quarta-feira, 4 de abril de 2012

Momento de apresentar Afonso Duarte, nascido em 1884 e falecido em 1958, participa em todas as novidades poéticas e literárias da sua época. Também autor de uma obra pedagógica notável e de repercussão europeia, deixo uma magnífica poesia do autor:


Rosas e Cantigas

Eu hei-de despedir-me desta lida, 
Rosas? - Árvores! hei-de abrir-vos covas 
E deixar-vos ainda quando novas? 
Eu posso lá morrer, terra florida!   

A palavra de adeus é a mais sentida 
Deste meu coração cheio de trovas... 
Só bens me dê o céu! eu tenho provas 
Que não há bem que pague o desta vida. 
  
E os cravos, manjerico, e limonete, 
Oh! que perfume dão às raparigas! 
Que lindos são nos seios do corpete! 

Como és, nuvem dos céus, água do mar, 
Flores que eu trato, rosas e cantigas, 
Cá, do outro mundo, me fareis voltar. 


terça-feira, 3 de abril de 2012

O meu 4º projecto poético recebeu o nome Amanhecer obscuro
Ficam os primeiros 2 poemas:



Amanhecer obscuro

Oh noite, companheira indecisa
da clara lua e anónimos rouxinóis;
cobre-me com os teus cabelos longos,
deixa-me vogar na tua penumbra
e atravessar a anunciada madrugada
rumo à desconhecida manhã


De que me serve fugir
de morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

(mote de Luís Vaz de Camões)

De que me serve fugir?
Eu não quero fugir;
quando se foge, leva-se tudo,
leva-se o corpo, leva-se a alma
vai-se só, permaneces-se só.
Eu quero ficar,
ficar, mas fugindo,
sem permanecer em mim.


António Eduardo Lico




Escolhi para hoje a poesia de Fernando Pinto do Amaral.
Nascido em 1960, frequentou Medicina, desistindo do curso por falta de vocação. Mudou para Letras e fez o curso de Filologia Românica.
Fica esta poesia:


Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Deixo as últimas quatro poesias de A rosa é a via:





A uma flor que brilhava e não era rosa...

Como brilhas florzita campestre e humilde!
Já lá vem a madrugada para te amaciar a sede;
A alva não está longe, para te ocultar o perfume.





O eterno segredo das rosas

 Porque uma rosa é sempre uma rosa
mesmo se não existe?
Uma rosa existe sem rios,
sem água, apenas com
a ideia de ser um dia uma rosa
que um dia poderá despontar,
efémera como convém a uma rosa,
e eterna no mistério
de perfume e de silêncio.


Rosa sembrada en la luna mora

 Eres una rosa, quasi sin color
Y solo la luna mora la miraba

Ay lunita mora de los secretos
dale agua a la rosa, que se muere

Ay lunita mora de voce de seguiriya
dale tu pañuelo verde a la rosa

Ay lunita mora de lluva morena
dale tu agua a la rosa



O Tempo e a rosa

O Tempo tem um silêncio infinito
e perfumes de flores negras.
Desfila perante nós,
velado, e enfeita-se de anos,
meses, dias, horas, minutos, segundos.
Quem ousa colher as negras rosas do Tempo?




António Eduardo Lico





António Osório, advogado e poeta, é o autor de hoje.
Dirigiu a Revista Anteu onde publicou os seus primeiros versos e ainda um texto teórico "Natureza e Missão da Poesia", onde face ao mistério de sermos humanos, propões s celebração da vida nos seus pequenos afectos e actos.
Nascido em 1933 em Setúbal, António Osório é uma das vozes mais originais da poesia portuguesa contemporânea.
Fica esta poesia:

Peso do Mundo

A poesia não é, nunca foi
uma enumeração ou composto
de exuberância, bondade,
altitude, nem arado
ou dádiva sobre chão
prenhe de mortos.

Nem o arrependimento
de Deus por ter criado o homem
com o rosto da sua memória,
ao lado dos seus vermes.

Tão-pouco fôlego dos que amam
abrindo a porta límpida
do corpo e chovendo sobre a terra,
ou carregam como tartarugas
o peso do mundo.

Nem reverência por um tigre,
pela leveza maligna de todas as patas,
pela sonolência junto à estirpe
aprisionada também
na dureza de ser tigre.

É o milagre de uma arma
total, de uma só palavra
reduzindo o átomo à completa inocência.

domingo, 1 de abril de 2012

Mais três poesias de A rosa é a via:





Se houvera uma rosa em Gaza...

Quantas rosas nascem
nos olhos  das tuas crianças?
São jardins os olhos
das tuas crianças, Gaza?
A tua terra, Gaza,
é de ferro e é de fósforo.
Gaza, não és Sodoma, nem Gomorra,
porque  que te cai fogo dos céus?
Gaza, um dia, quando
todos os profetas partirem para longe
vou ver nascer rosas nas tuas oliveiras.


As rosas que não existem...

As rosas que não existem
são as melhores!
Terão todos os odores
e todas as cores.
O seu perfume inexistente
perder-se-à ao longe, puro
e jamais será desvendado.


A sudden flower

 A sudden and unexpected flower
emerges on the corner of your smile
as the rose arises alone on the grass.


António Eduardo Lico


Após uma viagem com escala em Madrid, estou em Lisboa para uns dias de férias.
Dia para a poesia de António Gedeão.
De seu nome, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, na poesia é António Gedeão.
Estudou Físico-Químicas, e depois Ciências Pedagógicas. Com uma vida intensamente dedicada ao ensino, que vive com verdadeira paixão, a escrita continuava a ser uma das suas paixões. Só em 1956 publica o seu primeiro livro de poesia, e sob o nome de António Gedeão.
Autor de uma poesia intensamente musical e plena de harmonia, Gedeão é um dos poetas com mais poesias musicadas.
Fica este poema:



Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.