quinta-feira, 29 de maio de 2014

Uma poesia de Afonso Lopes Vieira:

Leve, Leve, o LuarLeve, leve, o luar de neve 
goteja em perlas leitosas, 
o luar de neve e tão leve 
que ameiga o seio das rosas. 

E as gotas finas da etérea 
chuva, caindo do ar, 
matam a sede sidéria 
das coisas que embebe o luar. 

A luz, oh sol, com que alagas, 
abre feridas, e a lua 
vem pôr no lume das chagas 
o beijo da pele nua.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Gardening flowers that do not exist…

 If I was a gardening poet hermit,
even if I hadn’t a garden, just one.
A garden with a small pond and gardenias,
with gravity I would care
the flowers that do not exist

António Eduardo Lico
Uma poesia de Rainer Maria Rilke (tradução de Maria João Costa Pereira):

O Solitário

Como alguém que por mares desconhecidos viajou, 
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria; 
os dias cheios estão sobre as suas mesas 
mas para mim a distância é puro sonho. 

Penetra profundamente no meu rosto um mundo, 
tão desabitado talvez como uma lua; 
mas eles não deixam um único pensamento só, 
e todas as suas palavras são habitadas. 

As coisas que de longe trouxe comigo 
parecem muito raras, comparadas com as suas —: 
na sua vasta pátria são feras, 
aqui sustém a respiração, por vergonha.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

A tocadora de harpa

 Tocavas harpa com desoladas mãos
e plateias quentes aplaudiam
os gestos serenos dos teus dedos.

No final, agradecias
e arrumavas as mãos e os dedos.
Abandonada, a harpa jazia no palco.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Jorge de Sena:

Deixai que a vida sobre vós repouse

Deixai que a vida sobre vós repouse 
qual como só de vós é consentida 
enquanto em vós o que não sois não ouse 

erguê-la ao nada a que regressa a vida. 
Que única seja, e uma vez mais aquela 
que nunca veio e nunca foi perdida. 

Deixai-a ser a que se não revela 
senão no ardor de não supor iguais 
seus olhos de pensá-la outra mais bela. 

Deixai-a ser a que não volta mais, 
a ansiosa, inadiável, insegura, 
a que se esquece dos sinais fatais, 

a que é do tempo a ideada formosura, 
a que se encontra se se não procura.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Memórias no vento

 Do vento há memórias
que sibilam nas relvas
e ondulam a espuma das ondas
como se fizessem flores líquidas.

Do vento há memórias
que se esquecem, ruídos de verde
músicas nunca tocadas
e essa melancolia que se vai com a tarde.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta chileno Omar Lara:

ELOGIO DE LA POESÍA

Como eres todo
 Y eres nada

Como no existes
 Y me vives

Como me pares
 Y me mueres

Como eres nube
 Y eres sima

Como me enciendes
 Y me apagas

Como me arrasas
 Y vacías

Como me nombras
 Y apalabras

domingo, 25 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

A fogo, um pássaro...

Há um pássaro por dentro do fogo.
Prometeu, esse anjo caído é que sabia
que quem voa, não é o pássaro
mas a chama, esse fogo que tem as asas.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa cubana Odette Alonso Yodú:

Carnaval de invierno

La tumba se coló por la puerta trasera
por la hendija bien tapiada
por el postigo azul
y tú que por siglos odiaste el carnaval
tú que gritaste solavaya fuera fuera
estás marcando el paso en la comparsa
tu orgullo diluido en la carne del tambor
en el fragor de la corneta china.
Arrollando van los negros
y los blancos
y tú.
No hay disfraz ni careta en esa ola
fuera fuera solavaya gritan todos
y alzan las manos
rehiletes que ya nada detendrá.
Tú que por siglos odiaste el carnaval
olvidas la decencia y las santas prohibiciones
olvidas a tus hijos y a tu mujer adusta
juramentos vacíos
máscara infértil de la fertilidad.
Tú sin resuello golpeas el tambor
gozando la cintura de la negra
y de la blanca
descoyuntando la cintura tú
bajo el tremor de la corneta china.

sábado, 24 de maio de 2014

Uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Insólito divino

 Das minhas mãos nascem rosas
dos olhos luas feridas.

