sábado, 29 de junho de 2013

Reponho uma poesia do poemário Amanhecer obscuro:


Cur non mitto meos tibi, Pontiliane, libellos ?
Ne mihi mittas, Pontiliane, tuos.

(Marcial, Epigr., VII, 3)

O binómio de Newton não é belo
é apenas um binómio:

é uma expressão que permite
calcular o desenvolvimento
de (a+b)n, sendo a+b um binómio
e n um número

Se ao menos n não fosse um número...
mas é! Dizem que é até um número natural

Os números podem até ser naturais
e pode ser reclamada a propriedade dos binómios;
continuarão a ser apenas expressões
de algo que não sabemos sequer se sabemos

Alexandre tinha inveja de Aquiles
que foi cantado por Homero.
Não teria inveja daquele binómio, o de Newton;
ao que sabemos, Newton não cantava

E mesmo que cantasse!
Já tinha estragado tudo
fazendo um binómio

Binómios não se fazem;
sabe-se que se podem fazer.
mas não se fazem!

Goethe preferia a injustiça à desordem
Newton preferia os binómios
o que será pior?

O binómio de Newton não é belo;
se não fosse de Newton, nem binómio
seria belo

António Eduardo Lico

8 comentários:

  1. Este binômio aqui desvelado nos seduz, António. Ao que me parece há uma secreta intimidade entre você e as palavras.
    Abraço grande,

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    1. Trata.se de uma poesia feita a partir de uma poesia de Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos - " O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo/O que há é pouca gente para dar por isso". Eu quis criar uma antítese, porque a Arte pode sempre contemplar o oposto.
      Abraço Caro amigo. Bom Sábado.

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  2. Sólo en verso me gustan los números.

    Saludos

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  3. Leia-lhe uma boa aderência.

    Fim de semana feliz António.

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