sexta-feira, 9 de maio de 2014

Uma poesia de Eugénio de Andrade:

No brilho redondo

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Esfinge

 Esfinge que dormes na areia,
és nua na pedra em que estás prisioneira.
Esfinge que fitas para dentro de ti,
que palavras não dizes?
Que silêncio pinta os teus lábios
de deusa de pedra?
Que todos procuram
as palavras que não dizes.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta cubano Isbel Diaz Torres:


TOCAR

Yo que nunca aprendí a tocar guitarra,
y tenía las uñas largas, de gran concertista,
de trasvesti en resaca tremolante,
uñas largas para el Aria de Bach
sonando como un nintendo desafinado,
como una mezzo en su última presentación,
Yo, que nunca aprendí a tocar guitarra,
y hacía vibratos con el tubo del ómnibus,
como si la guitarra fuera en realidad un cello,
un clítoris que lograba potenciales de accción bajo mis yemas,
el timbre de la puerta que suena en el espamo imprevisto.

Yo nunca aprendí.

Yo cargaba con mi instrumento
como quien tiende una playa ante los otros,
y los invita a sentarse, a tomarse un jugo de mango,
los invita
a escuchar a Mozart, o Haydn, o teleman...
pero no había música más que en mi impúber mosquitero,
en las gasas por donde me escapaba.

Caminaba por 250, doblaba en 27, y
el tema entraba en las cuerdas graves,
como al final de Aranjuez (segundo movimiento, el que se sabe la gente...)
el tema entraba, bien marcado, bien lento,
y yo me preguntaba si serían blancas,
o un ritardando,
o una metástasis que ahoga al guitarrista que nunca seré.

Yo, que nunca aprendí,
miraba la música como quien mira un animal triste,
de ojos redondos,
un animal sin barcos, sin alfiles listos, sin luz;
y por entre sus toldos veía un vapor, su ascenso lunático
que me perdonaba la envidia,
me perdonaba mi ausencia de los tálamos fundadores,
mi ausencia de la audacia y las escalas cromáticas,
de Darius Milhaud, y Mozart, y de mi propio jugo de mango...
mi ausencia de la esquina de Aranjuez y de los premios,
yo, que nunca logré afinar la prima,
que nunca aprendí a tocar guitarra.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

A Imagem da palavra

 Como pássaro que parte quando
os frios chegam, e o Inverno acorda
do solsticial e longínquo sono,
a imagem da palavra, esse logos
sem geografia e sem gramática
ilumina a sua própria luz.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta espanhol Martín Lucia:

Se llamará

Se llamaba Manuela.
O Jimena. O Leonor.
Como ella quisiera,
pues era cada palabra
y, a la vez, cada letra.
Hubo días que la llamé caricia.
Otros, susurro.
De noche la llamé vida.
De día, a veces, ni la nombré.
Pero vino. Siempre vino.
También la he llamado silencio.
Recuerdo cuando la llamé dormida.
Recuerdo...
La llamé días que quedan.
Hoy la llamo melancolía.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Bem Aventuranças

Bem aventurados os bancos
que ficam com o nosso dinheiro
e nós ficamos com as dívidas.
Bem aventurada Merkel
que dela será o reino de Bismarck.
Bem aventurado Cameron
que dele será o reino das
couves de Bruxelas.
Bem aventurado Obama
que dele serão mais de um milhão
de mortos das suas guerras imperiais.
Bem aventurado Hollande
com os seus homosexuais na Nôtre Dame
e bombas no Mali..
Bem aventurada Nato
que dela serão os anjos metálicos
por sobre o céu da Líbia.
Bem aventurados todos os
bem aventurados e os
não bem aventurados
que esperam nuvens plácidas
e açucenas de carvão
nos cabelos das mulheres.
Os robots voadores de Obama
são bem aventurados
porque matam sem saber
e fazem excrecências nos céus
logo abaixo dos deuses
como se tangessem
as liras da Roma Imperial.
Bem aventuradas as televisões
do Império e os jornais
do Império e as rádios
do Império e os blogs do Império
que deles é o reino da mentira.
Os economistas do Império
são bem aventurados
porque transformam a miséria
do mundo em dinheiro
no bolso dos seus amos.
Bem aventurados os que
morrem de fome que deles
não se farão epitáfios
e os seus ventres inchados
voarão como balões loucos
nas festas de caridade.
Mal aventurado o poeta
que ergue lírios como
se fossem sinos a tocar a rebate
que dele só serão as noites futuras.
Bem aventuradas as bem aventuranças
que delas só serão a argila
ou o pó que dela ficar.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa mexicana Karina Falcón:

Es el vaho de sentirme pequeña, de
No encontrar pertenencia o aforo en
El Olimpo; no mío el Edén y en mí
Perdido. Por el Anhelo:
Por la audacia de la serpiente.

Es la gracia de verme imperceptible,
Sentir las pequeñas implosiones y mis
Diminutas extremidades. Los delgados
Dedos; los pies justos; la boca breve y
Toda yo reducida.

Es el tumulto de sentirme a medida; en
Medida: así desorbitada. Minúscula
Espalda que se agrieta, que perfora
En la piel hoyuelos para que el perfume
Absorba esplendor y lo reconcilie
Exiguo; lo evapore en minúsculo.

Yo serpiente en reducción minúscula.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Um Abril de Abril

 Em Abril, flores mil
Para explodirem
Com o orvalho das madrugadas
E pintarem a tristeza
Das cores que só as flores têm.
Georges, sabes, no meu país
Há tardes de Abril
Que parecem Agosto
E em Lisboa o Tejo
Esse eterno filho de Abril
Casa o seu azul baço
Com o fulgurante azul de céu
E ao longe formam
Uma só linha azul que marca Abril.
Georges, sabes, no meu país
Há flores que nascem antes do seu tempo
Como se quisessem
Vestir Abril de perfumes
E febril alegria
E as moças morenas
Cantam os hinos secretos
De todos os perfumes de Abril.
Sabes, Georges, no meu país
Abril só começa de madrugada
Como se quisesse nascer
do orvalho e tecido pelo
perfume das flores que no meu país
nascem antes do tempo.
Sabes Georges, no meu país
Abril só pode ser Abril.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa salvadorenha Beatriz Henríquez:

Un preservativo tan inmenso donde caben
Mis hijos acumulados
Un aceite sexual que revela mis orígenes
En la cabecera.

No sé de playas, banderas, filantropías,
Pero si de piedras secretas ocultas bajo la mano
Ni de republicanos, verbos o mecánica
Solo del hombre con sus temibles manos de piedra.

domingo, 4 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

PPC, ou a balada de todos os bancários a que muitos chamam políticos

PPC, seja, Pedro Passos Coelho
não usa chapéu de feltro
nem conhece a estética do canto dos
canários e não distingue
um checo de um eslovaco.
Usa um pequeno rectângulo
na lapela: via-se numa foto de jornal.
Olhando com atenção, lá está:
é a bandeira de Portugal.
De uma só vez e num gesto
a la Georges Bush, PPC pendura o País.
PPC não sabe onde fica
o Forte de S.João Baptista de Ajudá
e pensa que Porto Seguro fica
onde fica o dito Partido Socialista.
PPC é bancário; bancário de um só sentido:
só recebe, e quer receber mais, e não pagar.
PPC aderiu a uma moda antiga:
políticos são todos bancários.
Trabalham para os banqueiros,
nem que tenham que usar na lapela,
bandeiras e fingirem que são inteligentes, diligentes
e piedosos. Não desisto de ver PPC
fazer versos ao padre Américo
e fazer lobbying pela santidade de Cavaco Silva,
também ele um devotado bancário.
PPC é contabilisticamente ininputável
e faz balancetes com talões do BPN nas horas de ócio.
PPC, oficia o seu múnus como um Cardeal clandestino
saído, não de refinados salões florentinos,
ordenado como foi na jsd, e com o secreto
sonho de ser canonizado pela troika
e venerado para todo o sempre
nos santuários que vão de Bruxelas a Berlim e a Washington.