Ai velho Zeus, de tão carcomido
já não te nascem deusas das divinas coxas.
Reinam centopeias de enxofre nos
meandros dos teus intestinos.

Mãos e rosas, olhos e luas
já não fazem deuses.

Insólitas divindades
e ainda mais insólitos
profetas e teólogos

já gastaram todas
as rosas e luas.

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa cubana Maria Eugenia Caseiro:


Aquí lloviendo.

Estoy aquí, aquí lloviendo
acumulada de cajas de cartón
con dibujos y letreros,
jorobándome la poesía por dentro
con el techo de zinc en la cabeza
con la lengua enredada
y la canción fuera de tono,
con mis alas de papel
pegándose a esta lluvia...
y me dan en la nariz hechos un trapo
mis ancestros, que ahora son ángeles
con ojos empedrados por la catarata
condenados a la pena de estos bolsillos rotos.
Estoy aquí, aquí lloviendo
con el luto perpetuo por las cosas perdidas;
mis palomas, mis abejas, y mis playas...
abrazándome al fantasma de la lluvia
gris humante en el cojín acuchillado.
A mi espalda un maniquí con la cara tapada
hubiera evitado el llanto del borracho que me vio
hubiera evitado
que la mujer que peina la calle por las noches
buscando sobre los contenes la húmeda pisada
lanzara una moneda a la fuente donde lluevo,
pero soy monólogo de lluvia
y estoy aquí, aquí lloviendo.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

O equador do teu sorriso

 O teu sorriso cortado por um equador
imaginário como todos os equadores.
A norte um perfume que voa com os pássaros
a sul esse labirinto feito cristal

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa nicaraguense Esthela Calderón:

ASENTAMIENTOS Y LLUVIA.

En la comunión plena del agua con la tierra
una a una las hostias hechas gotas van poblando
la encarnación incesante de todas las desgracias.

La lluvia es el cataclismo de los asentamientos
es alabanza liquida del pan
que no ha de llegar a la boca,
es el sacrificio milenario
para gloria de los omnipotentes,
es la matanza entre periodistas
por inmortalizar en rojo-vino la noticia.

Cada vez que llueve
fielmente los de arriba
hacen una nueva alianza.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras  luminosas:

Salamina

 Ai Salamina, como Xerxes te chorou
perdido o seu ocidental sonho.
Queria apenas Salamina por Salamina
Ai Salamina onde navegam os teus barcos?
Ou é o azul das tuas águas que está em ruínas?

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa salvadorenha Claudia Lars:

Poeta soy

                                                                                       Para María y Mariano Coronado

Dolor del mundo entero que en mi dolor estalla,
Hambre y sed de justicia que se vuelven locura;
Ansia de un bien mayor que el esfuerzo apresura,
Voluntad que me obliga a ganar la batalla.

Sueño de toda mente que mi mente avasalla,
Miel de amor que en el pecho es río de dulzura;
Verso de toda lengua que mi verso murmura,
Miseria de la vida que mi vergüenza calla.

Poeta soy… y vengo, por Dios mismo escogida,
A soltar en el viento mi canto de belleza,
A vivir con más alto sentido de nobleza,

A buscar en la sombra la verdad escondida.
¡Y las fuerzas eternas que rigen el destino
Han de volverme polvo si equivoco el camino!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Tria Fata

 Como as três Parcas fiam o Destino
a última palavra corta o fio
e emudece como Parsifal.
Muito mais tarde, e das ruínas
pode voltar como poesia.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Anais Nin:

Risk

And then the day came,
when the risk
to remain tight
in a bud
was more painful
than the risk
it took to Blossom.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Deusa esquecida

De tão última que eras
nem chegaste a ser criada
e no entanto nasciam-te peixes dos pés
quando deixavas os rios.
E eras deusa porque não foste criada
e eras deusa porque te nasciam peixes dos pés.

António Eduardo Lico
Uma poesia de John Keats:

Bright Star

Bright star, would I were stedfast as thou art--
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors--
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Reponho uma poesia do poemário Sombras luminosas:

Diana, ou a lua como reflexo...

Tenso o arco, Diana e a absurda flecha
que fere o silêncio e a luz
De tudo o que és
apenas fica a lua negra
e essa poesia que te enfeita os cabelos.

António Eduardo Lico