terça-feira, 30 de julho de 2013

José Afonso canta Jorge de Sena - Epígrafe para a arte de furtar:

Epígrafe para a arte de furtar

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
- quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
- todos me roubam

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui d'El Rei


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Esta brevidade das palavras

reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:

Pequena melodia

Da palavra o som.
Do som a melodia.
Da melodia o poema.


Vuela la mariposa

La mariposa vuela.
Y rodopiando vuela la mariposa.
El Infinito es pequeño para tan breve vuelo.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Gastão Cruz:

Realidade

Os factos
são o espelho as coisas mostram-
-se atravessadas pelos rios
do som A poesia
quebra o vidro do dia como duma
cratera a voz do fogo lança
os jactos

domingo, 28 de julho de 2013

Este rio que corre sem águas

Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:

Deuses num quarto escuro

Um quarto, as roupas da cama
tangentes ao sonho e deuses
antigos e modernos que se fazem
a si mesmos como sombras
chinesas, aladas, na sua
vertigem de divindade.
Moscas picam-nos em vão,
Indiferentes, os deuses,
antigos e modernos
buscam apenas ser sombras
na sombra das paredes

de um quarto escuro.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Helder Macedo:

CRUCIFICAÇÃO

O que ofereces não chega.
Tua vontade tem o teu tamanho]
e o corpo que lhe dás é o teu corpo
meu corpo anterior que me usurpaste.
Nem o reino que anuncias pode abrir-se
para ti
mais que os lábios rasgados do meu sexo.
Um parto é sem regresso.
E é já dos outros
a fé que rege o mundo
e que os teus braços breves esticou
num abraço maior do que podias.
Não o teu verbo
mas o teu corpo
eu quero
que nele se transformou o meu poder.
Morre sozinho
Se não crês em ti.
Meu ventre bifurcando lembra ainda
a forma imaculada do teu crânio.

sábado, 27 de julho de 2013

Este rio que corre sem águas

Reponho uma poesia do poemário Este rio que corre sem águas:

Ventre da noite, com grilos
  
O ventre da noite expulsa poléns
e grilos violeta olham uma lua
que inunda os horizontes.

que versos são estes?
A noite tem um ventre!
A noite tem ventre.
Como um artigo indefinido
pode estragar tudo!

a gramática e a morfologia
deviam ser violeta
e inundar horizontes,
E se possível tanger liras

desmesuradas.

António Eduardo Lico
Ontem coloquei uma poesia de D. Dinis. Hoje coloco uma poesia do seu avô, Afonso X O Sábio, que para além das famosas Cantigas de Santa Maria, cultivou sobretudo as canções satíricas, chegando até nós 44 dessas canções. Afonso X assume grande importância no contexto da poesia de matriz Galaico-Portuguesa porque, apesar de ser rei de Castela e Leão, elegeu o galaico-português para escrever as suas poesias:

Achei Sancha Anes encavalgada

Achei Sancha Anes encavalgada,
e dix'eu por ela cousa guisada,
ca nunca vi dona peior talhada,
e quige jurar que era mostea;
e vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.

Vi-a cavalgar con un seu'scudeiro,
e non ía milhor un cavaleiro.
Santiguei-m'e disse: «Gran foi o palheiro
onde carregaron tan gran mostea»;
vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.

Vi-a cavalgar indo pela rúa,
mui ben vistida en cima da múa;
e dix'eu: «Ai, velha fududancúa,
que me semelhades ora mostea!»
Vi-a cavalgar per ũa aldeia
e quige jurar que era mostea.