domingo, 8 de julho de 2012

O poeta de hoje é Paio Soares Taveirós.
Trovador do início do século XIII e autor da célebre Cantiga da garvaia, muito tempo considerada a primeira obra poética em galaico-português.
Fica esta cantiga:



Canção da Ribeirinha

No mundo nom me sei parelha,
mentre me for como me vai,
ca ja moiro por vós e ai!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia.
Mao dia que me levantei
que vos enton nom vi fea!


E, mia senhor, des aquelha
me foi a mi mui mal di'ai!
E vós, filha de dom Paai
Moniz, e bem vos semelha
d'aver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós ouve nem ei
valia d'ua correa

sábado, 7 de julho de 2012

Escrevi hoje esta poesia, a ser integrada no poemário Este rio que corre sem águas:


Reflexão útil num dia de chuva


Eu gosto de tudo o que faço.
O que não faço, não
é aquilo que faço.
Pura Tautolgia! Dir-me-ão:
antes tautólogo
que tarólogo.
Podia ter dito tautologista;
podia ter dito tarologista.
Apenas não quis ficar sem o logos.
Não sou esteta, nem mesmo
obstetra.Poderá haver quem me pense um tetraedo:
não sou e da Geometria
apenas me interessa
a primeira letra.
A chuva cai, líquida
como convém a toda a chuva
e depois pára, sem reflectir.


António Eduardo Lico
O poeta de hoje é Antero de Quental.
Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada, Açores em 1841 e suicidou-se em em 1891 também em Ponta Delgada.
Poeta, filósofo e político, Antero de Quental estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde manifestou as suas tendências socialista. Manteve intensa actividade, quer política, quer cultural conjuntamente com outros vultos da Cultura Portuguesa da sua época. Foi um dos fundadores do Partido Socialista Português, que nada tem a ver com o actual.
Fica este poema:


Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Não tenho mais poesias completas dos poemários (3) em que trabalho actualmente. Serei obrigado a efectuar reposições de poesias de poemários completos.
Hoje a reposição de Córdoba:



Córdoba

Córdoba, punto de polvo y soledad
tu luna mora y gitana te mira y te desvela
cuando buscas, galante, a la agua.

Córdoba, punto de mora, luego gitana
tu soledad es la luna fria y llena
en en desnudo cielo de Agosto

Córdoba, la siguiriya vola con el viento
y tu, llana y altanera
punto de polvo y soledad.

Novembro, 24, 2006


António Eduardo Lico
O poeta de hoje é o angolano Viriato da Cruz.
Nascido em Porto Amboim, Angola, em 1928 e falecido em Pequim em 1973, Viriato da Cruz, a par de actividades de natureza cultural é também um dos impulsionadores do movimento político para reivindicar a independência de Angola. Foi mebro fundaor do MPLA e o seu primeiro Secretário-Geral.
Viriato da Cruz é um dos mais importantes nomes da poesia de Angola. Procurando incessantemente as raízes africanas, numa harmoniosa mistura com a Língua Portuguesa.
Fica este poema:



NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Mais uma poesia de O esboço do vento:


Epifania do vinho

Sorrio e bebo o meu vinho
Como música de Dionísio
O mosto agita a memória

E a divindade volta em glória
Rubra e doce sobre o meu corpo
Abrupta a cada gota de vinho

Sobre as flores que adivinho
Brotando do vinho generosas
E quentes de fugazes perfumes
O poeta de hoje é Raul Leal. nascido em Lisboa em 1886 e falecido também em Lisboa em 1964 foi um poeta e escritor, intimamente ligado à Revista Orpheu e ao movimento modernista português.
Causou escândalo a publicação de Sodoma Divinizada.
No que respeita à sua poesia, Raul Leal escreveu sempre em francês.
Fica este excherto de uma poesia:



Cette Mort la raison ne voit;

Pâteuse comme le limon,

Sourde, opaque comme le bois,

Ne peut sentir l'exaltation

Qui continnuellement excite

L'esprit en liberté profonde

Lorsque la Mort pur'ment l'agite

Par le fracas abstrait du Monde...