sábado, 10 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Prometeu

 Oh insigne Prometeu, da raça de deuses antigos destronados
que sendo deus, não tinha o fogo, apenas o Princípio.
Zeus deu-te um tangível fígado, Homero deu-te qualidades.
Zeus, depressa esgotou a imaginação,
deuses de segunda geração, são assim!
Enviar-te uma águia para te devorar o fígado
e depois espalhar a tua divindade pelo Peleponeso.
Queria-te eternamente póstumo, matando-te todos os dias,
que são assim os deuses de segunda geração;
Héracles te libertou; divino como eras
regressaste ao Princípio.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Hélia Correia:

POEMA

Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há – apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
secamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado. A luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Da morte o mistério...

Oh morte! Que habitas duas vezes
O corpo sombrio de Hermes.
Regressa e vive uma vez!

António Eduardo Lico
Uma poesia de Eugénio de Andrade:

No brilho redondo

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Esfinge

 Esfinge que dormes na areia,
és nua na pedra em que estás prisioneira.
Esfinge que fitas para dentro de ti,
que palavras não dizes?
Que silêncio pinta os teus lábios
de deusa de pedra?
Que todos procuram
as palavras que não dizes.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta cubano Isbel Diaz Torres:


TOCAR

Yo que nunca aprendí a tocar guitarra,
y tenía las uñas largas, de gran concertista,
de trasvesti en resaca tremolante,
uñas largas para el Aria de Bach
sonando como un nintendo desafinado,
como una mezzo en su última presentación,
Yo, que nunca aprendí a tocar guitarra,
y hacía vibratos con el tubo del ómnibus,
como si la guitarra fuera en realidad un cello,
un clítoris que lograba potenciales de accción bajo mis yemas,
el timbre de la puerta que suena en el espamo imprevisto.

Yo nunca aprendí.

Yo cargaba con mi instrumento
como quien tiende una playa ante los otros,
y los invita a sentarse, a tomarse un jugo de mango,
los invita
a escuchar a Mozart, o Haydn, o teleman...
pero no había música más que en mi impúber mosquitero,
en las gasas por donde me escapaba.

Caminaba por 250, doblaba en 27, y
el tema entraba en las cuerdas graves,
como al final de Aranjuez (segundo movimiento, el que se sabe la gente...)
el tema entraba, bien marcado, bien lento,
y yo me preguntaba si serían blancas,
o un ritardando,
o una metástasis que ahoga al guitarrista que nunca seré.

Yo, que nunca aprendí,
miraba la música como quien mira un animal triste,
de ojos redondos,
un animal sin barcos, sin alfiles listos, sin luz;
y por entre sus toldos veía un vapor, su ascenso lunático
que me perdonaba la envidia,
me perdonaba mi ausencia de los tálamos fundadores,
mi ausencia de la audacia y las escalas cromáticas,
de Darius Milhaud, y Mozart, y de mi propio jugo de mango...
mi ausencia de la esquina de Aranjuez y de los premios,
yo, que nunca logré afinar la prima,
que nunca aprendí a tocar guitarra.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

A Imagem da palavra

 Como pássaro que parte quando
os frios chegam, e o Inverno acorda
do solsticial e longínquo sono,
a imagem da palavra, esse logos
sem geografia e sem gramática
ilumina a sua própria luz.

António Eduardo Lico