domingo, 30 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


A cal que não fosse ávida de água...

Nunca escrevi versos em que usasse a palavra cal.
Eu sei que nunca tive razões para o fazer,
mas nunca fiz, e assim o digo.
Reconheço que já usei a palavra óxido,
não muitas vezes, mas usei, noblesse oblige.
Usei, já o disse, não para oxidar o poema,
ou provocar outras reacções,
não que eu seja dado ao estudo da química
mas dizem-me que pode haver reacções...
A cal, ao que dizem, é ávida de água
E eu só quero a cal que não é ávida
de água, seja água, água, ou oxigenada;
não digam que estou a usar óxido
neste fazer o poema.
Não sou futurista, nem me corre
nas veias o mais leve ânimo post-moderno,
por isso usei óxido com moderação
e ainda espero a cal que não seja ávida de água.

António Eduardo Lico
Amadeu Ferreira traduziu para mirandês mais de cem autores portugueses e estrangeiros.
Camóes e Fernando Pessoa e os respectivos heterónimos foram traduzidos na íntegra.
Fica uma tradução de uma poesia de O Guardador de Rebanhos do heterónimo Alberto Caeiro:


De la mais alta jinela de mie casa
Cun un lhienço branco digo adius
Als mius bersos qu
e sálen pa la houmanidade.

I nun stou cuntento nien triste.
Esse ye l çtino de ls bersos.
Screbi-los i debo de amostrá-los a todos
Porque nun puodo fazer l cuntrairo
Cumo la frol nun puode scunder la quelor,
Nien l riu scunder que cuorre
Nien l’arble scunder que dá fruito.

Mirai-los que ban yá loinge cumo na deligença
I you nien sequiera sinto pena
Cumo un delor ne l cuorpo.

Quien sabe quien ls lerá?
Quien sabe a que manos eiran?

Frol, apanhou-me l miu çtino pa ls uolhos.
Arble, arrincórun-me ls fruitos pa las bocas.
Riu, l çtino de la mie auga era nun quedar an mi.
Abaixo-me i sinto-me quije cuntento,
Quaije cuntento cumo quien çcansa de star triste.

Ide, ide-bos de mi!
Passa l’arble i queda arramada pula Natureza.
Murcha la frol i l sou puolo dura siempre.
Cuorre l riu i entra ne l mar i la sue auga ye siempre la que fui sue.

Passo i quedo, cumo l Ouniberso.



O original em português:


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.



sábado, 29 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Cur non mitto meos tibi, Pontiliane, libellos ?
Ne mihi mittas, Pontiliane, tuos.

(Marcial, Epigr., VII, 3)

O binómio de Newton não é belo
é apenas um binómio:

é uma expressão que permite
calcular o desenvolvimento
de (a+b)n, sendo a+b um binómio
e n um número

Se ao menos n não fosse um número...
mas é! Dizem que é até um número natural

Os números podem até ser naturais
e pode ser reclamada a propriedade dos binómios;
continuarão a ser apenas expressões
de algo que não sabemos sequer se sabemos

Alexandre tinha inveja de Aquiles
que foi cantado por Homero.
Não teria inveja daquele binómio, o de Newton;
ao que sabemos, Newton não cantava

E mesmo que cantasse!
Já tinha estragado tudo
fazendo um binómio

Binómios não se fazem;
sabe-se que se podem fazer.
mas não se fazem!

Goethe preferia a injustiça à desordem
Newton preferia os binómios
o que será pior?

O binómio de Newton não é belo;
se não fosse de Newton, nem binómio
seria belo

António Eduardo Lico

Uma poesia de Luís Veiga Leitão:

DOMINGO

Hoje é domingo? Não e sim,
Para ser dia que se vive
mergulho as mãos em mim
e tiro os domingos que tive.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Once… a few verses


Once I wrote a few verses

there were nightingales on your fingers,
green snakes grew up from your hair
as if Spring was inside you

I wrote a few more
but I can’t remember them
they were destroyed
by the acid only time has

someone told me
that using the word acid
was good for my poetry
critics love reading
this word trough the poems

oh critics, see how well
I use the word acid!
What? No, I am not a chemist
nor even a grammarian
I just draw words
without knowing the meaning

If I was a poet, pardon, a critic
or a thin literate, I should know
that nightingales belong to the dawn
and snakes to the Scriptures.
Spring is a question of Cancer
or Capricorn, all depends on latitude.
I am not a geographer
and I have to finish some verses:

there were nightingales on your fingers,
green snakes grew up from your hair
as if was Spring inside you…

If you don’t mind!

António Eduardo Lico
Uma poesia de Álvaro de Campos:



Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades


E a mão de mistério que abafa o bulício,

E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe

Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!

Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios

E que misterioso o fundo unânime das ruas,

Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,

Ó do «Sentimento de um Ocidental»!



Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas.

Que nem são países, nem momentos, nem vidas.

Que desejo talvez de outros modos de estados de alma

Humedece interiormente o instante lento e longínquo!



Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,

Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas

Como um mendigo de sensações impossíveis

Que não sabe quem lhas possa dar...



Quando eu morrer,

Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,

Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,

Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos

Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,

Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,

Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,

Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,

Platão sonhando viu a ideia de Deus

Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.

Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.



Seja por esta hora que me leveis a enterrar,

Por esta hora que eu não sei como viver,

Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,

Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,

Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,

Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível

Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.



Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.

Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio

A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,

Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria

— Tu que me conheces — quem eu sou...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Obscura é uma clara palavra

Obscura é uma palavra que não é obscura
os poetas é que gostam de a usar.
Obscura, ela é clara na sua intenção.

António Eduardo Lico