segunda-feira, 11 de junho de 2012

Fugindo à regra, hoje vou colocar mais um poeta. Trata-se de Fernando Grade.
Nascido no Estoril em 1943, Fernando Grade é poeta, artista plástico. Foi um dos fundadores do Desintegracionsimo, um movimento poético surgido e,1964-65,
Fica este poema:



UMA RAPARIGA NA GRONELÂNDIA
OU JANTAREI O TEU CORPO SOBRE O GELO




Desenho de Fernando Grade



RAPARIGA sentada corpo torcido de neve ó ventre guloso
na última aldeia a mais triste e fria de todas
aquela onde a Gronelândia acaba
onde os seios ficam sempre pequenos
rapariga na Gronelândia sentada na neve e sonhando com a aldeia
ao fundo de todos os sonhos e todas as pernas
num arbusto à míngua de sol onde os seios ficam sempre pequenos
Rapariga de neve eis amanhã o dia que vem no meu sangue
que há milhares de anos está marcado com uma flor silvestre na minha agenda
amanhã hei-de jantar o teu corpo sobre o gelo
compassadamente como quem afaga os cabelos a uma prostituta

Depois inventarei uma colher de pau para o urso branco
talvez lhe chame irmão numa paisagem cheia de cordas e algum sangue
e descerei o rio à procura da cabana onde tenho um gesto novo para afagar os teus cabelos
rapariga na Gronelândia sentada onde a neve acaba
na última aldeia onde os seios ficam sempre pequenos
ventre de tripas geladas a contar uma história à sombra dos icebergues
sem saber que a esta mesma hora tenho um primo em Saturno
bebendo à saúde dos esquimós
e fazendo a apologia das focas e do último mamute morto na Sibéria

Amanhã por entre os cabelos do sol jantarei o teu corpo sobre o gelo
num sítio onde as morsas costumam brincar aos sexos trocados
e talvez a brisa me traga notícias de Gengiscão
e da primeira virgem sueca que se envenenou com arsénico
Rapariga na Gronelândia no gelo sentada
fazendo contas às veias e sabendo que as pernas esbeltas cheirando a Maio
fazem bem ao nariz e aos olhos dos adolescentes

E quando estiver a jantar o teu corpo sobre o gelo
haverá música por dentro dos esquimós
e talvez se lembrem de pôr nos dentes
a primeira palavra que esteve na boca do povo
quando as crianças sorriam sem saber da existência das facas
E de piroga desceremos de rio em rio os dentes no busto marcados
à procura de outra música que vem das estepes
e nos fala de Borodine e dos pés grandes do Príncipe Igor

Então subimos de música no peito e nem a tua língua pára
e nem as minhas mãos perdem o calor das tuas pernas
rapariga na Gronelândia no gelo sentada
na última aldeia de todas a mais triste e fria
precisamente onde a Gronelândia acaba
onde os seios ficam mais pequenos sempre
rapariga torcida de neve cheia de vento e de esperma
recitando nos meus lábios a história do primeiro viking

E jantado o teu corpo sobre o gelo as veias regressando ao dó menor
haverá música de cabana em cabana e no largo X onde as crianças acordam de nervos na mão
sobre os meus ombros sentirei o bafo de Mokrousov
rapariga sentada na neve o corpo torcido
na última aldeia a mais triste e fria de todas
onde a Gronelândia acaba e os seios ficam sempre pequenos
ó moça boreal tudo em ti foge para os meus músculos
precisamente na hora em que os esquimós aprendem a fazer amor

E de gesto em gesto entro na tua carne perdida na Gronelândia
na aldeia mais triste e fria de todas
onde a Gronelândia acaba e os seios ficam sempre mais pequenos
rapariga sentada no gelo torcida de neve
e desço sobre ti ao fundo de todos os sonhos e todas as pernas
ó ventre guloso perdido entre os icebergues
onde Mokrousov cantando sorrindo atravessa o mar
e enrola-se nos teus cabelos para te dizer
que "Tu estás sempre bonita"

2 comentários:

  1. aún sin entender mucho tu idioma, noto buenas vibraciones en tus letras
    un saludo roberto

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  2. Gracias Roberto.
    Bueno Cervantes dice un dia que el castellano era portugués con menos "s".
    Saludos.
    Antonio,

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