terça-feira, 11 de março de 2014

Uma poesia de Cesário Verde:

De Tarde

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

In the silence there is a rose

Sometimes, when your eyes find my eyes
your enigmatic silence
is as if you were asking me – what is a rose?
I close my eyes and seal my lips
and the rose is between our silence.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta cabo-verdeano Jorge Barbosa:

POEMA DO MAR

O drama do Mar,
O desassossego domar,
                   sempre
                   sempre
                   dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!

O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...

O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
         e ter que ficar!

domingo, 9 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Que este olhar não me vê

Oculto-me na multidão
e vejo-me passar ao longe.
Fito-me como se fosse estranho.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Herberto Hélder:



Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas



LEVANTO as mãos e o vento levanta-se nelas.

Rosas ascendem do coração trançado

das madeiras.

As caudas dos pavões como uma obra astronómica.

E o quarto alagado pelos espelhos

dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.

Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.

E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento

contra o terror que o arrebata. Os olhos contra

as artes do fogo.

Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.

sábado, 8 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O Canto em mim:

Poema para qualquer mulher

A vida desenhou-te
eterna efeméride no rosto,
ocultou nos teus olhos o feitiço da lua
e deu aos teus lábios
o sabor de todos os frutos

António Eduardo Lico

Uma poesia de Rosângela Darwich:

Histórias Mortas

Depois de mortas todas as histórias,
os segundos seguiram-se em suicídio.
Palavras contrapostas ao eterno
fecharam-se em círculos.
Os deuses foram expulsos em segredo
do céu desfeito em paraíso.
Havia sido o riso, havia sido o medo,
a glória, havia sido.
Asas do nada, a memória
deste corpo vazio como o espírito.
Asas do nada, a memória
concorda, enfim, comigo.