sexta-feira, 28 de março de 2014

Uma poesia da poetisa colombiana Eva del Pilar Duran:

en esta ciudad construiré mi casa
la vestiré de madera virgen y yerba fresca
crecerá al conjuro de la lluvia
refugiará proyectos tontos
actos criminales
sueños primigenios
los miedos de mi niña
y el espectro de Pilar (mi joven abuela)
sonriendo enamorada en la estancia luminosa
(28 años de ser pequeña y coqueta,
43 buscando salidas (o entradas)
en los corredores de la muerte
cayendo cada vez más hacia abajo
cada vez más hacia adentro]
la cabeza disecada
de un torero exitoso
será el orgullo
de mi sala de trofeos

En cuanto a tí
Te coseré el cuerpo a pedazos
De musgo, de amor
Y tizón ardiente
Te llamaré Fernando
Y serás mi hijo

Mi casa
tan profunda
como los aullidos del holocausto
tan suave como una caricia
sobre la tumba de mamá

quinta-feira, 27 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Epur si muove

 Gira, de amor se colhem frutos,
a roda que os Fados movem,
dignos dos mais olímpicos deuses;
vão-se os frutos com a roda
e os Fados são quem vencem.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa cubana Odalys Leyva Rosabal:

A VECES MUDA

Estoy aquí tal vez un poco muda
indiscutible sí pero desnuda
(golondrina que nunca jamás vuele)
A veces soy la piedra y no me duele
del mundo cómo oscilan sus perfiles
Y soy la dama ciega sin alfiles
(Artemisa  Penélope  Cleopatra)
Nadie grite no soy quien idolatra
el símbolo ilusorio que nos dicta
un negligente azar
                       Soy la convicta.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Soneto sem Musa 


Eram claros esses teus olhos cheios
De onde manam luzes como fontes
Como alegria vinda dos montes
Que forma frescos e mansos ribeiros

Dos meus olhos sempre foram alheios
De presos em distantes horizontes,
Juízes não eleitos, mas arcontes.
Como rosas brincando de luzeiros

Musa não eras, mesmo que te cante
E os teus olhos tinham doces rosas
Como se a luz fora diamante

Rosas tinham, eu sei, mas angulosas.
Claras, e de perfume tão distante,
Frescas fontes, águas tão amargosas.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Sidónio Muralha:

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

terça-feira, 25 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei...
(Manuel Bandeira)

Vou-me embora para Lisboa

 Vou-me embora para Lisboa.
Lisboa é filha do Tejo
e eu sou filho das ondas,
filho das ondas do mar,
filho do sopro do vento.
Vou-me embora para Lisboa.
Lisboa tende para o azul,
o Tejo e o mar encontram-se
percorrendo Lisboa;
o Tejo com vontade
de partir para longe,
o mar com vontade
de visitar os segredos de Ulisses.
Vou-me embora para Lisboa.
Lá tem uma viela
onde o azul é mais azul
e posso ter todas as princesas mouras
que eu quiser, e ouvir o canto
dolente das guitarras.
Vou-me embora para Lisboa.
Vou ver-te olhar o cais
vou ver o Tejo afogar-se,
azul, no mar todo.

António Eduardo Lico
Uma poesia de José Saramago:


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, 

manhãs e madrugadas em que não precisamos de 
morrer. 
Então sabemos tudo do que foi e será. 
O mundo aparece explicado definitivamente e entra 
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as 
palavras que a significam. 
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas 
mãos. 
Com doçura. 
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a 
vontade e os limites. 
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o 
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do 
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos 
ossos dela. 
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres 
como a água, a pedra e a raiz. 
Cada um de nós é por enquanto a vida. 
Isso nos baste.