quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma poesia de Manuel Alegre cantada por Adriano Correia de Oliveira:

Canção para o meu amor não se perder no mercado da concorrência


Nunca vistas os teus olhos
Das manhãs que vais tecendo
Nem soltes os teus cabelos
Onde o amor faz suas tranças.
Com teu cesto de ternura
Nunca vás amor à praça
Onde até o amor se compra
Onde até o amor se vende.
E se eu partir para a guerra
Não perguntes quando volto
Nem com lágrimas desenhes
Minha ausência no teu rosto.
E sobretudo não fales
Meu amor da paz na praça
Onde até se compra a guerra
Onde a própria paz se vende.
Nem perguntes pelo nome
Que no peito escrito trazes
Porque há nomes que se compram
Os nomes também se vendem.
Nessa praça onde tu passas
Tão sem preço como preço
Que o vento teria a morte
Se o vento tivesse preço.
E se eu partir para a guerra
Não perguntes quando volto
Nem com lágrimas desenhes
Minha ausência no teu rosto.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

O esboço da chuva

Reponho uma poesia do poemário O esboço da chuva:

Epifania do vinho

 Sorrio e bebo o meu vinho
Como música de Dionísio
O mosto agita a memória

E a divindade volta em glória
Rubra e doce sobre o meu corpo
Abrupta a cada gota de vinho

Sobre as flores que adivinho
Brotando do vinho generosas

E quentes de fugazes perfumes

António Eduardo Lico

Bernardim Ribeiro

Uma poesia de Bernardim Ribeiro de "Saudades" ,ais conhecido por "Menina e Moça":


Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos dágua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O esboço do vento

reponho Uma poesia do poemário O esboço do vento:

Alquimia da Madrugada

 Orvalho nasce na madrugada
mágica Obra que desvanece
de cor o ouro prometido

Da rosa nasce todo o sentido
espelho da lua, água celeste
apodrecida mas sempre pura

Sal subtil que o tempo apura
Oh muda madrugada secreta

Guarda a indizível matéria

António Eduardo Lico

Cabral do Nascimento

Uma poesia de Cabral do Nascimento:


Natal Africano



Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O esboço do vento

reponho uma poesia do poemário O esboço do vento:

À tarde a melancolia escorre...

À tarde a melancolia escorre
como seiva de árvores mortas
e das flores que hão de nascer

Primavera e o sol a morrer
como música no horizonte
que vai morrendo todas as tardes

E nas guitarras que escutardes,
nos violoncelos que tocam breve

a tensa seiva tece (n)a noite

António Eduardo Lico
Uma poesia de João de Deus:

Beijo

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
          Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
          Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
          Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
          Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
          Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
         Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
         Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
         Dê!


Como ele é doce!
Como ele trouxe,
            Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
           Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
         Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
        Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
        Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
       Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
          Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
         Dois...


Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
            Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
          Três!

Três é a conta
Certinho, e justa...
           Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
          Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
           Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
          Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
          Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
          Três!