sábado, 26 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Havia um crítico...

Havia um crítico que gostava de criticar poesia.
Digo analisar. E analisava!
Analisava em jeito de caixa de petri,
Dizem-me alguns que era mais tubo de ensaio.
Não sei se era um senhor alto, ou baixo,
se usava chapéu e se fazia ginástica.
Se a fazia, não a devia fazer
os críticos nunca fazem ginástica,
com excepção dos críticos que a fazem,
poderia dizer um filósofo
que subitamente virasse lógico.
Perante o poema, sim, faz ginástica:
Fala de Lyotard, sim esse mesmo
que foi promovido a fenomenologista;
vejam bem, ele falava de fenomenologia,
e nem sei como não o promoveram
à incarnação gaulesa de Kant:
assim, uma espécie de Kant
perdido nos canteiros de Versalhes
e nas alamedas das universidades
olhando para as pernas das jovens estudantes.
Por sorte (a de Kant), Kant há muito morreu,
ainda seria olhado como pós-moderno.
Estou a ver: Kant, esse prolegómeno pós-moderno!
Depois desse Lyotard é que chegam os exercícios pesados:
Chega Sein unt Zeit, chega Heidegger.
Pois ele não dizia que era herdeiro
legítimo da tradição metafísica europeia,
e que estava solidamente escorado no niilismo,
e até falava de ontologia
e do esquecimento do ser como centro de interrogação
e que a linguagem é a casa do ser?
Se for caso disso, remata o exercício com Baudrillard,
de caminho vai dizendo que Platão e Aristóteles eram gregos...
Eu nunca escrevi um poema que fosse assim:
As rosas ao meio dia são mais antigas
que as rosas às onze horas

Eu sei que nunca escrevi, mas poderia ter escrito
Não escrevi, porque não sou dado a exercícios.
Se escrevesse, iriam trazer Lyotard, para falar
Da pós-modernidade moderna sem modernistas,
de como a democracia tanto deve
ao professor nazi de filosofia
Martin Heidegger de seu nome, substituto de Husserl
iriam trazer esse Baudrillard, ou outros.
Melhor era usarem um manual de jardinagem
um dos bons, que os há.
Os manuais de jardinagem sabem falar de rosas.
Os poetas, como não sabem falar de rosas
falam das rosas que irão um dia existir,
se existirem!

António Eduardo Lico



Uma poesia do poeta chileno Carlos Trujillo:

A la mesa en la noche

La mesa ofrece su circular cubierta a mis papeles
Se fueron el pan y el café
La leche y el azúcar
Las manos de mis hijos partieron a dormir
Ahora mis papeles repletan esta mesa
La noche se hace enorme
Me llama a su regazo
Me voy entre palabras hilvanadas a medias
Mis hojas de papel reposan desganadas
Un sorbo delicioso de mi vaso de vidrio
Alivia la garganta de la noche sedienta
Todo se vuelve sed
Sueño y silencio
La palabra respira en la hoja de papel
Yo me sueño escribiendo
Dibujando palabras
Y el poema me inventa y me dice que existo
Más allá de esta página

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

The dance of the Death is clumsy…and gracious

 The Death knows to dance,
dances from birth till the final compass.
Clumsy and gracious she wanders
inside your veins and gazing
into your eyes as if wanted to kiss you.
One day, that dark Lady
shall return from your bones
and invite you for a last tango.
Smile and accept.
You are dancing for the eternity.

António Eduardo Lico
25 de Abril Sempre!

Uma poesia de Sophia de Mello Breyner:

25 de AbrilEsta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Em Maio houve Maiakovski


Em Maio veio Maiakovski, o futurista
trazer as flores que Maio não tinha
e versos que soavam como bigornas.
Se calhar pensam que foste jansenista,
ou modernista, sem ser moderno.
Como tu gostavas de quadrados!
Há quem te pense até um geómetra
e veja nos teus poemas
o despontar de um novo Pitágoras -
de cada adjectivo fazias uma hipotenusa
davas formas poligonais aos advérbios
até fizeste triângulos com interjeições...
e da sintaxe fizeste um soviete, o supremo.
Dizem-me que mesmo um soviete
por supremo que seja não é geometria.
Não terá ao menos uma linha recta?
Era Abril, e já pressentias o futuro Maio
tu que eras um futurista condicional
e desenhaste em Abril
todas as flores que devem enfeitar os Maios.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta salvadorenho Ricardo Bogrand:

Canto final a la ciudad

 Ciudad de vagas sombras coloniales,
Te siento en cada vuelco de mi nueva esperanza.

Estás en el más simple de mis actos,
En mi nativo sueño,
En mi constante fuego desatado.

Amo tus ventanales ojerosos, tu dura luz,
Tu rara geometría,
Tu abanico de sombras,
Tu silueta de alfombra musulmana.

He recorrido todos tus matices,
Tu definida historia, tu modesto atavío,
Tus reliquias.
He ido a cada paso de tu anhelo
Y viajas en mi sangre, inseparable.
Yo te encuentro en mis manos, San Miguel,
Y te muestro desnudo frente a cada latido
 De los pueblos.

Eres noble y leal con tu silencio,
Con tu eterna mañana.
Eres noble y leal con tu gran pueblo,
Donde el hombre es palabra no apagada.

Ciudad del nuevo grito, ciudad-jardín,
Geranio indescifrable.

Ciudad de altiva voz,
Pájaro alerta.

Ciudad de alero inmenso, 
Hospitalario suelo de agua quieta.

Legendaria ciudad, siembra morena, 
Te ofrezco esta canción desde mi roja sangre: 
Mañana un nuevo trigo habrá en tus mesa. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Marinheiros de Lisboa (nas Descobertas)

Eram apenas carne e ossos obscuros
os anónimos marinheiros de Lisboa.
Foram gente famosa, homens de aventura
e ninguém os conhecia, ou veio a conhecer.
Navegavam como se o Tejo nunca acabasse,
carregavam todas as gaivotas, como se
de guitarras se tratasse, e cantavam...

António Eduardo Lico