domingo, 9 de setembro de 2012

Reponho duas poesias do poemário O canto em mim:


A palavra das rosas

Dai-me uma, duas palavras
com que escreva uma rosa no teu sorriso


Elegia para uma flor morta

A obscura flor morta
pensa ainda no seu perfume
quando os insectos
procuram nas suas pétalas mortas
a fragrância que a animou.

António Eduardo Lico


Algumas poesias de Omar Khayyam:

Um pouco de pão,
um pouco de água fresca,
a sombra de uma árvore
e os teus olhos!
Nenhum sultão
é mais feliz do que eu...
Nenhum mendigo
é mais triste....
.

Deixemo-nos de palavras vãs.
Levanta-te e dá-me um pouco de vinho.
Esta noite a tua boca
é a mais bela rosa do mundo
e basta para todos os meus desejos.
Dá-me vinho.
Que ele seja corado como as tuas faces,
e o meu remorso
será leve como as tuas tranças.
.

A brisa da Primavera renova as rosas
e, na sombra azul do jardim,
acaricia o rosto da minha amada.
A despeito da ventura que já gozei,
sou tão feliz hoje
que não me lembro de ontem:
esqueço o passado...
É tão imperioso o prazer deste momento...

sábado, 8 de setembro de 2012

Do poemário Que de dentro não se vê reponho esta poesia:


O vinho por sobre a rosa

Bebe o teu vinho
e como o persa longínquo
procura as rosas.
As que existem vermelhas nos lábios
e as que perfumam e dão cor ao vinho.
Colhe dos lábios a cor rubra
e do vinho o delicado perfume.
Só assim terás a tua rosa
e a tua eternidade.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Cabral do Nascimento:


Cantiga

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Reponho duas poesias do poemário O canto em mim:


Esta mensagem que me chega

Eis como tudo começa:
de Hermes recebi a mensagem
que já me estava destinada

Recebo-a com a indiferença
gelada dos que não esperam.
Os deuses já conhecem todas
as mensagens e Hermes
é apenas o velado mensageiro.


O azul do céu azul

O azul do céu é azul
quando o céu é azul.
Quando o céu não é azul
o azul do céu não é azul.
O azul do céu quando
o Céu é azul não é bom
para os filósofos;
é só azul, sem filosofias;
e de metafísica
apenas existe a vaga
noção que tenho do azul
do céu, quando é azul.

António Eduardo Lico

O poeta de hoje é Joaquin Namorado.
Nascido em 1914 e falecido em 1986, Joaquim Namorado de formação matemática, foi proíbido de ensinar no ensino oficial pelo Estado Novo, dedicou-se ao ensino particular. Depois do 25 de Abril de 1974 ingressou nos quadros de professores de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnlogia da Universidade de Coimbra.
Como poeta, Joaquin Namorado vai da estética neo-realista até afloramentos surrealistas. Conta-se até que foi Joaquim Namorado que cunhou a designação "neo-realista" para ludibriar a polícia política do Estado Novo, evitando usar a designação "realismo socialista".
Fica esta poesia:

Port Wine

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova -York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.


O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças
primeiro se afundam em terra suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.


Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.


As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.


Em Londres os lords e em Paris os snobs,
No Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.


O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! - ou morre.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Reposição de duas pequenas poesias do poemário O canto em mim:



A Esfinge de ébano

Da esfinge de ébano,
a dos doces lábios
colhi apenas
amarga flor de silêncio



Nas águas fitava-se Narciso

Solitário em si mesmo, por isso, belo
Narciso fitava-se nas águas.
E de Eco já não ouvia a última palavra,
mortalmente ferido de si próprio
era já a flor na memória
das palavras na pedra.


António Eduardo Lico