António Eduardo Lico
Uma poeisa da poetisa mexicana Marcela Sois-Quiroga:

Poema de una isla imaginaria

Si existieran las sirenas
el mar no sería
ni dulce ni salado,
el aire cantaría rumbas,
bruma de rocío,
agua de lluvia
sobre las piedras.

Si existieran las sirenas
sus cabellos danzarían
en mis ojos,
acariciarían las ostras
que besan corales negros.

Si sus cabellos fueran
rizados o negros,
rubios o rojos,
les pediría su brillo
para iluminar la calva
de mi olvido.

Si su pecho fuera cálido
tendría perlas,
sólo perlas,
dulzuras de coco
en la espuma.

Si existieran las sirenas
su aroma secaría mis lamentos,
los años empolvados
de la lumbre en viento.

Si mis años fueran agua
la inmortalidad de su viaje
aseguraría que mis escamas
no sintieran el frío
de las olas congeladas.

Mas… ni el tiempo
ni mis sueños son agua,
tan sólo son el viento
de una marea,
sirena de tierra,
humedad entre ramas.

sábado, 3 de maio de 2014





Do blog Princesa poliédrica recebi este prémio. O que muito agradeço.
Seguindo as normas, respondo à pergunta formulada é que é:

Que es lo que te enamoró de la persona que quieres?

Resposta - Olhos e perfume.













































Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Reflexão útil num dia de chuva

Eu gosto de tudo o que faço.
O que não faço, não
é aquilo que faço.
Pura Tautolgia! Dir-me-ão:
antes tautólogo
que tarólogo.
Podia ter dito tautologista;
podia ter dito tarologista.
Apenas não quis ficar sem o logos.
Não sou esteta, nem mesmo
obstetra.Poderá haver quem me pense um tetraedo:
não sou e da Geometria
apenas me interessa
a primeira letra.
A chuva cai, líquida
como convém a toda a chuva
e depois pára, sem reflectir.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa mexicana Ana Kupfer Asse:

El reflejo de la letra
                                      A mi mamá


Frente a frente se halló el poeta
 reflejado en su pergamino.
Anunció su vacío,
encontró pura nostalgia.
Gritó, pero nadie lo escuchó.
El escritor se encerró en su poema,
llegó a su memoria todo lo que le faltaba
y miró hacia atrás,
derramando versos
en una gaviota.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Pior que roubar um banco é fundar um banco

Bertold Brecht

Poema concreto


Escrevo poemas que quisera
efémeros, como o vento
que beija as flores
e levanta ondas ao mar
para logo se desfazem na areia da praia,
como se o mar todo se acabasse naquele momento.

O vento quando beija as flores
não é como um cheque, ou uma letra:
quando se acabam, os bancos emitem mais.
Mesmo que se lhes acabe o dinheiro,
emitem mais. Porque eu não posso
emitir o meu dinheiro quando se me acaba?
Quando se me acabam as flores, procuro por mais.
O vento quando beija as flores, beija-as
como se nunca acabasse, e se acabasse
o saldo não seria negativo.

Até o Olimpo e os belos deuses gregos
se acabaram; ninguém se importou
em emitir mais; depois vieram profetas
que emitiram deuses e paraísos diferentes

Os bancos e os banqueiros
emitem dinheiro como se
emitissem paraísos e divindades.
Houvera quem os roubasse
como o vento rouba das flores
os perfumes.

António Eduardo Lico

Uma poesia da poetisa salvadorenha Corina Bruni:

Ya la Luna está cansada
de oír que la llamen “pálida”
los bardos, en sus poemas.
Por eso esta noche cálida
se ha asomado sonrosada
por el humo de las “quemas”.

Y, sin pena ni dolor,
el Sol se fumó los montes,
y alistó su bastidor
para bordar horizontes.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

A cal que não fosse ávida de água...

