quarta-feira, 30 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Cur non mitto meos tibi, Pontiliane, libellos ?
Ne mihi mittas, Pontiliane, tuos.

(Marcial, Epigr., VII, 3)

O binómio de Newton não é belo
é apenas um binómio:

é uma expressão que permite
calcular o desenvolvimento
de (a+b)n, sendo a+b um binómio
e n um número

Se ao menos n não fosse um número...
mas é! Dizem que é até um número natural

Os números podem até ser naturais
e pode ser reclamada a propriedade dos binómios;
continuarão a ser apenas expressões
de algo que não sabemos sequer se sabemos

Alexandre tinha inveja de Aquiles
que foi cantado por Homero.
Não teria inveja daquele binómio, o de Newton;
ao que sabemos, Newton não cantava

E mesmo que cantasse!

Já tinha estragado tudo
fazendo um binómio

Binómios não se fazem;
sabe-se que se podem fazer.
mas não se fazem!

Goethe preferia a injustiça à desordem
Newton preferia os binómios
o que será pior?

O binómio de Newton não é belo;
se não fosse de Newton, nem binómio
seria belo

António Eduardo Lico
Uma poesia da poetisa cubana Dulce Maria Loynaz:

LA ORACIÓN DE LA ROSA

Padre nuestro que estás en la tierra; en la fuerce
y hermosa tierra;
en la tierra buena;
Santificado sea el nombre tuyo
que nadie sabe; que en ninguna forma
se atrevió a pronunciar este silencio
pequeño y delicado..., este
silencio que en el mundo
somos nosotras,
las rosas...
Venga también a nos, las pequeñitas
y dulces flores de la tierra,
el tu Reino prometido...,
Hágase en nos tu voluntad, aunque ella
sea que nuestra vida sólo dure
lo que dura una tarde...
El sol nuestro de cada día, dánoslo
para el único día nuestro...
Perdona nuestras deudas
-la de la espina,
la del perfume cada vez mas débil,
la de la miel que no alcanzó
para la sed de dos abejas...-,
así como nosotras perdonamos
a nuestros deudores los hombres,
que nos cortan, nos venden y nos llevan
a sus mentiras fúnebres,
a sus torpes o insulsas fiestas...
No nos dejes caer
nunca en la tentación de desear
la palabra vacía - ¡el cascabel
de las palabras!...-,
ni el moverse de pies
apresurados,
ni el corazón oscuro de
los animales que se pudre...
Mas líbranos de todo mal.
Amen.

segunda-feira, 28 de abril de 2014



Do blog Princesa Poliedrica recebi este prémio, o que muito me apraz e agradeço.

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Once… a few verses

Once I wrote a few verses

 there were nightingales on your fingers,
green snakes grew up from your hair
as if Spring was inside you

I wrote a few more
but I can’t remember them
they were destroyed
by the acid only time has

someone told me
that using the word acid
was good for my poetry
critics love reading
this word trough the poems

oh critics, see how well
I use the word acid!
What? No, I am not a chemist
nor even a grammarian
I just draw words

without knowing the meaning

If I was a poet, pardon, a critic
or a thin literate, I should know
that nightingales belong to the dawn
and snakes to the Scriptures.
Spring is a question of Cancer
or Capricorn, all depends on latitude.
I am not a geographer
and I have to finish some verses:

there were nightingales on your fingers,
green snakes grew up from your hair
as if was Spring inside you…

If you don’t mind!


António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta salvadorenho Roque Dalton:

LO QUE ME DIJO UN LOCO

Me contaste que tu padre era un pequeño mar.
Que los ángeles son unos estupidillos
Pero por las noches hacen mucho daño con sus uñas de cola de cometa.

Me contaste que en tu casa la lluvia naufraga
Y tus hermanas castran furiosas los almendros.

Me contaste que los sedientos son la gran esperanza.

Que silbar en los parques es confesarse impotente
De recuperar el vino de las palabras que uno doce de niño.

Me contaste que la mujer gorda te era desconocida
Y que por eso odiabas los gestos de su espalda.

Me contaste que era mejor no salir a la calle
Porque a cierta edad es obtuso hacer víctimas.

Me contaste que hay algo que llama luz
Imposible de explicar con las manos.

Me contaste que los árboles no son los principales enemigos
Y que no debería nada de lo que hablan desde el otro lado de las rejas..

domingo, 27 de abril de 2014

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:

Obscura é uma clara palavra

 Obscura é uma palavra que não é obscura
os poetas é que gostam de a usar.
Obscura, ela é clara na sua intenção.

António Eduardo Lico
Uma poesia de Vasco Graça Moura:

princípio do prazerà sua volta os pombos cor de lava 
nos arabescos pretos do basalto 
e gente, muita gente que passava 
e se detinha a olhá-la em sobressalto 

no seu olhar havia uma promessa 
nos seus quadris dançava um desafio 
num relance de barco mas sem pressa 
que fosse ao sol-poente pelo rio 

trazia nos cabelos um perfume 
a derramar-se em praias de alabastro 
e um brilho mais sombrio quase lume 
de fogo-fátuo a coroar um mastro 

seu porte altivo punha à vista o puro 
princípio do prazer que caminhava 
carnal e nobre e lúcido e seguro 
com qualquer coisa de uma orquídea brava 

e nas ruas da baixa pombalina 
sua blusa encarnada era a bandeira 
e o grito da revolta na retina 
de quem fosse atrás dela a vida inteira.