legítimo da tradição metafísica europeia,
e que estava solidamente escorado no niilismo,
e até falava de ontologia
e do esquecimento do ser como centro de interrogação
e que a linguagem é a casa do ser?
Se for caso disso, remata o exercício com Baudrillard,
de caminho vai dizendo que Platão e Aristóteles eram gregos...
de caminho vai dizendo que Platão e Aristóteles eram gregos...
Eu nunca escrevi um poema que fosse assim:
As rosas ao meio dia são mais antigas
que as rosas às onze horas
Eu sei que nunca escrevi, mas poderia ter escrito
Não escrevi, porque não sou dado a exercícios.
Se escrevesse, iriam trazer Lyotard, para falar
Da pós-modernidade moderna sem modernistas,
de como a democracia tanto deve
ao professor nazi de filosofia
Martin Heidegger de seu nome, substituto de Husserl
iriam trazer esse Baudrillard, ou outros.
Melhor era usarem um manual de jardinagem
um dos bons, que os há.
Os manuais de jardinagem sabem falar de rosas.
Os poetas, como não sabem falar de rosas
falam das rosas que irão um dia existir,
se existirem!

António Eduardo Lico





Uma poesia de Kleber Lima

Passam homens – oscilam céus
outro inferno ascende o uno
vário eclipsado à vacilante densa
ponte
          fonte onde
equilibro um beribéri coração
transfractal
                    na
táctil iluminação do vento
ar dentro de ar em movimento
sopro dolor
                    d’ela
púrpuro gume do amar
ser entre
                 ventre e sono
o canto
pelas brechas do abismo
consumado humano.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


The dance of the Death is clumsy…and gracious

The Death knows to dance,
dances from birth till the final compass.
Clumsy and gracious she wanders
inside your veins and gazing
into your eyes as if wanted to kiss you.
One day, that dark Lady
shall return from your bones
and invite you for a last tango.
Smile and accept.
You are dancing for the eternity.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Jack Gilbert:

The Great Fires

Love is apart from all things.
Desire and excitement are nothing beside it.
It is not the body that finds love.
What leads us there is the body.
What is not love provokes it.
What is not love quenches it.
Love lays hold of everything we know.
The passions which are called love
also change everything to a newness
at first. Passion is clearly the path
but does not bring us to love.
It opens the castle of our spirit
so that we might find the love which is
a mystery hidden there.
Love is one of many great fires.
Passion is a fire made of many woods,
each of which gives off its special odor
so we can know the many kinds
that are not love. Passion is the paper
and twigs that kindle the flames
but cannot sustain them. Desire perishes
because it tries to be love.
Love is eaten away by appetite.
Love does not last, but it is different
from the passions that do not last.
Love lasts by not lasting.
Isaiah said each man walks in his own fire
for his sins. Love allows us to walk
in the sweet music of our particular heart.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemaŕio Amanhecer obscuro:


Em Maio houve Maiakovski

Em Maio veio Maiakovski, o futurista
trazer as flores que Maio não tinha
e versos que soavam como bigornas.
Se calhar pensam que foste jansenista,
ou modernista, sem ser moderno.
Como tu gostavas de quadrados!
Há quem te pense até um geómetra
e veja nos teus poemas
o despontar de um novo Pitágoras -
de cada adjectivo fazias uma hipotenusa
davas formas poligonais aos advérbios
até fizeste triângulos com interjeições...
e da sintaxe fizeste um soviete, o supremo.
Dizem-me que mesmo um soviete
por supremo que seja não é geometria.
Não terá ao menos uma linha recta?
Era Abril, e já pressentias o futuro Maio
tu que eras um futurista condicional
e desenhaste em Abril
todas as flores que devem enfeitar os Maios.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Eugénio de Andrade:

Nunca o verão se demorara

Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?