Nunca escrevi versos em que usasse a palavra cal.
Eu sei que nunca tive razões para o fazer,
mas nunca fiz, e assim o digo.
Reconheço que já usei a palavra óxido,
não muitas vezes, mas usei, noblesse oblige.
Usei, já o disse, não para oxidar o poema,
ou provocar outras reacções,
não que eu seja dado ao estudo da química
mas dizem-me que pode haver reacções...
A cal, ao que dizem, é ávida de água
E eu só quero a cal que não é ávida
de água, seja água, água, ou oxigenada;
não digam que estou a usar óxido
neste fazer o poema.
Não sou futurista, nem me corre
nas veias o mais leve ânimo post-moderno,
por isso usei óxido com moderação
e ainda espero a cal que não seja ávida de água.

António Eduardo Lico
Uma poesia de José Afonso:

Maio Maduro maio
Maio maduro Maio, quem te pintou
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou

Raiava o sol já no Sul, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
E uma falua vinha lá de Istambul

Sempre depois da sesta chamando as flores
Era o dia da festa Maio de amores
Era o dia de cantar, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
E uma falua andava ao longe a varar

Maio com meu amigo quem dera já
Sempre no mês do trigo se cantará
Qu'importa a fúria do mar, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
Que a voz não te esmoreça vamos lutar

Numa rua comprida El-rei pastor
Vende o soro da vida que mata a dor
Anda ver, Maio nasceu, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
Que a voz não te esmoreça a turba rompeu

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Cur non mitto meos tibi, Pontiliane, libellos ?
Ne mihi mittas, Pontiliane, tuos.

(Marcial, Epigr., VII, 3)

O binómio de Newton não é belo
é apenas um binómio:

é uma expressão que permite
calcular o desenvolvimento
de (a+b)n, sendo a+b um binómio
e n um número

Se ao menos n não fosse um número...
mas é! Dizem que é até um número natural

Os números podem até ser naturais
e pode ser reclamada a propriedade dos binómios;
continuarão a ser apenas expressões
de algo que não sabemos sequer se sabemos

Alexandre tinha inveja de Aquiles
que foi cantado por Homero.
Não teria inveja daquele binómio, o de Newton;
ao que sabemos, Newton não cantava

E mesmo que cantasse!

Já tinha estragado tudo
fazendo um binómio

Binómios não se fazem;
sabe-se que se podem fazer.
mas não se fazem!

Goethe preferia a injustiça à desordem
Newton preferia os binómios
o que será pior?

O binómio de Newton não é belo;
se não fosse de Newton, nem binómio
seria belo

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa cubana Dulce Maria Loynaz:

LA ORACIÓN DE LA ROSA

Padre nuestro que estás en la tierra; en la fuerce
y hermosa tierra;
en la tierra buena;
Santificado sea el nombre tuyo
que nadie sabe; que en ninguna forma
se atrevió a pronunciar este silencio
pequeño y delicado..., este
silencio que en el mundo
somos nosotras,
las rosas...
Venga también a nos, las pequeñitas
y dulces flores de la tierra,
el tu Reino prometido...,
Hágase en nos tu voluntad, aunque ella
sea que nuestra vida sólo dure
lo que dura una tarde...
El sol nuestro de cada día, dánoslo
para el único día nuestro...
Perdona nuestras deudas
-la de la espina,
la del perfume cada vez mas débil,
la de la miel que no alcanzó
para la sed de dos abejas...-,
así como nosotras perdonamos
a nuestros deudores los hombres,
que nos cortan, nos venden y nos llevan
a sus mentiras fúnebres,
a sus torpes o insulsas fiestas...
No nos dejes caer
nunca en la tentación de desear
la palabra vacía - ¡el cascabel
de las palabras!...-,
ni el moverse de pies
apresurados,
ni el corazón oscuro de
los animales que se pudre...
Mas líbranos de todo mal.
Amen.