quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:

Pequena lágrima

A lágrima melancólica.
Era seiva de flor.
Aroma de fruto.


Enigmática


Enigmática, no sol.
Eras na praia.
Apenas murmúrio do mar.

António Eduardo Lico

sábado, 28 de setembro de 2013

Uma redondilha de Camões:

MOTE

Descalça vai pera a fonte
Lianor, pela verdura;
vai fermosa e não segura.

VOLTA

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d' ouro o trançado,
fita de cor d' encarnado...
Tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
Reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:

Cantiga Secreta


De secreto nome havia uma flor.
E era também um rio e melodia.
E era breve, tão breve.


Mar ou Oceano, ou apenas água



No oceano triste, as velas se alevantaram.
Descuidadas sereias inundam o convés.
Havia só a água, e a espuma.


António Eduardo Lico


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Uma poesia de Raquel Nobre Guerra:


BÍLIS NEGRA

aqui morro muitos anos convosco
estremecendo à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
solene
peçam-se óculos para ver melhor, peçam-se janelas
para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo, não tenho nada
preparado, tenho um telegrama visual e chamo
alto e chego para provar que este mote é só um meio
de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz como um animal deslumbrado
que atravessou
Reponho duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:


Cantiga de Verão


Inocente é o Verão.
Que de verde ondula searas.
E habita, pleno, as rosas breves.


Calor

Era o calor, esse abismo.
Que te mordia as veias.
Era o Verão que te anunciava.

António Eduardo Lico

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Uma poesia do grande poeta António Ramos Rosa, falecido recentemente e cujo funeral se realizou hoje.
António Ramos Rosa é um dos poetas que mais admiro.

Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo



Após férias e outros afazeres de natureza pessoal, vou retomar aos poucos a minha actividade no blog.
Retomo o fio da meada, repondo duas poesias do poemário Esta brevidade das palavras:


Cantilena do vinho e da rosa


O vinho é como a rosa.
Rubro é o seu perfume.
Secreta é a sua flor.


Pequena música

Era apenas melodia.
Apenas voo de pássaro.
Era apenas o meio-dia.

António Eduardo Lico