sexta-feira, 7 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Le silence d’une rose

Comme si tous les parfums
habitaient tes lèvres,
le silence a fermé ta bouche
comme une rose

António Eduardo Lico
Uma poesia de Li Bai, tradução de António Graça de Abreu:


O pescador

A terra bebeu a neve
e, de novo, desabrocham
as flores de pessegueiro.
O lago é prata derretida
e são ouro recente
as folhas do salgueiro.
Sobre as flores
borboletas empoadas
descansam suas cabeças de veludo.
Quebra-se a superfície do lago
quando, do barco parado,
o pescador lança as redes.
Seu pensamento está com a mulher amada.
Ele regressa ao lar,
tal como a andorinha
leva comida ao seu par.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Elegia para uma flor morta

A obscura flor morta
pensa ainda no seu perfume
quando os insectos
procuram nas suas pétalas mortas
a fragrância que a animou.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta hondurenho Rubén Izaguirre Fiallos:

Mala memoria

No recuerdo
este lunar
que hoy
aparece en uno de mis brazos.

Estuve tomando café, ayer, hasta muy tarde.
Y quizá sea eso: un pequeño náufrago de café
que no pudo llegar hasta mis labios.

Mañana, lo interrogaré más despacio:
de qué planeta vino,
quién lo trajo,
que busca en mí;
si sabe algo de poesía
o conoce sobre las bellas artes;
si está aquí de vacaciones
o piensa quedarse.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

O azul do céu azul

O azul do céu é azul
quando o céu é azul.
Quando o céu não é azul
o azul do céu não é azul.
O azul do céu quando
o Céu é azul não é bom
para os filósofos;
é só azul, sem filosofias;
e de metafísica
apenas existe a vaga
noção que tenho do azul
do céu, quando é azul.

António Eduardo Lico
Uma poesia do poeta Manuel Gusmão:

a lagartixa
o pequeno sáurio
miniatura sobrevivente
de uma adaga pré-histórica
deixa cortada
e de si separada
a cauda, a lâmina em movimento
que fica para trás e deixa fugir
o tronco e os seus velocíssimos
dois pares de pés.

terça-feira, 4 de março de 2014

Reponho uma poesia do poemário O canto em mim:

Esta abrupta sede

Brusca e abrupta sede
me prende em atmosferas
de húmidas paisagens
que desenho e canto
no vértice da tua ausência

Antonio Eduardo Lico