segunda-feira, 24 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Este rio que descubro em mim

Este rio que descubro em mim
não sei em que fontes nasceu.
É de melancolia a frescura
desta água, e deste rio
que me mata a sede
e põe navios no teu riso.
Será de espanto esta torrente
que me enche e me esvazia
e não sei em que fontes nasceu
este rio que descubro em mim.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa galega Maria do Cebreiro


SE NON CRUZAS A RÍA...

Se non cruzas a ría, nunca terás nin néboa nin presencia
no abismo do meu trono. Esa é, nin máis nin menos,
a primeira das ordes que lle dei
para probar o seu atrevemento.
Al cruzar la barca le dije al barquero: las niñas bonitas
no llevan dinero, por iso me convidas con frecuencia
e pouso na túa lingua unha moeda vella de metal
ou unha nova só de chocolate.
E cruzamos os ríos da memoria,
e como lexionarios a punto da conquista,
chamados polos nomes desde a beira contraria
seremos inmortais, confundiremos
a seiva e a saliva de los árboles, das árbores que somos.
Ou como combatentes dispostos a morrer
na defensa dos símbolos
pasaremos o mar pola peneira na procura das onzas,
esfarelando o trigo, vendo o gran nos teus ollos
e o cereal nos meus, sen expurgar.
Porque hai sempre un residuo de vida que lembramos:
a vida coincidente. Velocidades houbo da outra banda
que o impulso dos motores dificulta
e estas gotas de chuvia levan incorporado
o esquenzo, disolvente das ánimas,
das bágoas anteriores que utilizo para inundar a pluma
e escribir ao dictado dos meus deuses
que os barqueiros non morren
sen dar antes razón da súa existencia.

Sempre a tristeza soubo defenderme do mar.

domingo, 23 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Leva-me o vento...

Leva-me o vento, brandamente,
como se empurrasse as velas
de um veleiro.
Deixo-me levar, porque quero,
a geografia não me interessa,
nem os mapas do meu ser
se podem cartografar.
Leva-me o vento, brandamente,
e nada faço, a não ser deixar-me levar.
Nada sei da rosa dos ventos,
sei apenas das rosas, essas,
a que o vento acaricia brandamente.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta guatemalteco Otto René Castillo:

Nuestra voz

Para que los pasos no me lloren,
canto.
Para tu rostro fronterizo del alma
que me ha nacido entre las manos:
canto.
Para decir que me has crecido clara
en los huesos amargos de la voz:
canto.
Para que nadie diga: tierra mía!,
con toda la decisión de la nostalgia:
canto.
Por lo que no debe morir, tu pueblo:
canto.
Me lanzo a caminar sobre mi voz para decirte:
tu, interrogación de frutas y mariposas silvestres,
no perderás el paso en los andamios de mi grito,
porque hay un maya alfarero en su corazón,
que bajo el mar, adentro de la estrella,
humeando en las raíces, palpitando mundo,
enreda tu nombre en mis palabras.
Canto tu nombre, alegre como un violín de surcos,
porque viene al encuentro de mi dolor humano.
Me busca del abrazo del mar hasta el abrazo del viento
para ordenarme que no tolere el crepúsculo en mi boca.
Me acompaña emocionado el sacrificio de ser hombre,
para que nunca baje al lugar donde nació la traición
del vil que ato su corazón a la tiniebla inegándote!

sábado, 22 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Este chão que piso

Este chão que piso, sustenta-me
e é a minha pequena pátria.
Este chão que piso
é onde os meus pés pisam.
Movo-me com cuidado
e quando me ausento
deste chão que piso, tenho saudades.
Regresso onde os meus pés pisam
e sei que estou na minha pequena pátria.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Fernando Echevarria:

Vinham Rosas na Bruma Florescidas

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
em bruma a brisa em que se aviva a rosa.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:


O gato é um tigre melancólico

Um gato é um tigre melancólico.
Contenta-se em ser apenas gato,
com artifícios no olhar
e filosofia no corpo lânguido.
Caminhando vagarosamente
na beira do telhado, entre
chão e nuvens, quase rente ao voo,
é apenas um gato.
Nós é que gostamos de o imaginar
como se fora um tigre melancólico.

António Eduardo Lico