Uma poesia de Rainer Maria Rilke (tradução de Maria João Costa Pereira):
O Solitário
Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.
Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.
As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
Uma poesia de Jorge de Sena:
Deixai que a vida sobre vós repouse
Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse
erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.
Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.
Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,
a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
Deixai que a vida sobre vós repouse
Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse
erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.
Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.
Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,
a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:
António Eduardo Lico
Memórias no vento
Do vento há memórias
que sibilam nas relvas
e ondulam a espuma das ondas
como se fizessem flores líquidas.
Do vento há memórias
que se esquecem, ruídos de verde
músicas nunca tocadas
e essa melancolia que se vai com a tarde.António Eduardo Lico
domingo, 25 de maio de 2014
Uma poesia da poetisa cubana Odette Alonso Yodú:
Carnaval de invierno
La tumba se coló por la puerta trasera
por la hendija bien tapiada
por el postigo azul
y tú que por siglos odiaste el carnaval
tú que gritaste solavaya fuera fuera
estás marcando el paso en la comparsa
tu orgullo diluido en la carne del tambor
en el fragor de la corneta china.
Arrollando van los negros
y los blancos
y tú.
No hay disfraz ni careta en esa ola
fuera fuera solavaya gritan todos
y alzan las manos
rehiletes que ya nada detendrá.
Tú que por siglos odiaste el carnaval
olvidas la decencia y las santas prohibiciones
olvidas a tus hijos y a tu mujer adusta
juramentos vacíos
máscara infértil de la fertilidad.
Tú sin resuello golpeas el tambor
gozando la cintura de la negra
y de la blanca
descoyuntando la cintura tú
bajo el tremor de la corneta china.
Carnaval de invierno
La tumba se coló por la puerta trasera
por la hendija bien tapiada
por el postigo azul
y tú que por siglos odiaste el carnaval
tú que gritaste solavaya fuera fuera
estás marcando el paso en la comparsa
tu orgullo diluido en la carne del tambor
en el fragor de la corneta china.
Arrollando van los negros
y los blancos
y tú.
No hay disfraz ni careta en esa ola
fuera fuera solavaya gritan todos
y alzan las manos
rehiletes que ya nada detendrá.
Tú que por siglos odiaste el carnaval
olvidas la decencia y las santas prohibiciones
olvidas a tus hijos y a tu mujer adusta
juramentos vacíos
máscara infértil de la fertilidad.
Tú sin resuello golpeas el tambor
gozando la cintura de la negra
y de la blanca
descoyuntando la cintura tú
bajo el tremor de la corneta china.
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