quarta-feira, 28 de maio de 2014

Uma poesia de Rainer Maria Rilke (tradução de Maria João Costa Pereira):

O Solitário

Como alguém que por mares desconhecidos viajou, 
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria; 
os dias cheios estão sobre as suas mesas 
mas para mim a distância é puro sonho. 

Penetra profundamente no meu rosto um mundo, 
tão desabitado talvez como uma lua; 
mas eles não deixam um único pensamento só, 
e todas as suas palavras são habitadas. 

As coisas que de longe trouxe comigo 
parecem muito raras, comparadas com as suas —: 
na sua vasta pátria são feras, 
aqui sustém a respiração, por vergonha.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

A tocadora de harpa

 Tocavas harpa com desoladas mãos
e plateias quentes aplaudiam
os gestos serenos dos teus dedos.

No final, agradecias
e arrumavas as mãos e os dedos.
Abandonada, a harpa jazia no palco.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Jorge de Sena:

Deixai que a vida sobre vós repouse

Deixai que a vida sobre vós repouse 
qual como só de vós é consentida 
enquanto em vós o que não sois não ouse 

erguê-la ao nada a que regressa a vida. 
Que única seja, e uma vez mais aquela 
que nunca veio e nunca foi perdida. 

Deixai-a ser a que se não revela 
senão no ardor de não supor iguais 
seus olhos de pensá-la outra mais bela. 

Deixai-a ser a que não volta mais, 
a ansiosa, inadiável, insegura, 
a que se esquece dos sinais fatais, 

a que é do tempo a ideada formosura, 
a que se encontra se se não procura.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Memórias no vento

 Do vento há memórias
que sibilam nas relvas
e ondulam a espuma das ondas
como se fizessem flores líquidas.

Do vento há memórias
que se esquecem, ruídos de verde
músicas nunca tocadas
e essa melancolia que se vai com a tarde.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta chileno Omar Lara:

ELOGIO DE LA POESÍA

Como eres todo
 Y eres nada

Como no existes
 Y me vives

Como me pares
 Y me mueres

Como eres nube
 Y eres sima

Como me enciendes
 Y me apagas

Como me arrasas
 Y vacías

Como me nombras
 Y apalabras

domingo, 25 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

A fogo, um pássaro...

Há um pássaro por dentro do fogo.
Prometeu, esse anjo caído é que sabia
que quem voa, não é o pássaro
mas a chama, esse fogo que tem as asas.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa cubana Odette Alonso Yodú:

Carnaval de invierno

La tumba se coló por la puerta trasera
por la hendija bien tapiada
por el postigo azul
y tú que por siglos odiaste el carnaval
tú que gritaste solavaya fuera fuera
estás marcando el paso en la comparsa
tu orgullo diluido en la carne del tambor
en el fragor de la corneta china.
Arrollando van los negros
y los blancos
y tú.
No hay disfraz ni careta en esa ola
fuera fuera solavaya gritan todos
y alzan las manos
rehiletes que ya nada detendrá.
Tú que por siglos odiaste el carnaval
olvidas la decencia y las santas prohibiciones
olvidas a tus hijos y a tu mujer adusta
juramentos vacíos
máscara infértil de la fertilidad.
Tú sin resuello golpeas el tambor
gozando la cintura de la negra
y de la blanca
descoyuntando la cintura tú
bajo el tremor de la corneta china.